A Gruta do Lou

Cadê o Peixe?

Quando vocês lêem a Bíblia, a impressão inicial pode distorcer os fatos relatados.

É o caso daquela noite fatídica, quando aqueles excomungados coletores de impostos, parecidos com essas empresas de telemarketing dos dias atuais, ou talvez devêssemos chamá-las de telecobrança, vieram nos cobrar o imposto. Naquele tempo, funcionava assim, não estava embutido nas operações comerciais, como agora. Cara, estávamos com o pagamento atrasado, uns três ou quatro meses, em média, mas alguns, como eu, estavam sem pagar há quase dois anos. A conversa não foi nada agradável, os coletores nos ameaçaram e não era com essas bobagens atuais como SCPC e SERASA *, naquele tempo, poderíamos perder nossas cabeças se Cesar acordasse de mau humor, por causa disso.

Então, surgiu um outro problema: Como dizer isso ao Mestre? Inclusive, ele também estava na lista dos devedores, e não era pouco a parte dele. Decidimos contar a ele devagar e com jeito, pois o dia dele não fora fácil. Entramos na sala como quem não quer nada, mas antes de começarmos ele me fez aquela pergunta embaraçosa sobre “de quem os reis da terra cobram os impostos, etc.”

Em seguida saiu com aquela solução esdrúxula de me mandar pescar com vara e anzol, coisa que eu detestava fazer, para achar uma moeda de quatro dracmas dentro do primeiro peixe pescado. Aliás, o Mestre sempre me achou com cara de pescador e aquela não foi a primeira nem a última vez que ele me mandou pescar, como se eu não soubesse o caminho da pedras. Com o resultado daquela pescaria ridícula eu deveria pagar o nosso imposto, o dele e o meu, sendo que só eu faria aquele ato insano. Não é demais lembrar que o Mestre não aceitava discutir suas ordens, ele era autoritário, mesmo.

Todo mundo pensa que dei uns doze passos e já estava no trapiche com aquele chapeuzinho ridículo, vara, anzol e isca nas mãos e foi só lançar a linha e pimba, lá estava o peixe, com aquela linda moeda, fisgadinho. Balela! Estávamos longe da praia, era noite, estava frio pra caramba, eu não tinha a menor idéia de onde arrumar uma boa vara de pesca e muito menos as iscas. Saí dali, meio sem rumo e vaguei a noite inteira. Pior, alguns adolescentes, desses largados pelos pais, me seguindo o tempo todo, pois queriam ver de perto o milagre, coisa que nem eu nem eles acreditávamos. Eles tinham tanta certeza que aquilo não daria certo e, sem dúvida, tratariam de espalhar a notícia de meu fiasco por todas as vilas em redor. Em outras palavras, o Mestre tinha agido inconseqüentemente, mais uma vez, e a vítima era eu, como sempre.

Bom, só consegui arrumar a geringonça com o amanhecer, e não foi fácil. No litoral, todo mundo, inclusive eu, pescava com rede. Achei uma vara de pesca meia boca, em uma loja de artigos do mar. O dono da loja me cobrou uma nota para emprestá-la, pois o objetivo dele era vender e não alugar. Ainda bem que aceitou receber na volta, pois eu estava liso. Dali, fui aos meus antigos companheiros de pesca mendigar umas iscas. Então caminhei uns três quilômetros de praia, até encontrar um trapiche velho e inseguro para pescar com aquela porcaria. Todo mundo sabe que pescar com vara e anzol em beira de praia é coisa de principiante ou tolo.

Ali fiquei o resto do dia. Quem já pescou no mar, com vara, sabe como os peixes se comportam. Eles são uns gozadores e você entra em um jogo com eles. Põe a isca, lança a linha e espera. Depois de muito tempo, sente mexer e depois para. Tira a linha e lá se foi a isca. Esse jogo durou o dia inteiro, sob a tutela dos adolescentes com aquele risinho estampado nas faces. Cadê o peixe? Perguntei o dia todo. Já estava começando a escurecer quando a linha finalmente esticou e senti que algo a estava puxando. Devagar, fui trazendo até tirá-lo da água. Era um peixe grande e bonitão. Coloquei-o sobre a sacola de lona e segurei. Pude sentir que havia algo estranho dentre dele. Peguei a faca e cortei. Pronto, lá estava ela: a moeda de quatro dracmas, bem como o Mestre previra.

