Qual seria a vontade de Deus em seu único livro, afinal?

No Novo Testamento vejo uma certa centralização, é Jesus dizendo isso, Paulo aquilo e Pedro aquilo lá, fora outros palpites menores. Não vemos o povo participando, a não ser como figurante em morros e praias e o testemunho e nas vivências parecem censurados.

Enquanto o Humberto Maturana descobre a autopoiese, a produção de si mesmo, fico com a sensação de um cristianismo complacente, de muita entrega e auto-anulação. Meu ego não aguenta esse tipo de apelo, afinal, sou o tal.

O Antigo Testamento, paradoxalmente, me parece mais democrático, as pessoas participam mais, Deus fala com gente da ralé tanto quanto com os aristocratas ou, fosse em nossos dias, com o proletariado tanto quanto com a burguesia, sem exageros, claro, pois Deus não é o Lula.

Particularmente, sou mais assíduo com as coisas do NT. Culpa do Dr. Shedd, pois foi ele quem me convenceu a estudá-lo, não teria chance de estudar os dois, na visão do meu professor, em uma única vida. Rebelde, como sempre, resolvi o dilema estudando mal e porcamente os dois, com mais dedicação ao NT.

Não vá se precipitando em conclusões “a priori”. Ando com a sensação de um Deus muito diferente dessa ideia antropomórfica vigente e propagada por todos os lados. Duas coisas não cederem um milímetro se quer, na teologia, essa ideia do Deus-homem e o maniqueísmo, tão combatido por Agostinho lá pelos idos do século quarto.

Ao manter-se no primitivismo obnóxio, desde a família, passando pela escola, a igreja, a mídia e o trabalho, o ser humano não se desenvolve e torna-se dependente dos déspotas.

Dá para afirmar o seguinte, fora toda canalhice, as pessoas precisam dos Malafaias e Ricks da vida. Eles pregam o Deus centralizador e o Cristo único salvador, mas estão falando deles próprios e as pessoas os vêm como deuses, pois precisam deles.

No AT, o povo colocou Deus na parede. Queriam um rei, como todos os outros povos tinham. Deus tentou dissuadi-los, mas não o escutaram e o Criador cedeu. Daí para frente foi a treva. Penso ser essa época o tempo do surgimento do inferno.

No Bhagavad Gita, Lao-Tzu conversa com o sábio que lhe diz: “Não interfiro e o povo se reforma. Usufruo a paz e o povo torna-se honesto. Não uso a força e o povo torna-se rico. Não tenho ambições e o povo retorna à vida boa e simples.”

Imagino como os pelos de muitos leitores se eriçam ao ler uma citação dessas, mas veja Jesus nessas palavras, pois há um grande risco do Mestre desejar nada menos do que isso.

Deus em sua grandeza nada humana, parece estar buscando a nossa grandeza, desenvolver-nos plenamente até o limite de nossas capacidades. Para isso, precisamos nos desprender dos regimes e líderes centralizadores.

Auto produzirmos a nós mesmos enquanto contribuímos para a produção de todos em rede. Podemos nos auto organizar, sem vender nossos direitos por meros pratos de lentilha. Esse é Deus e sua vontade, para mim, nos dois testamentos.