A Gruta do Lou

Aprendendo a viver


Entrei no gabinete do pastor de uma grande igreja batista onde eu era membro. Ainda era cedo, e fazia um frio de rachar, com o dia nublado e ameaçando esfriar mais ainda. Assentei em frente à mesa de trabalho, virado para ele. O homem, na casa dos cinquenta anos, pediu café para nós dois, ajeitou-se na cadeira confortável e perguntou qual era meu assunto.

Um pouco temeroso, expliquei com cuidado o convite que recebera para pastorear uma congregação na beira de um barranco qualquer e ligada a outra igreja batista ,sem qualquer expressão, mas disposta a pagar meus estudos na Faculdade Teológica.

O pastor dobrou o corpo para frente, pegou uma caneta no porta canetas com distintivo do Palmeiras, para meu constrangimento, e rabiscou um desenho na folha branca à sua frente. Eram duas linhas que começavam no mesmo ponto, se afastavam e depois uniam-se mais à frente. Então explicou que, no ministério, isso era comum. Alguns seguiam pelo mesmo caminho, enquanto outros se distanciavam para depois encontrarem-se todos, pois nosso propósito era o mesmo, só os alvos e métodos é que eram diferentes e cada um precisava cumprir sua missão a fim de alcançarmos todos.

Ficamos em silêncio por um instante. Aquelas palavras me confortavam mais do que a mensagem principal em si. Além disso, ele me via como um futuro ministro e me senti orgulhoso, vindo de quem veio.

Então ele levantou, dirigiu-se à sua estante de livros de pegou o livro verde, na verdade um livreto com dogmas cristãos. Então, me explicou que pautara sua vida e ministério, naquele livrinho, além da Bíblia, completando com o clichê: “Melhor é jogar o velho feijão com arroz”, sempre, ou seja, no ministério o segredo é a simplicidade com generosidade e disposição. Sentou e silenciou, saboreando mais um gole de seu café.

Hoje o homem, ainda vivo, deixou o pastorado enquanto a grande igreja segue inexorável, eu me distanciei dele e agora me encontro todo enrolado nas minhas obrigações domésticas, sem ter como solucioná-las a curto prazo. Nos anos que se seguiram, realizei muitas tarefas capazes de alcançar e engrandecer várias pessoas, com vistas ao Reino de Deus. Isso se deu de forma institucional ou não. Fiz tudo com boa disposição, de forma simples e generosa, às vezes acima dos meus limites. As outras coisas são lixo, devem ser atiradas ao lixão e perdoadas por Deus. Vivi, até aqui, entre perdas, mas os ganhos foram saborosos e estão bem guardados, embora tenham vindo em menor escala, tenho aprendido a viver. Hoje, já consigo ver o que há após os horizontes.

Sei o quanto pode ser difícil para algumas pessoas entender esse modo de vida. Me foi dado o direito de escolher e optei por viver com essas crenças evangelicais. Não importa o que me aguarda do outro lado, creio ter feito uma boa escolha, talvez a melhor. Não sei quanto tempo me resta, estou no terceiro terço de minha passagem por aqui, mas gostaria de me liberar mais para viver minhas convicções ainda mais profundamente. Não são as pessoas que nos aprisionam e erra quem assim pensa. As correntes que nos prendem são feitas dos negócios desse mundo e sinto grande dor quando vejo os pastores por aí atirando as pessoas nos braços dessas prisões e seus carrascos.

Aguardo solução para o momento e não me iludo, ela virá do alto. Alguns foram convidados a participar, mas temo que rejeitem, não por mim, mas pelo bem que fariam a eles mesmos.

É estranho, mas como estou, me vejo mais livre do que a grande maioria. Quando algum oficial vem buscar alguma coisa, todo arrogante e cheio de si, sinto pena do mancebo e uma sensação de bem estar toma conta do meu interior, ainda que lastime aquela perda momentânea. Eles podem levar objetos facilmente substituíveis, mas meu bem mais durável é inalcançável e está garantido, onde nem a traça e nem a ferrugem corroem.

A vida começa a fazer sentido.


3 thoughts on “Aprendendo a viver

  1. Simplesmente um post livre e pleno de Graça!
    Nem calcula o bem que me fez Lou!
    Deus te abençoe e te continue a abastecer do Seu Espírito, usando-te assim, tal como és, fonte de graça!
    Com saudades.. muitas! 🙂

    É verdade, vivemos bons momentos dos blogs, com nossos amigos, especialmente os da boa terra, como você, e sinto muitas saudades, também. Mas não se iluda, continuo monitorando o Coisas de Mim, diariamente. 🙂

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