A Gruta do Lou

Abordagem espiritual da Bíblia

Durante dois anos, visitei igrejas brasileiras informando sobre as atividades de certa organização missionária e, como parte do meu kit de trabalho, havia um filme cujo título era: Word’s Fire of God (A palavra de fogo de Deus). Para quem visitava 115 igrejas em média por ano, seria o caso de ter assistido o filme mais de duzentas vezes. Só para ilustrar, decorei o enredo e, até hoje, mais de vinte anos depois, ainda me pego recitando partes dele, às vezes. Ele falava sobre o poder sobrenatural desse livro santo, capaz de libertar povos escravizados pela tirania humana, promovida por certos ditadores de extrema esquerda ou direita, e tantos outros malucos. Como você e eu sabemos, o muro da vergonha caiu em 1989.

Quando estive na África, em Moçambique participei de uma reunião memorável. O país estivera fechado para manifestações religiosas por quatro anos, por ordem do ditador marxista Samora Machel e, em razão da visita de nosso grupo missionário, os líderes da igreja local resolveram fazer a reunião que incluia as principais lideranças da Igreja Protestante de Moçambique. Aconteceu cerca de quatrocentos e tantos quilômetros de Maputo, a capital; fizemos uma viagem com nuances de uma grande aventura, pois não havia combustível disponível nos postos de abastecimento e era preciso contar com doses maciças de fé, fora outras coisinhas. No local da reunião, havia umas cem pessoas. Os homens sentados em cadeiras, de terno e gravata, isso não chamaria atenção se não fosse por estarmos em uma savana africana, sob as árvores e chão de terra, as mulheres e crianças sentadas no chão. Nós sentamos em cadeiras que nos ofereceram, mas isso deixou alguns pastores em pé. Notei que a maioria dos pastores não portava uma bíblia, coisa comum em nossas reuniões de pastores no Brasil, quando perguntei o motivo, fiquei sabendo que esses pastores não tinham um exemplar da Palavra de Fogo de Deus, simplesmente. Não preciso dizer que a bíblia que levei comigo àquela reunião não voltou de lá comigo.

Alguns colegas missionários visitaram outra parte da África e encontraram um pastor que pregava a palavra de Deus, há mais de quarenta anos, somente com ajuda de um hinário cristão. Um de nossos colegas propôs trocar a bíblia dele pelo hinário do pastor, coisa que ele aceitou de pronto. Em minhas visitas às igrejas brasileiras, eu levava uma das folhas desse hinário, dentro de um saco plástico, para mostrar às pessoas como prova da história que eu lhes estava contando. Olhando essa folha, era possível ver que ela estava desgastada na parte de baixo, lado direito, pelo manuseio do pastor, todos aqueles anos. Hoje há liberdade religiosa em todos os países da África e os pastores possuem, cada um, o seu exemplar pessoal da bíblia.

Um reporter entrevistou um conhecido ator de novelas brasileiro e, às tantas, ele contou que havia lido a bíblia várias vezes e continuava fazendo isso regularmente. Paradoxalmente, em outro ponto da entrevista, declarou-se ateu. Pior, ele foi o protagonista do filme: Deus é brasileiro. Seu personagem? Deus, aliás, o fez muito bem, é bom que se diga.

Em nossos dias, noto certa frouxidão em relação ao nosso livro sagrado. Claro que ele é, antes de mais nada, um livro como qualquer outro, cheio de páginas e capítulos. Com certeza, é um dos três livros mais estudados em toda a história da civilização mundial. Com isso, sabemos de suas contradições, dúvidas, incertezas, etc. Alguns o encaram como um livro histórico e outros não. Sabemos que seu texto foi manipulado por milhares de mãos. Sem falar nas milhares de traduções e versões que aumentam ainda mais suas perplexidades. O Dr. Russell Shedd costuma dizer que, apesar disso tudo, a Bíblia ficou do jeito que Deus queria.

