A Gruta do Lou

Amigos do Peito


Muitos anos atrás, estávamos em Ilha Bela e havia um casal entre nosso pessoal, certa noite, durante uma dessas conversas sob um lindo luar e uma boa cerveja geladinha, eles narraram o período duríssimo que haviam passado e arremataram com um: “Se não fossem os amigos, não estaríamos aqui, hoje“.

Acho que essa foi a primeira vez que me perguntei o que meus amigos estariam dispostos a fazer por mim, caso entrasse em algum tipo de dificuldade. O tempo foi passando, as dificuldades vieram e não contei com amigos, alias, nem pensei nisso. Claro, de um jeito ou de outro, alguém irá fazer parte de seus momentos mais complicados. Comigo, que me lembre, não foram os amigos do peito, pois nem sei se os tive, ou se os tenho.

Não estou me referindo às pessoas conhecidas, mas aos amigos que passam a vida toda ao seu lado, que sempre estão nos seus bate papos, nos aniversários, te ligam sempre, ficam com seu cão quando você viaja, ou viajam junto, emprestam o carro quando o seu fica na revisão ou você o perde para a financeira e no dia em que seu filho é operado, eles cancelam o trabalho e ficam em pé ao seu lado, no corredor do hospital, só saindo para buscar algo para você comer. Alguém capaz de sacar o saldo da poupança para evitar que seu nome seja protestado ou que você volte para casa sem dinheiro para fazer o supermercado. Acima de tudo, que nunca fale mal de você e esteja pronto a perdoá-lo por ter pisado na bola, mesmo que você não peça perdão. Pior, você também faria tudo isso e muito mais por eles, a qualquer tempo.

Nunca tive amigos assim, do peito, moradores em meu coração. Invejo quem os tem e muito. Com as redes sociais, ganhei muitos “inclusos” no arquivo chamado “amigos”. No Facebook são quase setecentos. Mas bastava um só, mas que fosse um amigo de verdade. Alguns, dentre esses, conheci ainda menino e acho bom saber deles, principalmente que estão bem e vivendo de modo razoável. De vez em quando percebo que se reuniram em algum lugar e me pego pensando: “Estranho, não me convidaram para essa reunião”. Talvez eles temam meu pensar bíblico. Não, isso não é verdade. Sempre foi assim, perdi a conta de festas que meu convite se “extraviou” pelo caminho.

Evidentemente, se há culpa, será de minha parte. Meus pais falharam nesse item, pelo menos não me lembro de ter recebido nenhum ensinamento ou conselho sobre como fazer e manter amigos. Gostei quando ouvi ou li alguém dizendo: Se não tem nenhum amigo, pare tudo o que está fazendo e trate de fazer logo um. Claro que poderia nominar alguns amigos atuais, mas sinto que são amizades que beiram o superficial. Uma vez, disse a um deles que nós não éramos amigos de verdade e ele se ofendeu, então lhe perguntei: qual teria sido a última visita dele à minha casa, ou quando foi que ele convidou a mim e minha família para um almoço, ou mesmo para algum evento em sua casa. Ele ficou mudo. Amigos verdadeiros participam dos melhores e piores momentos, juntos.

Quando meu filho recebeu alta do hospital, depois da segunda operação em seu sistema circulatório (coração, artérias, veias, etc), só meu irmão estava lá e me perguntou como iríamos para casa. Estava sem carro e disse-lhe que pretendia tomar um taxi e ele reagiu dizendo que não poderia mesmo nos dar carona porque tinha um compromisso naquele momento. E nem morávamos muito longe. Melhor, menos um favor a pagar. Meu pai sempre dizia que favor de parente custa caro e não dá para deixar de pagar.

Creio que quem tem um amigo do tipo “para o que der e vier”, ao menos, tem uma grande fortuna. Além das minhas misérias conhecidas, ainda sou mais pobre por não ter amigos reais. Não os soube cultivar, nem sei como fazê-lo. Mas sinto falta incomensurável deles, não apenas de tê-los à minha disposição para suprir minhas carências, mas para fazer o mesmo por eles, quem sabe enviar-lhe um E-mail agora, dizendo: Mano, to aqui, para o que der e vier.



2 thoughts on “Amigos do Peito

  1. Eu não sei se os tenho. Acho que não. Mas gosto de crer que sim. Fica difícil cultivar amigos quando mudamos de cidade, de país. Os irmãos em Cristo não deveriam ser até mais do que amigos?

    Um irmão em cristo também pode ser um bom amigo, não obrigatoriamente, pois uma grande amizade define-se por ser espontânea, antes de mais nada, se não me engano.

  2. Também não os tenho. Se os tenho, não houve, ainda, oportunidade deles se mostrarem, pois minha vida passa de forma normal e corriqueira, sem grandes tragédias ou triunfos.
    Não posso me queixar, pois também não sou amigo “do peito” de ninguém, que eu saiba. Mas tenho minha família, é bem unida, e isso acho que supre a carência de amigos pra valer.

    É, grandes amizades são raras, mas pertencer a uma família unida já é uma grande dádiva.

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