A vaca foi para o brejo com tai-shi e tudo

Max Weber fez o favor de mostrar o caminho das pedras a todos nós. Ainda que vivamos em um mundo pluralista em termos culturais, sobretudo nas questões religiosas, parece haver uma tendência inexorável para a tal globalização compulsória de tudo e de todos.

A tendência para um mundo organizado pela ética protestante e o espírito do capitalismo é inexorável e irreversível. O fenômeno Obama e o alinhamento atual da China como nação neo-capitalista, embora ainda preserve traços característicos de um totalitarismo exacerbado, afinal o capitalismo nunca requereu liberdade e democracia para se instalar, são irreversíveis. No caso do novo presidente norte americano, me espanta o fato das posturas ditas corretas do novo caudilho serem absurdamente alinhadas à profecia de Weber.

De qualquer forma, para nós, meros grutenses, pouco importa Obama e aquele bando de chineses malucos que acorda às seis horas da manhã para fazer Tai-shi-shuan. Se eles querem seguir essa ou aquela tendência, problema deles. Provavelmente morreremos antes de tudo isso nos afetar, se Deus tiver a decência de nos livrar disso, pelo menos . Apesar de que, se você der um passeio rápido por São Paulo, assim que o dia clareia, verá centenas de velhinhos praticando a dança chinesa em todos os lugares possíveis. Perto do meu escritório eles fazem aquela coisa sensual e quase imoral no estacionamento de um supermercado. É só uma atitude desesperada deles para manter algo de uma cultura não preconizada e em completa decadência. Nem eles acreditam mais nessas bobagens. Quando saem de lá, correm para ajuntar mais grana.

Meu pai, um romântico fugitivo do lar paterno para seguir a vida circense e um bom rabo de saia, aos quatorze anos, não absorveu o espírito do capitalismo, coisa introjetada por meu avô, e muito menos a ética protestante, segundo Weber, o calvinismo permeador do pensamento do norte da Europa e dos Estados Unidos e Canadá. Dessa forma, quando olho para todos esses pressupostos, vejo estarrecido o desfile horrendo de todos os pecados anti capitalistas por mim cometidos nesse pouco mais de meio século de minha desnecessária existência.

Para pontuar meu raciocínio cito parte do documento utilizado por Max em seu excelente livro*, muito apreciado pelos calvinistas da reforma, concebido por Benjamin Franklin. Veja lá:

. Lembre-se que tempo é dinheiro.

. Lembre-se que crédito é dinheiro.

. Lembre-se que o dinheiro é de natureza prolífica e geradora.

. Lembre-se do ditado: O bom pagador é dono da bolsa alheia.

. As menores ações que possam afetar o crédito de um homem devem ser levadas em conta.

. Não te permitas pensar que tens de fato tudo o que possuis e viver de acordo com isso.

Poderia acrescentar outra lei, muito conhecida: Em um mundo capitalista, o fundamental é ser capitalista.

Como alguém conseguiria viver nesse mundo sem esses pressupostos? Diga-me. Assim surgiu gente como eu e você, completos patetas existencialistas andando a esmo sem entender nada. A tudo isso, some-se a doutrina da predestinação onde se considera escolhido e abençoado por Deus quem obtém prosperidade material.

Bom lembrar ainda que Weber, em seu livro, traça detalhadamente o tipo ideal de conduta religiosa que contribuiu decisivamente para o desenvolvimento qualitativo do capitalismo. Trata-se do ascetismo intra mundano vivenciado pelos seguimentos protestantes: calvinismo, pietismo, metodismo e seitas batistas.

Pena que só me contaram tudo isso depois da vaca estar completa e irremediavelmente atolada no brejo.

* A Ética Protestante e o espírito do capitalismo – Max Weber