Aprenda pelo amor ao invés da dor

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Nossa última postagem, um texto compartilhado onde o autor comenta a entrevista dada por Rick Warren e esposa a respeito da morte de seu filho, ocorrida, por uma coincidência sinistra, em abril deste ano, mesma época do falecimento do nosso filho, deixou um barulho imenso nas minhas regiões pensantes. Fiquei surpreso com a ênfase da entrevista, pois esperava algo bem diferente.

Nunca escrevi um livro sobre “propósitos”, embora tenha sido educado, em certa ocasião, nesse diapasão. Nos meus primeiros seminários em planejamento estratégico, levávamos as vítimas a encontrar seu propósito e depois vinham os objetivos. Bom tempo depois o Rick lançou o livro “Uma Igreja com Propósitos”, um divisor de águas em termos de administração e organização eclesiástica.

Imagino, se eu tivesse um ministério ou uma empresa de marketing cheia de clientes e nossa ênfase fosse a administração por propósitos, tanto na missão pessoal quanto na empresarial de cunho eclesiástico, como seria inevitável ouvir as pessoas questionando meus métodos, depois da morte de meu filho. Pensei em Jesus pendurado lá na cruz e o povo cá embaixo praguejando coisas como: “Salvou a tantos e não foi capaz de salvar a si mesmo”. No caso do Rick ficaria mais ou menos assim: “Ensinou tantos a andar por propósitos e acabou vítima de um baita despropósito” ou algo parecido.

Ocorreu-me ainda, tremenda perplexidade com a espiritualidade do Rick. Afinal, eu não seria capaz de organizar e ministrar uma Série de Pregações sob o tema “Don’t waste yours sorows”* (Não desperdice suas tristezas) tão rápido, cerca de dois ou três meses após ter perdido tragicamente (morte por suicídio) um ente muitíssimo amado, como um filho de 27 anos, no caso dele. Nosso filho se foi em decorrência de complicações suscitadas por uma cardiopatia congênita e incoerências médicas. Mesmo assim, hoje, decorridos cinco meses, ainda não consigo articular nem cinco minutos sobre ele sem me descontrolar completamente.

Fica patente a minha falta de estatura espiritual diante de um monstro espiritual como o Rick. A tal série ministrada por ele, aos membros de sua igreja (e ela não é nada pequena) versou sobre sofrimento e morte (luto: o choque, a tristeza, a luta, a entrega, a santificação, e, por fim, o serviço), afirmando, entre outras coisas, “- Posso suportar a dor, se vejo um propósito nisso” e “a nossa mensagem mais profunda da vida, muitas vezes aprofunda a nossa dor“. O melhor veio no final com: “Mas, infelizmente, a maioria das pessoas desperdiça o seu sofrimento, não tira proveito de seus problemas e nunca aprende com suas perdas”.

Quando vejo irmãos capazes de tal crescimento na fé, sinto-me absolutamente impotente e a vontade é desistir de tudo, começando com a tal vida espiritual. Claro minha mente maligna, ou talvez um anjo mau dizendo disparares infernais em meus ouvidos, me diz coisas horríveis como: “Ele não tá com nada Lou, só estava defendendo o negócio dele e não ligava a mínima pro filho”. Mas nego-me a acreditar nisso e prefiro ver o Rick como um referencial para todos os pastores dos propósitos, gringos ou brazucas. Eles são facilmente reconhecíveis por escreverem livros apologéticos sobre os propósitos.

E eu? Sou pequeno mesmo. Para começar, cada vez mais, entendo Deus como o Deus da vida, muito mais agora. Antes de mais nada, cancelo todas as minhas disposições e indisposições contrárias em favor dessa crença. Ele não está presente na morte. Ela, a morte, é consequência do pecado e quanto a isso o divino lançou seu próprio filho para trazer-nos de volta à vida, pois o pecado exigia a morte em pagamento, segundo suas próprias palavras. Assim ele só vê vida quando nos olha lá de sua fresca e aprazível varanda celestial.

Alguém dirá, mas qual pecado seu filho cometeu, o cara era um santo. Calma, não exagere, ele era parte da humanidade, e sabemos muito bem do caráter solidário tanto do pecado, coisas de Adão, quanto do perdão providenciado por Jesus Cristo por vontade paterna. Peço desculpas ao Rick, mas não vejo propósito algum na dor e minha melhor mensagem só poderia ser a palavra da salvação. Para mim, a hora é de silêncio e resignação. Falhei terrivelmente na missão a mim atribuída por Deus, e com isso só descobrir o quão despreparado sou.

Sinto muito, mas não posso acreditar em um Deus cujo método de ensino seja matar, bater e causar dor, ainda mais uma dor como a da perda de um filho profundamente querido. Não, para mim, Deus ensina pela alegria, paz, longanimidade, benignidade e bondade; fidelidade, mansidão e domínio próprio; e tudo isso pode ser encerrado sob uma única palavra: amor. Em outras palavras, aprenda pelo amor ao invés da dor.

Sofrimento e dor são momentos para esquecer. São os sinais mais flagrantes da ausência divina. Talvez seja a nossa vergonha e é melhor deixa-la sob o tapete. Esse é o tipo do desperdício com grande probabilidade de ser abençoado pelo velhinho da barba branca. Nunca me senti mais desprovido da presença de Deus como naquele maldito dia de abril. Se fosse um ser divinamente espiritual eu não veria o sofrimento e morte no meu filho, mas salvação e vida eterna no Reino de Deus. Mas confesso, queria ele bem aqui do meu lado, mesmo se fosse todo estropiado como ele vivia. Percebe o tamanho de minha pequenez espiritual?

Mas cada um pense como quiser.

Essas são palavras de um ex-pai para outro.

  • Don’t waste your sorrows (Não desperdice suas tristezas) é um excelente Livro de Paul E. Bilheimer e, certamente, o Rick o desconhece. Caso contrário, o teria citado.

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