A Gruta do Lou

A testemunha trans-secular


Ao longo da vida, convivi com a sensação de haver algo a cumprir. Dentre as muitas ideias e dos sonhos recorrentes, havia o constante desejo de empreender viagem pela Terra Santa. Muitos foram os motivos, pelos quais, esse objetivo foi sendo colocado em segundo plano. Entretanto, em dado momento, os astros alinharam-se e coloquei-me a caminho.
Imaginava realizar uma visita particular. Resisti firmemente à ideia de fazer parte de um grupo com ideias preconcebidas. Queria caminhar e visitar os lugares, segundo meu próprio roteiro. E foi assim. Desembarquei no aeroporto de Tel-Ave-ive e hospedei-me em um bom hotel, onde pude preparar-me com um certo cuidado. Comprei mapas da região, roupas apropriadas e o equipamento básico. Decidi começar a partir da Galileia.

No meu terceiro dia em solo prometido, fechei minha conta no hotel às cinco horas da manhã e rumei ao norte, em direção à Galileia. Lá chegando, parei junto a um lago muito grande, conhecido como mar da Galileia. Durante algum tempo, estive observando as pessoas à margem daquelas águas tranquilas. Alguns eram pescadores e estavam ali fazendo seu trabalho. Outros, eram compradores a espera dos barcos chegando com o carregamento de peixes. Havia bancas para comercialização do pescado e onde era possível divisar um ajuntamento maior de pessoas, certamente, a oferta era melhor.

Sentei-me em uma pedra grande em formato de banco para descansar. Um barco navegando longe da pequena praia chamou minha atenção devido ao reflexo do sol em seu casco. Fiquei olhando seus movimentos durante um longo tempo. Um menino me ofereceu água e pão por uma moeda e aceitei, de bom grado. Reparei na presença de um homem, próximo ao local onde eu estava. Devia ter cerca de trinta anos, a minha altura, era magro, mas forte, vestia túnica comprida com colete, sandálias da região nos pés e não usava turbante. Seu cabelo escuro estava cortado na altura do pescoço e, na frente, não cobria seu rosto. Ele estava me observando e resolvi oferecer-lhe o pão e água, recém adquiridos. Para minha surpresa ele aceitou. Certamente, era a oportunidade para o início de uma conversa. Mas ele não disse nada. Tomou o pão, levantou-o na direção do céu e agradeceu. Enquanto mastigava mansamente não consegui desviar o olhar daquela figura singular. Uma estranha atração crescia em meu interior e pensei, em um instante, em perguntar-lhe algo, qualquer coisa capaz de iniciar nossa conversa. Entretanto, antes de qualquer palavra sair de minha boca ele disse:

“Estou indo na direção do rio Jordão. Meu primo está lá com um grupo de pessoas. Gostaria que você viesse comigo”.

Nesse momento aconteceu algo extraordinário comigo. Um misto de sentimentos e sensações jamais sentidas, como se estivesse sendo arrebatado a lugares longínquos jamais conhecidos ou a outros tempos e sem controle da razão, surpreendi-me dizendo sim ao convite feito pelo estranho e cativante homem.
Caminhamos por longo tempo. Meu companheiro era capaz de caminhar a passos largos sem perder sua elegância natural, própria de um oriental de fina estirpe. Enquanto percorríamos a distância até nosso objetivo ele falou sobre o oriente, a Terra Santa e sobre as pessoas habitantes desses lugares, com uma ternura desconhecida para um ocidental acostumado a julgar e censurar as pessoas, como eu. Ele mencionou sua preocupação com a culpa sentida pela maioria. Não entendi muito bem esse ponto, mas percebi que sua observação me incluía e o povo de onde eu vinha.

Quando chegamos às margens do rio Jordão, caminhamos em direção a um grupo de pessoas. Alguns estavam dentro da água e muitos os observavam. Pouco antes de os alcançarmos ele colocou sua mão em meu ombro e disse com um ar muito solene:

-“Nesse momento iniciaremos uma missão da qual você será testemunha. Anote tudo que puder para relatar ao seu povo. Observe e ouça, não interfira. Sua missão será essa.”

Essas palavras me atingiram como um raio. Não consegui pensar, julgar ou esboçar qualquer reação. Apenas o segui. Ele aproximou-se do grupo e parou na margem junto às águas. Um homem, dos que estava dentro da água, com aparência rude discursava aos demais dizendo:

– “Eu batizo com água para arrependimento. Mas, depois de mim, vem alguém mais poderoso do que eu, tanto que não sou digno nem de levar as suas sandálias. Ele os batizará com o Espírito Santo e com fogo. Ele traz a pá em sua mão e limpará sua eira, juntando seu trigo no celeiro, mas, queimará a palha com fogo que nunca se apaga .”

Nesse momento, meu companheiro de viagem, descalçou suas sandálias e entrou na água em direção ao homem que falava. Este, estendendo a mão para que parasse, disse-lhe:
– “Eu é que preciso ser batizado pelo senhor .”
Tratei de anotar tudo e não tive tempo de refletir, pois aconteceu tudo muito rápido. Meu amigo respondeu:
– “Batiza-me, por favor, porque eu devo fazer tudo o que é certo
O homem concordou. A seguir batizou meu amigo. Os fatos seguintes foram inacreditáveis Eis o que vi e ouvi: Um pombo pousou nele e uma voz estrondosa e ao mesmo tempo mansa ouviu-se dizendo:
– “Este é o meu Filho amado, em quem tenho toda a alegria .”
Então, saiu da água, calçou as sandálias e me fez sinal para segui-lo. Reparei nos rostos das pessoas e vi em todos a mesma expressão de perplexidade que devia estar estampada no meu. Ninguém ousou dizer nada e muito menos eu.

