A Gruta do Lou

Ainda hoje, você estará comigo no Paraíso

 

De todas as datas comemorativas, sem dúvida, a chamada “Semana Santa” é a que mais me emociona, embora seja com sentimentos tristes. Antes de mais nada, lembrar a Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo é por demais doloroso.

Entretanto, penso que a cada ano comemoramos, se é que podemos chamar assim, a via sacra de todos os seres humanos que sofrem, carregando suas pesadas cruzes para o Gólgota, onde serão crucificados com elas, mesmo depois de tantas chibatadas, socos, ponta pés, paus de arara, violências sexuais, psicológicas, constrangimentos, injustiças, cerceamentos, preconceitos, vituperações, pastores ricos e pobres, presidentes da ABCR, médicos, advogados, psicólogos e psiquiatras cristãos ou ateus, etc. Cristo morreu por nós, pois ele não tinha pecado, era o Cordeiro sem mácula, e aquela cruz e tudo que sofreu, nos pertencia.

Há dois mil anos, um ato imenso como aquele se fez necessário para redimir a humanidade. Em nossos dias, isso se tornou essencial. Razões para um Cristo Redentor não faltam e multiplicaram-se exponencialmente, desde então. Começa pelas tais casas de deus onde há de tudo, menos a presença do Deus bíblico redentor da humanidade e segue por todas as áreas e organismos da vida humana. Nada, repito, nada nesse mundo estaria livre da ira divina, caso ele resolvesse pagar-nos na base da lei.

Mas o Criador resolveu criar a tal da Graça e perdoar, mesmo sem merecimentos ou arrependimentos e, muito menos, gratidão. Falo por mim e minha mais completa pobreza espiritual, incapaz de mudar uma única virgula no meu texto de morte, que escreve uma vida banal, vazia e voltada para meu umbigo. Se estivesse ao lado de Jesus, em uma daquelas cruzes nojentas, não sei qual seria a minha reação. Temo e tremo só de pensar na possibilidade de cair na tentação de hostilizar o Salvador, mas ali, naquela situação, provavelmente mandasse Cristo à merda, também.

Nem precisaria ir muito longe, aqui, sentado no trono do meu quarto, com a boca escancarada, cheia de dentes, desesperado por não poder fazer o que qualquer pai, esposo está fazendo agora em benefício próprio e de seus queridos, ainda mais com tantos feriados pela frente, cheio mágoas contra todos, contra a Igreja inoperante e desviada, contra os governos corruptos, as organizações falidas, as injustiças, os preconceitos, a falta de liberdade, da verdadeira democracia e, finalmente de Deus, que parece não se importar comigo, ou pelo menos com meus filhos que nada fizeram para merecer o nada que a vida lhes dá.

Engraçado, se não for trágico, é que não consigo modificar meu coração e mente. Mesmo que o natural fosse abandonar tudo, começando pelo Criador de tudo isso, não consigo odiar e a esperança parece renovar-se imprudentemente dentro de mim, numa espécie de certeza que nem sei como traduzir em atos e consequências. Acredito que não tenho nem teria um milímetro da grandeza de Jesus para carregar aquela cruz, apesar de tudo, com toda a dignidade. Basta olhar para mim e ver como sou indigno enquanto carrego a minha cruzinha sem vergonha. De certa forma, invejo o Mestre e, se tivesse um pouco daquela fé e coragem, poderia melhorar o meu lado junto ao Pai dele, ao menos.

Enquanto isso, vou seguindo a minha Via Sacra mais na base do roldão, sendo levado, empurrado e sem a menor condição de fazê-lo por vontade própria ou com minhas próprias pernas e mãos. Antevejo, de qualquer forma, acabar pendurado como todos os outros ladrões, dependendo de um mínimo de misericórdia dele, quem sabe um olhar ou uma frase tola, do tipo: “Ainda hoje, você estará comigo no Paraíso”.

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