A Gruta do Lou

As mil e uma razões de um cristão sem talento

Le MiserableLe Misérable

Resolvi, sucumbir e escrever as mil e uma razões de um cristão sem talento.

Muitas vezes dirigi-me ao serviço de reclamações celestes para contestar a minha completa falta de virtudes. Não sei cantar, nem tocar, fui um jogador de futebol medíocre, embora meu pai fosse um artista razoável. Não desenho, não pinto, sou quase baixo, estou careca, meio-gordo, orelhudo, se bem que mexo as orelhas, algo raro e não sei se isso chega a ser uma virtude.

Ainda por cima, sou pobre e metido a lutar por causas perdidas, se bem que justas, bobagens como igualdade, liberdade e responsabilidade social. Geralmente não me convidam para festas, porque costumo dizer o que não deve ser dito.

Com esses atributos cheguei a não ser muita coisa. Apenas um professor e, completamente, desprestigiado. Mecânicos tem muito mais importância, nos dias de hoje, metalúrgicos, nem se fala. Tudo bem, merecem.

Primeiro lecionei Educação Física, que deixei em 1980 a pedido da Missão. Dois anos depois, quando havia perdido todas as minhas aulas, os homens de Deus me deram um pé na bunda e não me animei em voltar a dar aulas de ginástica e esportes.

Em 1984 comecei a lecionar teologia. Entrei pela porta do Crescimento de Igreja, um tema que estava na moda, naquela época, com o Macgravan e o Peter Wagner do Fuller, lá em Orange, Califórnia, invenções norte americanas que tão rápido quanto aparecem, logo desaparecem.

Hoje, ninguém mais fala nessa porcaria, principalmente depois que o Dr. Shedd disse, lá em Recife, em um grande congresso de pastores, sobre as igrejas que mais crescem no mundo estarem no Brasil, a saber, Universal, Mundial, Graça e Renascer, sem falar nas antigas, Assembleia de Deus, Congregação Cristã e Evangelho Quadrangular.

Só voltei à Educação Física em 1993, mas parei em 1994, os adolescentes não me aceitaram muito bem, com minhas manias de higiene, generosidade, cavalheirismo e moral, sem falar nos diretores das escolas que não queriam um professor capaz de educar seus alunos (essa foi orgulho puro) no livre pensar, livre escolha e participação.

Nessa época havia deixado a Teologia. Ninguém me queria mais, ali. Fui rotulado de liberal, afinal lia Nietzsche e Rubem Alves. Alguns dos que me ajudaram a rolar o precipício do ostracismo, agora leem e citam esses mesmos autores.

A minha afirmação mais conhecida foi proferida em uma palestra, em um evento realizado nas dependências de um igreja famosa, repleta de jovens inocentes: “Pastores não são anjos coisa nenhuma” e a segunda: “Não entendo para que fazer missões na Índia, afinal, em termos espirituais, temos muito mais a aprender com os indianos”.

Então, de boca em boca, meu espaço foi encurtado entre os meus irmãos amados. Mas acho que a falta de talentos fez mais diferença. Quem quer um pregador ou professor que, além de feio, não sabe nem cantar e é liberal. Se bem que os liberais me achavam um reacionário ortodoxo e quase um fundamentalista.

Vendo gente medíocre considerar o Yancey um “grande difamador da igreja” consigo entender como puderam crucificar o Filho do Carpinteiro Galileu. Outro que não sabia cantar, tinha aquela cara de turco – judeu e era amigo de mendigos, cobradores de impostos e prostitutas. Se vivesse mais, certamente ficaria gordo e careca. Teve sorte de ir para o madeiro ainda jovem. Dá para entender porque ele vivia dizendo que os Bem aventurados eram os pobres, os que tinham sede de justiça, os famintos, os que choram, etc…

Estava preparando a própria cama. Coisas que conheço bem e, por isso, recuso-me a aceitar numa boa essas tais Bem Aventuranças.

Se ele estava falando a verdade, então sou um muito Bem Aventurado. Entretanto, não sei o que fazer com isso, nessa vida. Bem Aventuranças não pagam minhas contas, nem seguram amores. Talvez façam diferença no porvir. Mas cada dia que passa, menos creio nessa possibilidade.

Gente como eu, caminha a passos largos para o lado de baixo. Se tivesse algum talento, nem que fosse a obstinação ou a persistência, quem sabe se não fosse tão preguiçoso ou sem autoimagem positiva, a vida não seria mais aceitável ou mais palatável.

Enquanto isso sigo assistindo gente bem pouco bem aventurada se dar bem. Aquele salmista que escreveu o Salmo 73 era da pá virada. Vá ter razão assim no inferno, desculpe, onde Judas perdeu as botas fica melhor.

Sofrer já é uma grande merda, ops, melhor dizendo, uma droga. Agora, sofrer e ficar assistindo os outros tomarem sorvete em Ilha Bela, é dose muito maior.

Tudo bem, de certa forma estou conformado. Vou continuar com a minha vidinha sem graça. Até quando não sei. Outro dia quando D. Morte veio ter comigo me deu branco e dei uma de herói declarando que queria ficar para cumprir minha missão sofredora até o fim. Pior é que ela acreditou nessa mentira e foi embora, me deixando só com minha miserável sorte.