Olhei em volta e nada de adolescentes. Cansados de esperar, haviam voltado e, claro, espalhado a notícia de que nada acontecera.

Voltei a pé os três quilômetros de praia e mais um até minha casa. Àquela hora o departamento de receita fiscal já estava fechado e só poderia fazer o pagamento no dia seguinte, que por sinal era sábado, ou seja, tive que esperar até segunda feira, o primeiro dia útil. Foi uma tentação estar com toda aquela grana em casa e não poder gastar em coisas mais práticas, como comida, vinho, etc. Na segunda-feira fui ao departamento, a fila dava a volta no quarteirão. Fiquei lá a manhã toda, até conseguir fazer o pagamento. E ainda fiquei com fama de mentiroso, pois ninguém viu se, de fato, o dinheiro veio de dentro do peixe. Ainda bem que os evangelistas tiveram pena de mim e incluíram esse acontecimento entre os milagres bíblicos. Nunca entendi porque ele não arrumou grana para pagar o imposto da turma toda. Fiquei com pena da rapaziada que continuou sem poder comprar a crédito e duros feio pau de sebo.

Sei bem o que passam esses pobres diabos que acreditam em tudo o que está na Bíblia. Todo mundo chamando-os de vagabundos, gente que não paga as contas, vivem esmolando e chegam ao cúmulo de não ter gás para cozinhar em suas casas. Quando os milagres lhes acontecem, ninguém vê e muito menos acredita neles. São tomados por mentirosos. Isso é o menos importante a dizer. Alguns viram escritores de blogs e, enquanto escrevem seus posts, não param de receber E-mails e chamadas em seus celulares com mensagens de cobrança, sob risco de Serasa, SCPC, etc.

Vai lá meu, pega teu peixe e paga por você e por mim, se tiver fé para isso. A vida com o Homem não é mar de rosas, meu caro, é mar de peixes exóticos.

* SCPC e SERASA : Excrecências brasileiras a serviço dos poderosos contra os mais pobres, lógico, que mantém listas dos devedores para impedi-los de comprar a crédito, arranjar emprego e fazer bons casamentos.

15 thoughts on “Cadê o Peixe?

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  5. Olá Lou, meu bom amigo

    Mas que grata surpresa encontrá-lo agora aqui!

    Sorri de satisfação, creia.

    Gostei de ler o seu interessante texto.

    Deixo-lhe um abraço muito amigo e o desejo de um bom entardecer.

    daqui de longe

    viviana

    O entardecer aqui em Sorocaba está lindo, aliás esse é um lugar privilegiado em termos de entardecer. Com o seu desejo, o responsável celestial por entardeceres caprichou ainda mais. 🙂

  6. Olá Lou, meu bom amigo

    Mas que grata surpresa encontrá-lo agora aqui!

    Que bom!

    Sorri de satisfação, creia.

    Apreciei muito o seu texto.

    Como sempre, muito bem escrito.

    Deixo-lhe um abraço muito amigo e o desejo de um bom entardecer.

    viviana

  7. Achei que a carverna era do Lou…de repente só encontro outros autores…é assim mesmo?

    Ah! O Khalil é uma alma gêmea e Pedro… bem… você sabe… é Pedro, não posso negar nada a ele, afinal é a pedra sobre a qual Ele erigiu a igreja (os católicos adoram citar isso), enfim a Caverna é brasileira e sempre se dá um jeito.

  8. Você deve saber que este é um milagre especialmente marginal numa Bíblia cheia de milagres marginais.

    Alguns intérpretes acham que Jesus estava realmente zombando da cara dos cobradores de impostos e de Pedro com a história do peixe; que o que ele queria dizer era algo do tipo “é mais fácil acontecer um milagre do que eu pagar essa taxa”, ou, em melhor português, “é ruim eu pagar isso aí”.

    Outros acreditam ainda que o milagre nunca aconteceu, devido à absoluta singularidade da narração e à falta de evidências posteriores. É o único milagre dos evangelhos em que, depois de uma ordem clara de Jesus, o texto não diz explicitamente o que aconteceu depois, algo como “então fulano foi lá e aconteceu como Jesus havia dito”. Se Pedro de fato foi, talvez a moeda não estivesse lá — porque o evangelista se absteve sensatamente de confirmar.

