A Gruta do Lou

Bater para abrir, dar e receber


“Porque já sabeis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo que, sendo rico, por amor de vós se fez pobre; para que pela sua pobreza enriquecêsseis”. II Cor 8:9

O pessoal da Auto-Ajuda utiliza, não raramente,  o velho e eficaz  método conhecido como maniqueísmo. Para eles, a melhor forma de comunicar-se com pessoas em estado de pobreza  financeira é fazê-los vislumbrar a riqueza material.

O público alvo desse pessoal não é o mesmo que o preferido da Congregação Cristã, Lula, Dilma e Cia. As congregações da Auto-Ajuda agregam pessoas com contas bancárias estouradas, mas que jamais seriam atraídas com esmolas do tipo Salário Mínimo, Bolsa Família ou Leve Leite. A maioria delas tem formação escolar razoável e expressa-se pela norma culta. Em outras palavras, são ricos intelectuais, mas financeiramente disfuncionais. Sabedores disso, os autores e preceptores da Auto-Ajuda tratam de atrair esse segmento com promessas mais elevadas e atraentes, inclusive porque, invariavelmente, eles próprios foram como eles, um dia.

Qualquer semelhança  a essas palavras com pressupostos utilizados pela turma do neo-pentecostalismo de um lado e da ortodoxia ou neo ortodoxia do outro, não será mero acaso. Se não me engano, tanto um quanto o outro lança mão das ferramentas maniqueistas, sem qualquer pudor. Pobre do Agostinho, deve estar todo arranhado, em seu túmulo ,de tanto debater-se diante de tanta insanidade.

Particularmente, acho a tradução do versículo acima um tanto forçada, cujo maior problema é afastar o leitor das verdades  espirituais que ele encerra. Jesus Nazareno nunca foi rico segundo nosso entendimento de riqueza ou como nós, o produto  mal acabado do sistema globalizado, entendemos. Tão pouco se fez pobre segundo o mesmo entendimento. Nosso épico Cristo simplesmente viveu por outros meios e escandalizou a todos, propondo-lhes viver como ele viveu. Jesus Cristo viveu pelo sistema “Vida pela Fé”. Nesse sistema não havia salário, emprego, escola ou hierarquias, nem empresas, fossem elas do primeiro, segundo ou terceiro setor, públicas ou privadas. Seu modo de vida era enriquecedor no significado amplo  e  metafísico da palavra.

Ao rejeitar o sistema desse mundo, o Galileu escancarou as portas da liberdade aos escravos compulsórios dele.

Uma pré figura do Emanuel foi Elias em sua visita furtiva à viúva de Serepta. Para libertar a mulher, o profeta tratou-a com grande astúcia, solicitou uma contribuição da mulher falida. Ao doar a única posse restante naquela casa, um pouco de farinha transformada em poucos bolinhos, sem perceber, a senhora estava rompendo com seus últimos vínculos, as correntes que a mantinham presa ao sistema perverso da raça humana. Sem dúvida, uma forma concreta de lidar com o conceito abstrato de fé. O Galileu também precisou tornar seus ensinamentos concretos, não raras vezes. Até o Bispo Macedo e seus irmãos (ou primos) batistas o fazem, não raramente, como o uso de exemplos e parábolas extraídos de fatos do cotidiano.

Meu estado maltrapilho tem me ajudado a libertar ou pelo menos aliviar as amarras que mantém as pessoas ao curso desse mundo neo liberal. Costumo causar atitudes de contribuição e apoio nas pessoas, por diversas razões e penúrias. Quando chego às pessoas estou como o profeta e, de uma forma ou de outra, solicito algo delas através de meu estado de mendicância. Na verdade, estou levando-as a atitudes de fé, coisa que dificilmente aconteceria se nossa conversa se desse da mesma forma que as reuniões acontecidas nas ante-câmaras dos bancos comerciais.

O problema é que sou humano, muito diferente de Elias e de Jesus da Galiléia, nem se fala. Depois de uma ou duas dessas experiências libertadoras, qualquer um começaria a arquitetar planos mirabolantes de enriquecimento e ao invés de libertar as vítimas desse mundo que jaz no maligno, o cara viraria bispo, apóstolo ou o raio que o parta. Mas, estranhamente, apesar de uma ou outra escorregadela, aqui e ali, sem maiores consequências ou prejuízos, a não ser a mim mesmo, os anos passaram e consegui me manter sem mácula, pelo menos, sem proveito próprio algum, muito pelo contrário.

Depois de todo esse tempo militando no exército grutense dos maltrapilhos, talvez nos mesmos moldes ou algo pensado pelo General William Booth, fundador do Exército de Salvação, organização onde tive o privilégio de colaborar durante um ano, em São Paulo, percebi que meu estado maltrapilho era necessário, porque o evangelho é maltrapilho e exige abnegação, desapego e independência. Jamais alguém com o rabo preso ao sistema financeiro globalizado obterá sucesso em salvar as pessoas das garras dos zeladores do inferno.

Entretanto, não me tomem por algum tipo heroico, longe disso, não há um dia em que não penso em alguma forma de me acovardar e me entregar de mão beijada para o demo e suas tentações. Por alguma razão, ou algumas razões, as quais vivo a lamentar, não tenho logrado êxito em apostatar. Talvez me manter longe dessas igrejas modulares dos nossos dias tenha me ajudado bastante. Nessa altura já estou com vontade de sair por aí me vangloriando da proteção que o Criador e seus anjos tem providenciado a mim e minha família, a segunda vítima. Claro que tenho dificultado de todas as maneiras possíveis, mas o Senhor não tem esmorecido comigo, felizmente.

Em um jargão bem maniqueista e ao gosto dos donos das oligarquias evangélicas ou como queiram chamar, tomara que o bem vença o mal. Não tem sido nada fácil, não só as situações em si,, pelas quais tenho passado, mas além disso, ainda ter que ouvir piadinhas e comentários nada lisonjeiros, desses mesmos caras de pau. Pior é o medo de meu senhor me enviar a conquistá-los para o lado bom.

4 thoughts on “Bater para abrir, dar e receber

  1. Lendo Ellul – “Anarquia e Cristianismo” – ve-se que o caminho é esse: militar no exército grutense dos maltrapilhos.
    Mas, não é nada fácil deixar tudo pra trás e seguir “sem lenço e sem documento”…

  2. Rubinho
    Aquele que primeiro nos convidou a deixar tudo e segui-lo sabia que essa decisão não seria nada fácil. Mas ele era tão decente que considerou a possibilidade de não sermos capazes de “nascer de novo” e deixou a conta toda da hospedaria paga. Esse caráter dele me deixa maluco. Né não?
    Em tempo, o livro que você citou, poderia ser uma espécie de segunda bíblia da Gruta, como fica claro em nossos textos e discussões.

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