Olha, não me levem a mal, mas não digam em seus comentários que me amam. Isso tem causado sérios problemas para mim. Parece que estou de caso. Entendam, ninguém pode amar um pária como eu. Sou quase um nada, só falta me tirarem o blog para tanto. Vivo na contramão desse mundo, não tenho casa própria, carro e, muito menos, trabalho.

Ninguém pode amar um canalha desse tipo. Gente assim, só serve para ser crucificada. A diferença é que, quando isso finalmente acontecer comigo, cairei no mais completo esquecimento. Estou lembrando isso antes que alguém venha dizer que sou prepotente e estou querendo me igualar ao Nazareno. Impossível.

Alias, nem sei porque tanta gente vem ler as asneiras que vivo escrevendo. Meu, daqui não sairá nada que preste. Tem opções muito melhores na blogosfera. Gente que sabe tudo, é bonita, canta bem, tem casa própria e carrão do ano, trabalho, filhos inteiros, alguns são donos de igrejas imensas, uma competência só. Amem eles, pois são merecedores.

A mim digam: “eu te odeio seu picareta sem eira e nem beira”. Pelo menos assim, o pessoal de casa não ficará de tromba caída. Eles me conhecem bem e sabem o verme que sou. Sem falar na minha escrita. Uma grande enrolação.

Olha, geralmente, quando alguém escreve ou diz coisas desse tipo, está pedindo socorro (como diria o Zenon Lotufo Jr.) ou no popular, querendo confete. Mas esse não é o meu caso. Elogios me agridem, pois sei muito bem quem sou, pior ainda, se vierem cheios de compaixão, o pior sentimento que o ser humano consegue produzir.

Não preciso orar para Deus mudar-me. Se ele quisesse ter colocado outro “Vencedor por Cristo” no mundo, ele já teria me mandado pronto, para não ter o trabalho de reformar depois. Pelo menos não um perdedor nato como eu, em quem uma reforma está fora de cogitação. Certo? Então, pare com isso!

Deixem-me curtir a minha Gruta numa boa, pelo menos aqui, estou entre amigos e irmãos, um bando de perdedores.

Capricornio PB

11 thoughts on “As mil e uma razões de um cristão sem talento

  1. Márcia

    A idéia era escrever uma ironia com as palavras de Jesus nas Bem Aventuranças, onde ele exalta os que não são diminuindo a bola dos que pensam que são. É que eu tenho essa mania de estrelar meus próprios roteiros. Coisa de ego, você me entende. Pelo jeito, me superei de novo na minha dificuldade com a pena. Me perdoe.

  2. “Não entendo para que fazer missões na Índia, afinal, em termos espirituais, temos muito mais a aprender com os indianos”. Suspeito que isso tenha alguma coisa o Hermann Hesse e seu Sidarta. Equanto seu texto, de um modo geral, revela uma auto-estima pior do que a daquele cara do “Memórias do Subterrâneo”.

    Lendo esses caras, meu velho, você quer chegar onde?!

    Me ouça: levante a cabeça e vá ler Augusto Cury!

  3. …as vezes, quando leio vc me vejo num espelho …(seriam coincidencias capricornianas???…que não nos ouçam os seres espirituais elevados da grande e hipócrita chamada Igreja)
    ..mas mesmo assim estou viciada, não consigo deixar de ler-te.
    abraços.

  4. Lou

    Pensei no que disse por email..

    E decidi-me ir..

    Afinal, os pobres sempre os terei para ajudar, mas você, nem sei quando poderei conhecê-lo, em outra oportunidade..

    Vou te ligar mais tarde, pois tambem decidi ir mais cedo q o previsto.

    Abraços

  5. Eu te odeio seu picareta sem eira e nem beira… E nem te conheço!! Tb sou uma Cristã sem talentos e ainda por cima professora… rsrs

  6. Wander

    Venha sim, estaremos por aqui sem dúvida e com muita disposição para mostrar-lhe os atalhos nessa complicada e perigosa Sorocaba.

    Paulinha

    Você não sabe o bem que está fazendo a mim e outras pessoas ao não cair na minha cilada solicitadora de carinho. Seja muito bem vinda e volte sempre.

  7. Como bem disse a Paulinha -quem não conheço – “eu te odeio, seu picareta sem eira nem beira”.
    Pronto! Tá se sentindo melhor, tá?

    A gente faz cada coisa pelos amigos…

  8. Ok, Lou, se você se diz um picareta,um perdedor,um pária,um sem virtudes,não sabe cantar, tocar,é baixo,gordo,orelhudo,um verme, careca,feio,pobre,metido a lutar por causas justas,um professor,um perdedor,missionário,maníaco de higiene e moral,preguiçoso,com auto-imagem negativa,canalha,sem casa própria,sem carro,sem trabalho, tudo bem.Mas não vem que não tem.Sua escrita não é uma grande droga,se fosse,não estaríamos aqui.Olha lá!Quem pensa que somos??

    Reiterando votos sinceros de FELIZ ANO NOVO à todos os seus.

    Se eu fosse você, leria tudo outra vez e grifaria todos os elogios (eu disse elogios) que faço a mim mesmo. Apenas dissimulei minha soberba atrás desses impropérios todos. Lembre sempre: não sou confiável. Na maioria das vezes, estou falseando a verdade.

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