    Não falei? 🙂

  9. Olá,Lou!!!É você mesmo no trapiche???

    Deixe-me contar-lhe um segredo: Se alguém disser que estou pescando, não acredite. Detesto pescarias. Até pesquei um pouco quando era menino lá na Vila Mirim, onde tínhamos uma casa, para não dizer cabana, nos dias da desova das tainhas. Era uma farra, porque pegava um peixe atrás do outro. As tainhas eu devolvia ao mar, os bagres eram retirados mas não aproveitados e os perna-de-moça iam para casa. Espero que você conheça essa espécie. Não faço idéia de quem seja esse senhor da foto. Normal ele não é. Se fosse não estaria pescando. 🙂

  10. Ô Brabo! Para de azarar os milagre do hôme, seo incrédulo!!! Num vê qui ele contou tintim pot tintim? Ué, cê acha então que ele ia mentir com tudo esses detalhes, é? Só faltô dizê si era badejo ou baiacu…

  11. Oi Lou,

    Vejo que o buraco está cada vez mais fundo. De gruta para caverna é um ótimo progresso. Quem disse que você era contrário a teologia da prosperidade não entendeu nada.
    Fiquei pensando, que tal criarmos um cofrinho em forma de peixe, nesses tempos de gripe suína não seria uma boa idéia ?

    Um beijão na careca.

    Ah… não resta nenhuma dúvida. Ninguém, mais do que eu, gostaria que o pessoal da prosperidade estivesse certo. Já imaginou se Deus me desse dez vezes mais tudo que já andei distribuindo por aí, em igrejas e pessoas? E se eu achasse uma moeda daquela em cada “peixe” que pesquei? Mas você e eu sabemos que as coisas não são bem assim e Deus não ficaria bem na fita se apoiasse essas idéias, digamos, mais de vanguarda. Ele é mais conservador, certo? Beijo na careca, obrigado.

  12. Aquele que se intitulou Filho do Homem tem lá suas manias nada convencionais.

    O leão da Receita Federal anda querendo tragar aqueles que andam inadimplentes, alguém disse por aí.

    A impressão interpretativa da pura e simples leitura da bíblia nos leva a situações que muito embora não sejam como lemos, estimula nossa esperança.

    Quem fez esse relato, omitiu boa parte dele e deixou, não propositalmente, uma idéia distorcida, de facilidade ou magia irreal. A vida é dura e o destino de Nosso Senhor não deixa dúvida. Quem quer me seguir, tome sua cruz… No mundo tereis aflições… e essa é a realidade.

  13. O propósito da nova versão internacional falhou; há muito jogo de interesses e por isso deixou muito a desejar. Agora essa estória que você contou aí foi boa, gostei. Uma estória assim agente só encontra na gruta, quero dizer: Caverna do Lou.

    Putz meu! Você quase tocou no ninho da águia. Trabalhei um pouquinho na SBI (Sociedade Bíblica Internacional) do Brasil, já nos tempos de distribuição, mas logo depois dela ter ficado pronta. Meu amigo Robson Ramos deu dez anos da vida dele nessa tarefa, coordenando a SBI nesse tempo. Posso lhe assegurar que o pessoal envolvido na tradução (direto das línguas originais) era da melhor estirpe, sob a coordenação do Dr. Russel P. Shedd. Tive oportunidade de conhecer a maioria deles. Há um livro (NVI A Bíblia do século 21) escrito por Luiz Sayão, um dos tradutores da NVI em português, que é muito interessante em termos de elucidar os critérios dessa tradução. Depois dela pronta, começaram os problemas relacionados à distribuição e direitos de fazê-lo e aí sim, houve o tal jogo de interesses. Pode não agradar doutrinas corinthianas ou palmeirenses, mas é confiável.

  14. Lou, perdão. A falha que me referi, não foi de tradução, mas de critério em eliminar os acréscimos colocados, com o intuito da dar suporte a crendices. Foram eliminados alguns, mas não todos. Uso a NVI; acho a tradução boa e recomendo.

    Abraços.

    Fique tranqüilo, não é para tanto. Foi uma forma de brincar com você, embora tenha sido verdade que andei por lá, aliás aprendi muito. Sabe o cara que chega e comenta sobre a loura lá perto da escada e você vira e diz: aquela de blusa sanfonada? Sim, ela mesmo. Responde a vítima. É minha esposa. Você arremata.🙂

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