Brasília, uma folha caída no outono


No dia 21 de abril comemora-se o aniversário da capital brasileira, Brasília. Essa data, como quase tudo, foi mal escolhida, pois sobrepõe-se a acontecimento muito mais importante, a inconfidência mineira e o líder desse movimento subversivo, um tal de Tiradentes (Joaquim José da Silva Xavier). Como sempre, os caras responsáveis por escolher essas datas não dispõem de nenhuma criatividade. Para não ficar nisso, anos depois, resolveram anunciar a morte do mineiro Tancredo Neves, que, segundo as mas línguas, jazia morto há vários dias, então presidente do Brasil, escolhido de forma indireta por um trem chamado Colégio Eleitoral. O escolheram porque o outro candidato era um tal de Paulo Maluf. A sugestão mais lúcida, agora, seria juntar tudo e comemorar nessa data o “dia dos mineiros“. A inauguração de Brasília deu-se nessa data, porque os aduladores de Juscelino Kubitschek de Oliveira, o presidente que liderou a construção da capital, era outro mineiro, natural de Diamantina, uma próspera e importante cidade daquele estado.

Quando eu dirigia a Creche Municipal do Jardim Vista Alegre, na região da Freguesia do Ó, ia para o trabalho utilizando duas conduções, primeiro um ônibus das imediações da Av. Dr. Arnaldo onde residia e depois outro que tomava na Av. Antártica. Esse segundo autocarro (como diriam os irmãos portugueses) era administrado pela Viação Brasília. Para fazer jus ao nome, nada nessa empresa funcionava, dos veículos aos funcionários, passando pela mais completa falta de organização. Uma manhã, quando o atraso já superava duas horas, um dos esperadores, que estava comigo no ponto, iniciou discurso reprobatório assim: “Brasília! Esse nome só me dá azar, primeiro aquela vergonha que chamam de capital, depois o meu carro razão pela qual estou aqui a mercê dessa outra desgraça, que é esse ônibus maldito dessa empresa dos diabos”.

Não se enganem os mais jovens, que a essa altura foram contaminados com a ideia equivocada de que Juscelino Kubitschek tenha sido um mau presidente. Se não me engano, ele foi o melhor presidente que nosso país já teve e, talvez, terá. Sua ousadia em peitar os cariocas e deslocar a capital do Rio de Janeiro para o centro geográfico do País, com o objetivo de descentralizar o poder e desenvolver a vastíssima região central, norte e oeste foi, seguramente, o mais incrível ato governamental de que se tem noticia por aqui.

Antes disso, tudo que se podia narrar em termos desenvolvimento eram os feitos de D. João VI rei de Portugal, quando esteve no Rio na século XVIII (O rei trouxe a Missão Francesa para o Brasil, estimulando o desenvolvimento das artes em nosso país. Criou o Museu Nacional, a Biblioteca Real, a Escola Real de Artes, o Jardim Botânico, o Teatro Municipal e o Observatório Astronômico. Vários cursos foram criados (agricultura, cirurgia, química, desenho técnico, etc. nos estados da Bahia e Rio de Janeiro.) e os de Adhemar de Barros em São Paulo (Universidade São Paulo, Hospital de Clinicas. Ceagesp, em vários polos, Rede de estradas rodoviárias, Serviço de Ensino Vocacional, etc.). Embora nada disso se compare ao feito de liderado por Juscelino. Construir uma cidade de ponta a ponta, para ser a capital de um país das dimensões do nosso, não tem nada que se compare. Talvez em importância, só os feitos de Nero, Nabucodonossor, os Faraós e Ciro o grande, em quem o Juça pode ter se inspirado.

Como o forte de Juscelino não era a criatividade, afinal ele era médico, muito menos possuía competência em urbanização, arquitetura ou construção, inteligentemente, tratou de convocar os arquitetos Oscar Niemayer e Lúcio Costa para planejar e coordenar a execução do trabalho, dentro do prazo de cinco anos, tempo de duração de seu mandato. As obras iniciaram-se em 1956 e terminaram em 1960, a tempo.

D. João VI, Juscelino Kubitschek, um regente e um presidente, com Adhemar de Barros, governador e Roberto Faria Lima prefeito de S. Paulo, respectivamente, foram os únicos lideres do poder executivo capazes de planejar e executar obras estruturais em toda a nossa história política. Nós não temos o hábito de perguntar pelo projeto dos políticos antes de dar nosso voto obrigatório a eles.

Com a construção da capital Brasília, ocorreu um dos maiores deslocamentos internos de mão de obra, com a chegada de populações de todas as partes do país, sobretudo das regiões central e nordeste. Terminada a obra, essas populações instalaram-se na periferia da nova cidade, dando inicio a uma imensa área de concentração de população de baixa renda. Esse evento produziu um imenso e bizarro contraste naquela cidade, fato que só aumentou, desde então. Atualmente, Brasília é uma das cidades brasileiras onde se localiza um dos maiores contrastes sociais do Brasil.

Sem falar que com a mudança da capital do Rio de Janeiro para Brasília, ficou para trás um contingente incontável de ex-funcionários públicos que nunca havia trabalhado sério para viver. Talvez isso explique, em parte, a situação de insegurança daquela cidade, nos nossos dias. Sorte da cidade haver uma contrapartida de gente honesta e trabalhadora que, apesar de toda a dificuldade, segura as pontas e contribui para gerar a renda necessária. Até hoje, a união desloca grande parte do orçamento para manter as contas cariocas equilibradas.

Brasília é uma obvia derivação do nome Brasil, fadado a não trazer boa sorte a ninguém. Anos atrás, acrescentei brasil às minhas iniciais e passei a chamar a minha consultoria de lhmbrasil. Desde então, os poucos clientes que tinha sumiram. Parece que todo mundo por aqui cultiva a máxima de se ai brasil soy contra. Atualmente, retirei o brasil e a consultoria chama-se LHM-6. O número foi escolhido segundo indicação da numerologia. Por enquanto não redundou em nada, mas também não piorou, se é que isso seria possível.

Oscar Niemayer, que se diz ateu, planejou uma catedral cujo desenho representa a integração religiosa, embora certa igreja tenha tomado a seu cargo a administração eclesiológica do lugar, se não me engano.

Desde aquela época, era comum, sobretudo na política, o ato de “satanizar” os desafetos. Janio Quadros, um político sabidamente demagogo, que nunca construiu nada relevante em todas as vezes que esteve à frente do executivo (nas três esferas) tratou de satanizar Adhemar de Barros a nível estadual e o Juscelino no plano nacional. Foi ele quem sucedeu o fundador de Brasília na presidência da republica, de onde saiu através de renuncia pífia, tendo se notabilizado por proibir a Briga de Galos e o biquíni nas nossas praias.

Brasília, atualmente, é o palco de tudo que pode acontecer de ruim a um povo, infelizmente. Mas é uma cidade lindíssima, não há duvida, se conseguirmos visita-la sem olhar além dos limites urbanos criados por Costa e seus pares.