A Gruta do Lou

Amizades, no dia 12 de abril de 2013

Thomas com uma amiga enfermeira conquistada no hospital São Paulo durante a hospitalização para a segunda cirurgia em 1996.


Acabamos optando por dormir em um hotel fuleiro quase em frente do hospital. Pelo menos estaríamos bem perto caso fossemos chamados, por qualquer razão. Lembrei de novo do hospital lá em Louisville – KY com seu hotel a bordo. Um dia mudarei o ditado “cada povo tem o governo que merece” para “cada povo tem o que merece”. Não fomos incomodados por chamadas intrusas e dormimos um pouco, embora eu só tenha ficado no tal do primeiro estágio. Mas sonhei, desesperos, claro.

Depois do café da manhã, voltamos ao apartamento para pegar algumas coisas e resolvi ligar para alguém. Foi aí que me dei conta do fato de não haver sinal de celular naquele lugar. Não disse nada para a Dedé a fim de não assustá-la, mas me deu uma pressa louca para voltar ao hospital, tinha medo de alguém ter nos ligado sem resultado. Chegamos por volta das 10 horas e fomos direto falar com a secretária do doutor. Ela já tinha checado o estado do Thomas. Tudo bem até ali. Havia acordado e os sinais estavam bons. Agora era avaliar o melhor momento para extubá-lo de novo, informou. Imaginei que eles seriam mais cautelosos agora e não estranhei. Folguei que não tivessem nos chamado durante a noite.

De novo na sala de espera da UTI, Dedé agarrou sua palavra cruzada e eu tentei ler um pouco. Cadê concentração para qualquer coisa. Vi a doutora Juliana passando empurrando o carrinho com a máquina de eco portátil e corri falar com ela. Acabara de fazer um eco no nosso filho e disse que estava tudo bem, conforme o esperado. Folguei um pouco. Acrescentou que à tarde a equipe trataria de avaliar a possibilidade de extubá-lo. Quando entramos para a visita ele estava acordado, mas meio sonolento. Um pouco ficava conosco e outro pouco cochilava. A PA estava em 10 X 6, com medicamentos. Preferi não ter olhado para o monitor. O melhor era a oxigenação, sempre acima de 94, coisa que ele nunca tivera na vida.

Demos carinho a ele, palavras de incentivo e esperança, quase não o tocamos por causa do espaço e eu preferi deixar a Dedé mais próxima. Os dois juntos era impossível, imagine. O horário da visita terminou e fomos expulsos de novo. Expressamos nosso amor a ele, o beijamos e saímos. Ele já estava adormecido, quando virei e olhei antes de sair pela porta que dava para o corredor.

Resolvemos ir almoçar em algum lugar mais distante do hospital e tentar uma alimentação melhor. Lembramo-nos de um restaurante perto da Estação Santa Cruz do Metrô e fomos para lá. Interessante esses nomes das estações do Metrô. Santa Cruz, Paraiso, Saúde, São Judas, Liberdade, Sé, São Bento, Santana, etc. Bem católicas né?

Não lembro direito o que fizemos naquela tarde, antes de voltar ao hospital. A visita da noite foi exatamente igual a da manhã. Sem alterações, apenas a informação de que a extubação estava planejada para a manhã do dia seguinte. Os sinais eram quase os mesmos, com pouca variação. A PA continuava igual, e em alguns momentos subia para 11 na máxima ou caia para 9. Então deixei pra lá. A médica residente responsável nesse dia era meio arrogante. Nada de novo, nisso. Mas conversou conosco, pois parece ter sido incumbida de ficar o tempo todo com o Thomas, naquele dia. Pelo menos, enquanto estivemos lá, não saiu de perto. O casal de super doutores não deu as caras nesse dia. Novamente fomos expulsos de lá. Quem fazia esse trabalho era uma enfermeira mais velha e bem mal educada. Parecia não ter o menor carinho por pacientes. Entendo, uma pessoa passar a vida toda naquela vida ali, não deve ser nada fácil.

Me dei conta de como era difícil orar naqueles dias. As orações eram curtas e meio frias. Nessa noite lembro que acordei de madrugada e resolvi orar como se deve. Clamei pra valer, mas tive uma inexplicável crise de choro e senti um medo enorme, como nunca havia sentido antes.

Pensando bem, nos dez dias que passamos ali, só tivemos companhia de pessoas chegadas (parentes ou amigos) nos horários de visita, mesmo assim, uma ou outra vez. O resto do tempo éramos nós dois do lado de fora da UTI e o Thomas lá dentro cercado de estranhos fazendo todo tipo de maldade com ele, inclusive conversas negativas perto dele e sobre ele. Algumas pessoas nos ligavam, minha sogra, a Nádia, Pr. Neto e Adalberto e a Márcia. Mas ninguém ficou conosco lá, nem um minuto e com tantos amigos pastores, nenhum visitou meu filho, muito menos a nós. Lembrei do professor Geo, ele costumava passar em casa nos sábados à tarde para me buscar e irmos visitar doentes lá no Hospital das Clinicas. Eram pessoas que nunca havíamos visto antes, a maioria sozinhas em seus leitos, semi abandonadas. Conversávamos e orávamos com elas. Acho que devia ter feito mais desse tipo de missão.

Sabe, agora reconheço a importância disso. Alguém que nos levantasse, que fizesse as orações por nós, que pagasse o café e dirigisse nosso carro e/ou nos livrasse dos detalhes burocráticos possíveis. Enfim, companheiros prontos pra toda obra. Quando o Thomas passou pela segunda cirurgia, a Dolores, uma amiga argentina, mãe de uma coleguinha de escola dele, passou o dia inteiro amparando a Dedé. Voltou lá todos os dias até a alta. Mas dessa vez a trajetória foi solitária para nosso filho e para nós dois.

Café na lanchonete e de volta ao hotel fuleiro. Chegamos lá pensando que no dia seguinte deveríamos mudar nossa rotina, inclusive por causa dos custos. Se possível, excluir o hotel. Tentaríamos ir dormir na casa da minha mãe a próxima noite.

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