A Gruta do Lou

Anos Incriveis precedem anos terríveis

Nasci em 1951. Na época meus pais moravam no Cambucí e logo mudaram para o Brás. O Bairro, era muito diferente dos nossos dias. Tinha vocação para bairro dormitório. Ali viviam pessoas trabalhadoras, a maioria descendentes de espanhóis e italianos. Ainda está lá a Igreja de Santo Antonio do Parí no Largo do Parí, onde aprendi as primeiras letras, nos bancos da pré-escola mantida pela Igreja. Lembro de um dia magnífico. Acho que era um sábado. Saí com meu pai, ele de terno e gravada e eu nos trinques, pois, naquele tempo, andar bem vestido não era obrigação, era devoção e respeito de uns para com os outros. No ônibus, meu pai me disse para prestar atenção: as mulheres (não importava a idade) tinham a preferência para entrar e utilizar os bancos. Os homens além de só entrar depois delas, sentavam se sobrasse lugar. Foi naquele dia, quando atravessávamos a Praça João Mendes em direção à Padaria Santa Tereza, onde tomaríamos café, que meu pai me ensinou a atravessar a rua do lado direito para deixar o outro lado livre para os que vinham no sentido contrário. Para mim, menino encantado com a beleza da cidade, das pessoas bem vestidas, aparentando felicidade, aquilo tudo era mágico e encantador.

Muito mais tarde, quando estudava na PUC, um de meus professores fez uma argumentação interessante que nunca mais esqueci. Segundo ele, a intentona comunista no Brasil, sonho de Luiz Carlos Prestes, não deu certo porque os trabalhadores e os proletários eram minoria. As pessoas em situação de pobreza ou mesmo miséria eram poucas. Pobreza só lá no nordeste e, mesmo assim, pouca. Segundo Adhemar de Barros, um político da época, bastava um presidente com um projeto correto e ela seria eliminada. Segundo eles, Prestes se encantara com a Revolução Russa e queria vê-la por aqui. Mas não havia o inverno siberiano, os proletários e os pobres eram uma minoria.

O Brasil, antes dos anos sessenta, era tranqüilo. Tinha uma classe média forte, formada por pequenos empresários, funcionários públicos, professores e profissionais liberais. Todos tinham casa própria, boa comida na mesa e ninguém estava endividado. As pessoas passavam a vida sem nunca sofrer um processo de cobrança, despejo ou separação. Conta em banco era raro. Não havia celular, micro-ondas, DVD, Ipod, Iphone, plasma, etc… Mas éramos felizes. Nesse ambiente, a intentona foi abafada para a alegria geral da nação. Na verdade ela não tinha razão de ser, por essas bandas.

Os tempos mudaram. Tratamos de caminhar para trás. Se não tínhamos pobreza, agora a temos de sobra. Trabalhadores são a maioria, em nossos dias, e a classe média forte não existe mais. Estamos endividados, mas temos celular, sim e como temos. Também temos a internet e via banda larga. Ninguém sonhava com isso naquele tempo de anos dourados. Também temos medo e sentimos-nos inseguros.

Nos anos setenta, entramos na onda de mudar de igreja. Trocamos a chatice da Igreja Católica pela pujança da Igreja Protestante que acabara de chegar, com música, jovens sentados pelo chão e até a possibilidade de qualquer um ser o pregador, imaginem, vez ou outra tinha acampamento, pregadores norte-americanos e até o Nelson Ned aparecia para cantar músicas de Deus.

Mas isso passou. Agora, na segunda metade da primeira década do século vinte e um, nos demos conta da inconsistência dessa igreja e estamos em um momento exótico. Ficamos com a Palavra de Deus, os escritores cults com tendências teológicas, redescobrimos Kierkgard, Hegel, Shopenhauer e tantos outros e estamos com saudades dos sentimentos que experimentamos com aquela nova igreja que se foi com os seus idealizadores. Claro que deixamos Jesus Cristo entrar em nossos corações e de bom grado. Agora estamos carregando nossas cruzes atrás da dele, como ele mesmo orientou.

Se idéias de esquerda viessem, tais como a democratização dos meios de produção, a distribuição de rendas igualitária, a participação popular, etc. sem violências, imposições ou sofrimentos, tudo bem. Até eu que sou mais tolo aceitaria, com prazer.

