Afinal, qual é o crime (ou pecado) dos Hernandes?

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Sonia e Estevan Hernandes

Como iremos julgar? Usaremos a ética cristã ou outra qualquer? Segundo as leis de nosso país ou dos Estados Unidos? O que está em julgamento? E uma última perguntinha: Cabe julgar alguém?

Josias de Souza é um articulista da Folha de São Paulo, com direito a blog e tudo. É um cara meio indefinido, no geral, parece petista, mas, às vezes, tenta disfarçar. Entre outras coisas, passa a idéia de que sua opção religiosa é ateísta. Afinal, é o que está mais na moda, como preconiza a sábia Camila Pitanga, uma atriz feia, que trabalha mal, mas posa de big star. Lá pelas tantas, ao comentar o sentenciamento dos Hernandes, ele faz um pequeno comentário “a mansão em Miami que o dízimo dos fiéis da Igreja Renascer ajudou a comprar”. Ao ler essa afirmação a luz acendeu e fiquei com a impressão, de novo, que esse deve ser o maior incômodo para a maioria das pessoas e poderes, especialmente em terras brasiles, sem falar na velha inveja, etc.

Dei uma boa olhada na peça jurídica contendo as acusações contra o casal, em trâmite em nossos tribunais e posso afirmar, sem medo de errar: a nossa justiça quer considerar crime os atos de recepção de doações espontâneas. Faz tempo que os poderes constituídos resolveram cuidar, de forma extremada, de como as pessoas usam seu dinheiro. Junto com os poderes: executivo e legislativo, quer a justiça brasileira exterminar essa praga chamada doação espontânea indiscriminada. Certamente, a Rede Globo e as outras redes de TV menores concordam plenamente com os poderes citados. Afinal o benefício às campanhas Criança Esperança, Teleton e outras, por eles pilotadas, seria muito mais abençoado se esses fiéis religiosos parassem de doar seu dinheirinho para os pastores, padres e pais de santo. Especialmente, esses que detém redes de Rádio e TV. A Igreja Católica agradece aos poderes, também, afinal ela tem sido grandemente prejudicada com o bandeamento de fiéis para o lado inimigo, particularmente, pela perda de receitas.

O casal Hernandes foi condenado por tentar contrabandear dinheiro para o território dos Estados Unidos. Eles não foram condenados lá, nem sequer acusados, do crime de receber doações dos fiéis da Igreja Renascer. Não consigo entender a razão que levou o casal a cometer esse deslize. Meu, eles são malacos velhos. A quantia encontrada com eles era, sem dúvida, pequena. Para eles, significava aqueles trocados que levamos no bolso para os gastos de viagem. A única razão que consigo imaginar é que eles esconderam o excedente (pois pelas leis estadounidenses uma pessoa só pode ingressar no país com um máximo de dez mil dólares sem declarar). Para que? Não sei. Não existe vantagem alguma nisso e muito menos, sensatez. O mais lógico e inteligente era declarar o valor total. Tenho até certo medo de pensar que eles erraram por ignorância brasileira típica. O que não faz a idade?

Entretanto, volto a indagar sobre a verdadeira causa de nossas preocupações com esses grandes pregadores. Estaríamos preocupados com suas posturas teológicas, por exemplo? Afinal quem tem a teologia de Deus? Pelo meu sistema de crenças eles são hereges, óbvio. Onde já se viu ganhar tanto dinheiro sem dividir nada comigo? Aliás, quando o Thomas foi operado (1996) o Estevan foi um dos doadores de R$15,00 na campanha que fiz, para arrecadar o valor necessário às despesas hospitalares (R$ 15.000,00, na época). Claro que os to-nicodemusletes não aprovam os Hernandes, também, como eu. O Bispo Edir Macedo também não, nem os batistas, ou os assembleianos e muito menos os católicos. Nem os macumbeiros concordam com a teologia da Renascer, mas todos recebem doações dos seus próprios fiéis e esse é um direito constitucional do cidadão brasileiro, que os guardiões da constituição querem adulterar, como tantos outros.

Eles não suportam a idéia de um cidadão fazer com seu dinheiro o que bem entende. Eu não compreendo um individuo usar parte considerável de seu salário em gastos com os happy hours das sextas feiras. Mas esse é um direito de cada um e tenho mais que aceitar caladinho. Tem gente que paga até para ver e ouvir o Martinho da Vila ou o Zeca Pagodinho. Pode?

Não há dolo em doar dinheiro. Nem mesmo se a doação for para um criminoso. Quiseram jogar na cadeia um cineasta, não faz muito tempo, porque ele deu R$ 1.000,00 para um traficante. Ele não estava comprando drogas, ele estava ajudando a pagar as despesas de uma pessoa que o estava assessorando na montagem do roteiro de seu filme. Se uma ou milhares de pessoas querem manter igrejas do casal Hernandes, do Edir Macedo, do Ed Rene Kivitz, do Ricardo Gondim, do Augustus Nicodemus, do Ari Velloso Silva, do padre Marcelo Rossi ou do Robério de Ogum, isso é problema delas e não constitui crime algum.

Não importa a teologia usada para conseguir essas doações. Ninguém será detentor de razão capaz de julgar as crenças de outrem. Nem mesmo (ou muito menos) os magistrados, que em geral praticam (com doações importantes em dinheiro) um negócio que não consigo engolir (mas tenho que aceitar) chamado maçonaria. É um absurdo acusar qualquer clérigo de falsidade ideológica no exercício ministerial, simplesmente. Constituiria crime se, associados às crenças e por elas instigados, estivessem presentes outros crimes como assassinatos, extorsões, prostituições, etc.

Até hoje a Igreja Católica não foi fechada, em nenhum lugar do mundo, devido aos atos de captação de recursos incluindo a venda de indulgências, por exemplo. Cada comprador tinha o direito de comprar e acreditar naquilo. Eu não compraria, mas devo respeitar o direito do outro em fazê-lo. Enfim, cada um tem o direito de gastar seu dinheiro como quiser. Será um dos últimos atos contrários à liberdade a proibição da livre doação.

Os Hernandes receberam doações espontâneas. Os doadores têm o direito de deixar de doar, quando bem entenderem. Essa é a única medida cabível.

Para os leitores da Bíblia, julgar os outros é uma atitude muito feia. Espero não ler nada desse tipo nos blogs amigos. Para mim, o patrulhamento do Gondim em cima do pessoal da prosperidade foi inaceitável. Não sou adepto, mas eles tem o direito a acreditar naquilo. Também não aprovo a atitude dos pastores que julgam a Igreja Católica, do mesmo jeito que não aceito a recíproca romana. Eu desaprovo até as minhas gozações para cima dos ortodoxos reformados, coitados.

Pior será o Velhinho de Barbas brancas despertar de seu sono eterno e vir me dar a “honra” de receber os Hernandes na Gruta.

Vale lembrar aquela frase do Apóstolo Paulo: “Todos pecaram e carecem da Glória de Deus.” Ou ainda aquela de Jesus Cristo: “Quem não tem pecado, atire a primeira pedra.”

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O que eu faria agora, se fosse o Estevan Hernandes.