A Gruta do Lou

A vida é um palco iluminado

Recebi o impacto da letra dessa música, logo em meus primeiros anos de consciência. A vida é um palco onde representamos os papeis que nos são dados. Segundo o Jung, um cara que gostava de cunhar frases contundentes, nascemos originais e morremos cópias. Na verdade, não nos damos conta da quantidade de papéis que nos são impostos a representar ao longo de nossa existência. Começa em casa, aumenta muito na escola, mais ainda quando entramos para o mercado de trabalho, piora muito na igreja, não diminui quando constituímos nossas próprias famílias e perdemos de vista quem nós éramos de fato, na maioria dos casos. Alias, tudo isso é proveniente dos scripts. Até Fernando Pessoa pensou nisso e escreveu um de seus mais belos textos.

Por isso gosto tanto de Análise Tradicional, pois ela estuda esse fenômeno como ninguém mais. Por mim, poderíamos jogar fora toda a psicologia e ficarmos só com a AT… bom, talvez um pouco de Gestalt não faça mal. Se bem que sou fã de Freud, o velhinho era do balacubaco. Só que não adianta saber onde o problema começa se não soubermos como resolve-lo. Aquela história de dizer que encontrar as causas é igual a solucionar os traumas, mostrou-se ineficaz. De certo modo, era melhor nem saber qual era a fonte. Algumas podem ser intoleráveis.

O cristianismo é, em ultima analise, um grande script que nos é dado para representarmos. E ai de quem sair fora do que reza a cartilha pastoral e teológica da igreja. Isso me lembra um professor gringo que ensinava (sic) Educação Religiosa na Faculdade de Teologia, como a aula dele era chata pra chuchu, eu ficava fazendo perguntas, a cada nova idéia apresentada, só para agitar um pouco o pedaço. Depois de um tempo, aconteceu algo que suponho tenha sido inédito nos anais batistas estudantis, o cara me chamou no gabinete dele e me pediu, solenemente, para desistir de fazer a matéria dele porque eu estava atrasando o programa de aulas dele, com o risco dele não conseguir passar para os demais alunos, tudo o que planejara. Meu, fui despedido da matéria de Educação Religiosa, por um imbecil que não fazia a menor idéia do que seria ensinar. Bom, mas essa é a história da minha vida.

Em suma, o mundo não recebe muito bem as pessoas que ousam quebrar ou não seguir os scripts. Meu terapeuta, o mesmo que me apresentou e ensinou a AT, me aconselhou a não complicar e tratar de viver bem adaptado ao curso dado pela sociedade, para minha mais completa perplexidade. Até o Gandhi reclamou desse estado de coisas, durante toda sua vida, e acabou sendo assassinado por insistir em não seguir o roteiro dado. A lista de dissidentes assassinados é longa, tem Jesus, Martin Luther King, Policarpo, Estevão, Malcon X, John Lennon e muitos outros, além de Gandhi. De uma certa forma, estou meio morto, quem sabe, de uma forma muito mais contundente do que se tivesse recebido uma bala na cabeça. Não sei se há forma pior para aniquilar um rebelde, do que tirar-lhe todas as oportunidades e privá-lo de viver.

Bom, o que não tem remédio, remediado está, diria a Donana, minha avó italiana. Então, entre outras, fico me divertindo com essas mentes absolutamente não originais e perversas, portanto não confiáveis, pois só se pode confiar no original, nunca em cópias, que ficam twitando frases feitas por outros para parecerem muito cultos e/ou espirituais, ficando assim com os dividendos redundantes em palestras e participações quase vitalícias nos eventos por esse mundo afora. Não me conformo com a falta de imaginação e originalidade desse povo. Há tanta gente boa, que pensa e pratica espiritualidades verdadeiras por aí, por que não convidá-los a compartilhar suas originalidades, um pouco. Não pense que advogo em causa própria, há miríades de senhores e senhoras bem mais interessantes e competentes a serem chamados antes de mim, seja qual for o tema, acredite. Quem sabe um pouco de originalidade não nos traga de volta ao melhor de nós mesmos.

Tudo bem, entendo se você preferir ser uma cópia, apenas. De fato, é um jeito mais fácil de se atravessar a vida e tem o aval do meu terapeuta, que nunca praticou o conselho que me deu, aquele danado, mesmo que tenha sido ao som de um violão.

 

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