Ao longo de minha rica vida cristã, nada comparável à experiência dos bundões e dos mauricinhos, lógico, descobri o poder da Palavra de Deus. Suas palavras são capazes de incandescer e tornar-se a Palavra de Fogo de Deus, capaz de libertar povos escravizados por poderes tiranos, soltar prisioneiros das infames prisões concebidas por nossos semelhantes cruéis, livrar pessoas das garras do endividamento , das drogas, das tristezas, curar enfermos e realizar milhares de outras manifestações do poder de Deus. Só depende de como abordamos esse livro e suas palavras divinas e queimantes. Podemos fazer como aquele ator e ou como o pastor africano, com abordagem ateísta ou espiritual.

21 thoughts on “Abordagem espiritual da Bíblia

  1. Não sei se vc tá falando do Lima Duarte ou do Antonio Fagundes. Ambos já foram o “Deus” do conto do Ubaldo Ribeiro. Ambos, ótimos, por sinal. Seja qual deles for, suspeito que sendo verdadeira a afirmação de que tenha lido a Bíblia várias vezes, desconfio que o ateísmo dele não seja do tipo que costumamos entender por “ateu”. Aliás, ultimamente tenho encontrado muito “ateu” que é mais cristão do que muito “cristão”!!! Vá entender…

  2. Parabéns para você e sua equipe, Lou. Por aqui a recíproca não foi a mesma. Os missionários americanos vieram aqui também, (Santa Quitéria-CE) tirar fotos de nossa miséria e expor nossas vísceras para os americanos, para que eles compadecidos enviassem dólares. Prometeram construir colégios e hospitais para os filhos dos crentes, e construíram; mas, criança de pé no chão e pobre, não tem acesso.

    Quanto a afirmação do Dr. Russell Shedd, parece irresponsável, já que é um incentivo a leitura da bíblia sem nenhum critério; mas, tal afirmação, partindo do Dr. shedd, é compreensível, já que o Dr. shedd não se preocupa com a sanidade espiritual das pessoas e sim com a comercialização de seu livro, a bíblia.

    Ótimo texto ,Lou.

  3. Lou,

    Aprecio sempre seus relatos da experiência missionária vivida na Albânia e Africa. Também acredito que depende como abordamos a Bíblia. Quanto aos mauricinhos e bundões, eles andam com muitas dúvidas ultimamente.

    Um abraço.

  4. Como me falta fé. Me vejo na pele dos discípulos, que pediram ao Mestre Galileu que aumentasse sua fé.

    Quero abordar as escrituras espiritualmente, como o pastor africano.

  5. Djalmir
    Talvez esse tenha sido um dos critérios do Mestre ao escolher seus missionários: nada de romanos. Organizações missionárias norte americanas arrecadam bilhões de dólares em cima das misérias existentes nos países em desenvolvimento. A pergunta que não quer calar é: Quanto chega aos necessitados? Sou a favor do auto sustento para a maioria dos casos, como no Brasil. Nós não precisamos de dinheiro de fora e muito menos do governo. Por falar esse tipo de coisas em consultorias e conferências, os convites tornaram-se raros. Mas não pretendo alterar esse princípio. Provavelmente o Dr. Shedd estava se referindo ao controle de Deus sobre todas as coisas, sem ser tirano, ou algo parecido.

  6. Juber

    Pois é, a matéria veiculada pela revista Época era politicamente correta, aos olhos do articulista, mas evidenciou preconceitos e foi o motivo para a réplica excêntrica do Caio. Uma briga dos cachorros maiores. Agora nós, meros mortais, aproveitamos para tirar uma casquinha e tripudiar em cima deles, afinal, também precisamos fazer a nossa propaganda. O Geraldo, dono do mercadinho aqui ao lado, ainda continua cobrando pelos produtos adquiridos lá. 🙂

  7. Wander

    Não esquenta, grandes baluarte cristãos, como Agostinho, Francisco de Assis, Madre Tereza, Rubinho e eu também temos nossos momentos de incredulidade. Faz parte. 🙂

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