A Gruta do Lou

Aposentadoria Precoce


Dia desses, li que o Ruben Alves (78) pretende se aposentar da carreira de escritor. Não é o meu (60) caso, acho que ainda tenho um pouco mais de lenha para queimar, como me disse a Ângela Maria (aquela cantora famosa) que desejava morrer no palco cantando Babalu (uma música do repertório dela que fez enorme sucesso), eu pretendo morrer escrevendo, nem que seja o meu blog.

De outro lado, algumas atividades exercidas, ao longo da vida, resolveram aposentar-se de mim por conta própria. Primeiro foi a Educação Física, a pedido da Missão onde trabalhei, embora já estivesse muito desanimado com a profissão. Era um sonhador que pretendia educar as pessoas, desde cedo, a cuidar de seus corpos, pois eles são a melhor ferramenta de nossas vidas. Logo descobri que a expectativa  dos alunos e diretores era por um cara fortão, capaz de jogar todos os esportes bretões bem e nunca, mas nunca mesmo, fazer outra coisa que não fosse jogar uma bola para os alunos e interferir o mínimo possível. Negócio de Personal Trainer, para mim, cheira a picaretagem, na maioria dos casos, especialmente se sua mulher for uma bonitona (vale o inverso para os maridos). Alimente-se bem, ande um pouco, nade de vez em quando, faça abdominais ( não muitos ) e trate de descansar bem. Evite muita TV, beber e fumar, se puder e despeça o Personal. Ah, me envie o dízimo da economia que fará com isso. Certamente ficarei rico se todos forem fieis. Geralmente os professores de educação física migram para a função de técnico de algum esporte, coisa que cheguei a fazer, também. Para piorar, retiraram a matéria do currículo escolar como se ela não fosse essencial para a boa aprendizagem, a começar pela alfabetização. A meu ver, o atraso na aprendizagem de nossas crianças de hoje, passar por essa “sábia” decisão de nossos “psicopedagogos maravilhosos”.

Na Missão migrei para a Administração e Marketing de Organizações Sem Fins Lucrativos ao ser escalado por um visionário para o “Development” (Relações Públicas e Levantamento de Fundos). Desde que deixei a Missão, tenho tentado compartilhar os conhecimentos aprendidos com outras pessoas da área, mas não sei se tenho obtido muito sucesso nisso. No Brasil, a cultura é mais do tipo Correr Atrás, Apagar Incêndio e Basta a Cada Dia o Seu Próprio Mal (que é bíblica, inclusive), portanto não há muita gente interessada em trabalho científico, com planejamento, avaliação e essas bobagens estrangeiras. Provavelmente já fui aposentado da função, embora tente me enganar evitando esse tipo de mau pensamento. Mas estou disponível para dar treinamento em “Development” se alguém estiver disposto a pagar para ver. Há uma grande possibilidade de que eu apresente alguma ideia inovadora. Nem pense em traduzir o termo “Development”, sob risco de dar com os burros n’água.

Esporadicamente faço palestras de prevenção à dependência química, preferencialmente aos pais e professores, outra atividade condenada a mortalidade próxima. Tive outras profissões (Administrador de Empresas, Corretor de Imóveis, Propagandista de Laboratório, Pastor, Diretor de Creche Municipal, Técnico de Informática, etc.) e de todas estou aposentado, embora não receba nem um tostão por essas contribuições, coisa que estou tentando remediar agora. Tentei voltar à corretagem de imóveis, mas os caras me proibiram usar cavanhaque e acabaram com a minha motivação, mesmo porque as grandes imobiliárias acabaram com o charme do negócio, que virou uma competição dos diabos.

Enquanto não sai a aposentadoria do INSS, embora já tenha trabalhado mais de quarenta anos, seguirei o conselho de D. Quijote De La Mancha: “Todos os dias sairei em busca de aventuras em favor dos necessitados (no caso, os domésticos da fé), pois isso é o que compete a um cavaleiro andante”. Bom, acho que continuarei fazendo isso depois, também, até que a morte nos separe.


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