A Gruta do Lou

Assim começou toda a encrenca

Olha, eu não pretendo liderar exército nenhum. Foi tudo problema de má interpretação. Fui ao INCOR levar meu filho para um simples tratamento da cardiopatia congênita complexa dele, como qualquer pai faria em favor de seu filho. Lá chegando, havia milhares de pessoas sentadas em bancos de madeira com a pintura descascando, alguns pregos à vista e outras tantas em pé. Incrível perceber que alguns pacientes não encontrem lugar para esperar sentados porque os acompanhantes dos outros doentes ocupam os lugares para sentar.

Então, acostumado a matar leões diariamente, afinal andei estilingando inimigos de Deus desde o leste europeu, passando pela costa oriental da África e pelas ruas paulistas, não temi e peitei aquelas mulheres com cara de homens e aqueles homens com cara de mulheres, quando ofereceram uma vaga em uma maca improvisada em algum canto de um pronto socorro digno do sistema único de saúde nacional, para tratar nosso filho. A goliaszinha ameaçou com o desligamento dele daquele hospitalzinho mal cheiroso, em nome de Golias, o grande e armei minha funda. Mais uma ameaça e pimba, derrubei o gigante de novo e em definitivo, agora. Juntando nossas tralhas, saímos dali.

Uma pergunta pertinente é o que ou quem toda essa gente espera. Estranho, acho que podemos resumir em uma única palavra ou nome: Saul, sempre ele. O mesmo que esteve lá em casa durante a minha infância e adolescência, foi meu maior inimigo nos tempos de escola, sempre me preterindo a às minhas redações em favor daquele excomungado do Nelson Mota, deu os votos de minerva que determinaram minha reprovação na 2ª e 4ª séries e me perseguiu de todas as maneiras, me atirando lanças e enviando todo tipo de idiotas para me acertar ou telefonar as sete da manhã com aquelas cobranças e ameaças ridículas, às segundas-feiras.

Quando comecei a trabalhar, lá estava ele de novo, naquela salinha ridícula, sentado em cadeira com braços enquanto a minha e as dos meus colegas eram manetas. Cronometrava o tempo que eu gastava no banheiro ou no café, me fazia refazer todo o trabalho só para me sacanear e me fazia ficar depois do horário dia sim, dia não. Finalmente vinha todo feliz me entregar o bilhete azul. Era o mesmo que sempre estava atrás das repartições públicas e dos caixas bancários. Também o via e acho que ainda vejo, nos uniformes policiais, sob todo tipo de jaleco branco e até na pele dos açougueiros ou zeladores dos prédios. Ah, ele também é a somatória de todos aqueles senhores e senhoras que ocupam o Congresso Nacional e as câmaras municipais e estaduais. Sem falar nos palácios de governo do estado, da república e nos chamados palácios de justiça.

Uma das principais e mais importantes formas de apresentação de Saul, por sinal, a preferida dele, é atrás da mesa de alguma gerência bancária, onde ele adora me endividar, a mim e aos meus séquitos. Depois que aniquilei Golias, e comigo não foi só uma vez, pois passei a vida derrubando todo tipo de Golias, Saul assumiu o serviço de gigante mau e não nos dá trégua.

Mas Saul gosta mesmo é de um púlpito de Igreja Grande e Rica, onde ele possa ser servido por um bando de obnóxios e eunucos, com camarão pistola, caviar e suco de pequi, fora a Harley, camisas lacoste  e os Is (Iphones, Ipads, Ipods, Macbooks, etc).

Esse é o meu eterno inimigo de quem busquei refúgio nessa Gruta e agora estou acompanhado de outros maltrapilhos iguais a mim. Eles acham que sairei daqui em algum momento para liquidar Saul em definitivo e me fazer rei de todos eles. Mas eles não sabem o quanto me sinto incompetente, não apenas de liderá-los, mas de cuidar de mim mesmo.

Enfim, assim tudo começou, matei Golias e agora tenho Saul no meu encalço e ele não me dá tréguas. Prisioneiro nessa Gruta, sei que em breve sairei para derrotar meu oponente, mas estou com muito medo.

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2 thoughts on “Assim começou toda a encrenca

  1. Temos nós que carregar as próprias cruzes e suportar os nossos Sauls, Judas, Herodes, Pilatos, Jezabeis, Elius… Ninguém o fará por nós. Já me é demasiado difícil suportar os meus, não posso fazê-lo por ti; mas posso ficar ao teu lado, quem sabe carregar teu escudo ou polir tua armadura. O medo é parte da natureza humana, mas prossegue! Esperamos para ir contigo.

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