Aos leitores dos próximos milênios

Essa mensagem singela está sendo escrita no início do terceiro milênio depois de Cristo, no dia 4 de novembro de 2008. Certamente você encontrou um jarro enterrado em uma Gruta com esses manuscritos por mim grafados ou está lendo depois de algum acontecimento do tipo.

Em nosso tempo presente, vivemos sob ditames econômicos de um país do norte chamado Estados Unidos. Não se avexe com esse nome que nem nome é, se eles fossem definir um nome único, estariam se matando até hoje, depois de mais de duzentos anos de proclamação de independência do domínio inglês, um país situado ao norte, mas em outro continente, tal de Europa.

Estou escrevendo de algum lugar ao sul do planeta. Em nosso tempo, lugares ao sul não representam porcaria nenhuma. Para vocês terem uma idéia, não temos permissão para ganhar uma corrida de carros, sequer. Somos obrigados a deixar o inglês negro e jovem vencer e declarar contentamento com o segundo lugar. Não sei o que eles nos fariam se nos rebelássemos. Algum tempo atrás, nosso vizinho a Argentina, rebelou-se e eles vieram com a maior violência e mataram milhares deles. Como não gostamos muito dos argentinos, não ligamos a mínima e ainda demos alguma ajuda aos ingleses, sem que ninguém soubesse, claro.

Nesse momento, inicia-se uma eleição presidencial nos Estados Unidos. Está em curso a tentativa de eleger o primeiro presidente negro e jovem naquele país. Todo mundo está dizendo isso com a boca cheia, como se fosse um grande feito. Em si, o ato mais preconceituoso da história. Os caras estão agindo, como sempre, sem qualquer consideração ao continente africano, onde há um monte de presidentes negros e jovens, ao propor um descendente africano para ocupar o cargo máximo desse país soberbo, como se fosse a primeira vez ou um ato bizarro. Ninguém disse ainda que na África, presidentes negros e jovens não costumam dar certo. Há uma ou outra exceção, como um tal Mandela, que não era formado em Harvard e tinha cabelos brancos.

O candidato negro e jovem proposto chama-se Barack Obama e nasceu em 04 de agosto de 1961, sob o signo de leão. Ele tem um currículo escolar legal e comeu o pão que o diabo amassou vivendo sempre no meio de um bando de brancos preconceituosos. Ele deveria ter vivido na África, talvez naquele país mais ao sul, onde os loucos são todos negros e quem come o pão do chifrudo são os brancos, se não gostou da experiência.

Não sei qual será meu futuro a partir de hoje. Embora não tenha nada a ver com tudo isso e ninguém deseje saber a minha opinião, escolhi o outro candidato, um senhor branco de cabelos brancos, chamado John McCay e não o fiz por nenhum tipo de cor, mas minha opção visa o melhor para o meu esquecido e subjugado país ao sul do Equador. Meus conterrâneos estão todos a favor do negro Obama. Particularmente, até simpatizo com ele. Se fosse pela cor, ele seria mesmo a minha escolha, afinal tem sangue negro correndo em minhas veias. Que ninguém o saiba. Mas minha escolha se baseia em bobagens irrelevantes, como aquilo que será melhor para nós os esquecidos desse tempo. Como vivemos em um tempo onde o que interessa são os fatores econômicos em detrimento à bobagens como justiça, cultura, fraternidade, etc., um presidente do país detentor das armas mais poderosas de nosso tempo formado em Harvard (escola muito conceituada no mundo inteiro nesse tema), negro e jovem, cai como uma luva para quem enxerga o planeta com óculos materialistas, superficiais e cobiçosos.

Dizem por aí que em certo evento, acontecido por aqui, cujo tema era Missões, classificaram os missionários maltrapilhos como eu na categoria dos ultrapassados e propuseram um novo modelo de missionário, mais atualizado, negro, jovem e formado em Harvard, de preferência. Parece, na verdade, o surgimento de uma nova mania. Já tivemos várias, ao longo dos séculos, especialmente nos últimos anos. Pior é a informação dando conta do seguinte: a autora da proposta com o perfil do novo missionário é, ninguém menos, que a diretora do mais retrógrado, fundamentalista e conservador seminário do nosso tempo, um tal de Betel, fincado nos rincões do desconhecido nordeste brasileiro. Nem percam tempo em procurar o significado disso, pois não tem relevância alguma. Agora todo mundo está contra os velhinhos brancos de cabelo branco, até os velhinhos brancos de cabelo branco ou sem eles, estão contra eles mesmos.

Então, como sou um quase velhinho, quase branco, com poucos cabelos e a maioria brancos, opto pelo John McCay. Sem falar no prazer de estar na contra-mão do status quo atual e implicar contra estereótipos e gente estereotipada, sempre levadas ao sabor do vento.