Arriba a Razão!

O esgotamento espiritual é bom. Na verdade, é um momento necessário ao crescimento do individuo. Entretanto, ele não estará completo enquanto o esgotamento devocional não chegar. Algumas vezes o cara alcança os dois ao mesmo tempo, o que é o ideal. Entro em êxtase quando encontro alguém nesse estado.

Meu amigo, pastor em Avaré, me ligou sábado para comunicar, solenemente, sua mais completa descrença atual. Percebeu, finalmente, a construção estritamente humana do texto bíblico, seus enxertos sacerdotais e papais, complementado com a mais completa ausência do personagem principal, a saber, Deus, de quem muito se fala ali. Concluiu, ainda, o mesmo para a história da Igreja, um arcabouço de fatos e vivências de homens e mulheres que, por essa ou aquela razão, dedicaram suas vidas às coisas espirituais na senda judaico-cristã, escolhendo ou submetendo-se aos caprichos de seus líderes tendenciosos. No final perguntou se não era o caso de abandonar o ministério e, consequentemente, a igreja onde exerce seu sacerdócio todo emocional.

Não! Disse-lhe sonoramente. Sem que ele percebesse, gritei uns aleluias do lado de cá da linha e continuei meu aconselhamento. Agora você chegou no ponto de sair da imaturidade, de tomar leitinho e passar para a era da razão, onde o líquido é vinho tinto encorpado, de tonéis europeus, preferencialmente. Em outras palavras, agora você pode decidir, com seu adulto, ser um pastor fundamentado na Bíblia, mas sem infantilidades como a interpretação literal, inerrância e todas essas tolices inventadas e adotadas por ditadores das religiões. Além disso, você poderá decidir ser um verdadeiro pastor de suas ovelhas, diferente daquele impostor impositor de dogmas e inquisitor de comportamentos, mas um lutador incansável pelo bem estar delas, capaz de dar a vida por elas levando-as da imaturidade à maturidade real e irrestrita, capaz de levá-las aos tais pastos verdejantes. Lembrei-lhe, também, o prazer de entrar no quarto e dizer a Deus, seja ele quem for e de que forma for, um bom e sonoro muito obrigado, especialmente por não interferir, pelo menos não frequentemente, e ficar lá, no mais absoluto silêncio, buscando seu nirvana na esperança de ouvir o Senhor do Universo falar, algum dia. Claro que a maioria sai dessa para uma melhor antes que isso aconteça;

Sabe, gente imatura e infantilizada como o Francis Schaeffer, por exemplo, (sem ofensa, Volney ) precisa descobrir sua capacidade de se emocionar. Esse é só um estágio primário que todos os meninos mimados do norte precisam experimentar. Claro que ao descobrir suas emoções ele imaginou ter deixado a razão para trás. Ledo engano, o que ele deixou para trás foi a mais completa ignorância, própria das pessoas nascidas acima da linha do Equador, ou mais próximo dela, do que nós, meros habitantes do trópico de Capricórnio. Claro que estamos misturados em meio a todos esses joios que vivenciaram a subnutrição, em seus anos iniciais, daí sua tendência à corrupção, apatia, indolência e adversidade para com as letras e números. Acima do Equador só há bárbaros medievais disfarçados em gente da pós modernidade.

Meu amigo sentiu-se feliz e consolado, então fez uma última pergunta: Então Deus não fala conosco, mesmo? Respondi lembrando-lhe a Análise Transacional e gente como Gerald G. Jampolsky que descobriu ser portador do maior inimigo dos humanos: o ego. Provavelmente cem por cento do que imaginamos ser Deus falando não passou de manifestações desse crápula embutido em nossas mentes. Claro que não podemos esquecer fenômenos como Tereza de Ávilla, Madre Tereza de Calcutá e Joana D’Arc, mulheres que juraram ter ouvido o bom velhinho. Elas podem ter conseguido fazer seus pensamentos pararem e terem alcançado o ponto zero, onde é possível ouvir a voz maravilhosa daquele que fala sempre sem cessar, como ensinou Gandhi. Vai saber…

Ainda não recebi os últimos relatórios, mas parece que meu amigo revolucionou seu ministério de domingo para cá, da água para o vinho, sem redundâncias, claro.

Ops: O post sobre as Olimpiadas 2012 você pode ler lá no Corinthians Yes, agora .

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7 respostas para “Arriba a Razão!”

  1. Acho que não existe nada mais infantil do que rejeitar o lado emocional… é o superego inflado que massacra neuroticamente toda a integridade e a verdade do ser.

    Fico contente que o pastor tenha acordado de sua espiritualidade meritocrática que produz decadência espiritual, o mesmo aconteceu comigo em certo tempo, afinal, dos fariseus eu era o maior.

    Lógica que como livre ele encontrará vários com a mesma mentalidade de antes, é como Paulo que de perseguidor passou a perseguido.

    De toda forma, é bom incluirmos mais uma alma em oração!

  2. Charles

    Muito obrigado pela visita e comentário.
    Você está certíssimo, rejeitar o lado emocional é inaceitável. As emoções nos permitem brincar, namorar e ser sensíveis as emoções do outro. Não viveriamos sem elas, embora muitos tentem. Problema é quando as usamos em lugar da razão.

    Obrigado, abraços.

  3. Bruna

    Assim como não é possivel amar com a razão, também não é possível decidir com as emoções. Claro que, uma vez tomada uma decisão pensada, elaborada e construida, emoções acontecerão.

  4. Pingback: Lou Mello

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