Mas estou vendo sinais de violência a vista. A liberdade religiosa na América Latina, a livre iniciativa e as liberdades individuais caminhando para o ralo, sob o pretexto da corrupção. Vi esse filme na Albânia, na Rússia e seus países dominados e sei o que houve na China, Laos e Camboja, sem falar nos países africanos. Claro que a Igreja sobreviveu, bem como a liberdade, mas a custa de muitas mortes, sofrimento e uma dor indescritível. Seguramente, não quero legar tal experiência aos meus filhos.

8 thoughts on “Anos Incriveis precedem anos terríveis

  1. “sem violências, imposições ou sofrimentos, tudo bem….”

    Lou

    De onde você tirou a idéia de que poderia ser fácil ?? Na minha Bíblia só encontrei a informação de que iria ser como é….

  2. uau…
    muito bom, Lou…
    que Deus nos abençoe nestes tempos e nos que ainda virão, sejam como forem.
    Penso Lou, que por mais que tenhamos idéia do que vem, é um presente de Deus só Ele saber por completo…
    muitas informações não seriam toleradas por nós… não acha?
    inventaríamos armaçoes, esquemas, ações adequadas quando de fato, somos mais que limitados e precisamos é depender dEle…
    beijos,
    alê

  3. Assino embaixo do comentário da Alê. Que bom que a gente nao sabe o que vem por ai, somente Ele e eu peco que a Ele que dê condicoes aos meus filhos.

    Bom fim de semana

  4. Fábio
    Não tenho intenção de propagar os ideais comunistas, tão pouco os capitalistas. Estou mais para o anarquismo. Não acredito em governo humano algum. As tentativas de instalação de regimes de esquerda, como você sabe melhor do que eu, não foram bem sucedidas. Descambaram para a tirania, corrupção e as conseqüências foram catastróficas. Certo? Nesse rolo, os cristãos (e não apenas eles) foram espremidos com grande sofrimento, torturas e mortes aos milhares. Trabalhamos muito essa questão no ministério Portas Abertas (quando aquilo funcionava). Estou tentando alertar sobre o cheiro que anda pelo ar de restrição das liberdades religiosas, sem falar em outras, na América Latina. Claro que com ou sem alertas proféticos a raça humana irá cumprir seu papel de predadora de si mesma. Nossas bíblias estão recheadas de alertas proféticos. Todas as grandes catástrofes foram anunciadas, inclusive com instruções claras para minimizar a dor. Nós poderíamos começar, não embarcando nas ondas promovidas pelo estado dominante cujo objetivo claro é destruir a igreja e, claro, a fé dos meninos e meninas, nossos irmãos. Faz sentido?

  5. Lou

    Nem pensei em ideologias quando escrevi. O chumbo vem de todos os lados.

    Eu sou daqueles que acredita que a Igreja perseguida é depurada. Meninos e meninas (e nós que não somos mais meninos) de verdadeira fé, não dobrarão seus joelhos a nenhum Baal contemporâneo. Até que sobreviva a única Igreja verdadeira.

    Resta clamar como os santos do quinto selo : até quando Senhor ??

  6. .. é amigo Lou, eu tb não quero que meus filhos vivam isso, mas vejo que o inevitável se aproxima….eu , particularmente, cansei de igrejas de homens, hoje quero o Reino e não mais reinar…cansei de ver tanta corrupção, manipulação, domínio, interesses proprios dentro do que se chama “A Casa de Deus”….se bem que a verdadeira Casa de Deus somos ñós….quero fazer parte de um Corpo e não mais de uma denominação…creio que se tudo o que prevemos vir sobre nós, apenas o Corpo de Cristo poderá resistir….escrevi um desabafo no meu blog, se quiser, passa lá , vais me honrar com tua ilustre visita !!
    abraços para ti.

  7. Ninguém supera a esquerda em extermínio,corrupção,desmandos, fracassos e calúnias.De 1917 a 1937, os comunistas exterminaram mais de 60 milhões de pessoas, apenas na ex-URSS.Dá cerca de 3.000.000 de pessoas por ano.E tudo isto só para produzirem Ladas e explodirem Tchernobyl.

    Nossos irmãos norte americanos, na maioria de direita, mataram bem somando-se as Grandes Guerras, Hiroshima e Nagasaki inclusas, Coréia, Vietnan, Sarayevo, Afeganistão e Iraque. A Igreja em suas guerras santas e suas inquisições, não fizeram por menos. Por aqui, nossos governos de direita ou esquerda matam sua porção diária via polícias e trânsito chegando a ultrapassar os números das guerras da hora. Na direita ou na esquerda, nós a criação de Deus somos terríveis predadores, de nós mesmos e de tudo que há nesse planeta. Agradeço a visita.

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