Durante algum tempo seguimos sem dizer nada um ao outro. Aí ele me disse:

-“Aquele era meu primo. O nome dele é João. È filho de minha tia Isabel. Ele vive há algum tempo no deserto, alimenta-se de mel silvestre e veste-se com roupas feitas de pelo de camelo .” Nesse instante, aproveitei para perguntar sobre o que havia acontecido no momento do batismo. E ele me disse:

– “Naquele momento o céu se abriu e eu vi o Espírito Santo descendo e pousando, como um pomba, sobre mim e ouvimos a voz, que você ouviu, também .”

Senti alguns calafrios. Dei-me conta da magnitude da pessoa ao lado de quem estava caminhando. Só conseguia pensar em como eu não era digno de estar ali. Cheguei a imaginar em algum engano. Quase cheguei a protestar. Antes disso, ele me olhou com um olhar indescritivelmente penetrante e, de alguma maneira, entendi sua consciência sobre minhas preocupações. Aquele olhar acalmou-me e fez-me sentir uma imensa tranquilidade.

De repente pensei na necessidade de me apresentar. Dizer-lhe meu nome e perguntar o dele. Mas, antes que pudesse pronunciar uma sílaba ele me disse:

-“Se você não se opuser, o chamarei de Khalil ( O nome significa o escolhido, o amigo amado, como descobri mais tarde) e você pode me chamar de Jesus, o meu nome conhecido .”

Outra vez suas palavras pareceram uma faca afiada cortando-me de cima a abaixo. Mas, gostei do nome, embora fosse um nome árabe. De fato eu não sou judeu e um nome árabe fez justiça não só ao fato de eu não ser judeu como também à minha aparência. Tempos depois, quando descobri o significado do nome que ele me dera, meus olhos encheram-se de lágrimas e cada vez que ele me chamou a partir daí, não pude deixar de emocionar-me.

Continuamos a caminhar. Eu não tinha ideia sobre a direção que estávamos seguindo, então ele falou-me estar sendo guiado pelo Espírito Santo em direção ao deserto para ser tentado. Chegamos a um pequeno acampamento de viajantes na entrada do deserto da Judeia. Ali ele recomendou que aquelas pessoas cuidassem de mim providenciando o que fosse necessário enquanto ele estivesse no deserto e depois me disse para aguardá-lo ali. Ele iniciaria um período de jejum e oração a partir daquele momento.

Durante um longo tempo ele ficou naquele deserto jejuando e orando. De onde eu estava conseguia vê-lo. Durante todo esse tempo, sentado em uma esteira sobre a areia, procurei não perdê-lo de vista. Durante o dia observava cada movimento dele. A noite, dentro de uma tenda, perdia-o de vista quando adormecia ou quando a noite ficava escura demais. O pessoal do acampamento respeitando meu interesse, servia-me e tratava de falar o mínimo comigo. Durante esse tempo pude refletir sobre o que estava acontecendo, sobre o privilégio e a honra a que fora conduzido, sem qualquer merecimento ou justificativa. Para um ocidental como eu, nada fazia sentido, mas eu estava completamente encantado por meu novo amigo, sua origem, sua missão, seus gestos, enfim, tudo nele me cativara e eu nunca pensei em estar em qualquer outro lugar naqueles dias. Pensei ainda em toda a minha vida até aquele instante. Não havia realizado muito. Com exceção de minha família, não possuía mais nada que valesse a pena qualquer sacrifício. Pensava, antes desses fatos iniciarem, que a vida não tinha muito sentido e agora começava a perceber a necessidade de olhar além do meu umbigo. Por outro lado não fizera nada em favor do que estava me acontecendo. Ele viera ao meu encontro e me escolhera. Minha ida a Terra Santa não tinha esse propósito. Ele me deu um novo rumo. Na verdade me deu uma vida. Ele estava longe de mim, fisicamente falando, mas, de alguma forma, continuava conversando comigo. Estava lá ocupado em uma suprema missão incompreensível para mim e, ainda assim, dedicava-me atenção suficiente.

Passei tanto tempo olhando-o, durante o dia sob intenso sol e a noite sob frio terrível. Às vezes minha visão turvava-se e os objetos ficavam disformes. Foi em meio a essas dificuldades que tive a impressão de ver feras aproximando-se dele, mas guardando respeitável distância, enquanto homens vestidos de branco o serviam. Entretanto, no segundo seguinte já não havia nada, só sua silhueta marcante em inabalável e determinada saga.

No quadragésimo dia, logo após a aurora, ele ergueu-se e iniciou a caminhada de volta e veio em minha direção. Creio ter visto seu rosto resplandecer durante todo o percurso. Tal foi a impressão causada por aquela visão que fui incapaz de desviar o olhar dele. Quando chegou, olhou-me, colocou suas mãos sobre meus ombros e disse:

“Khalil, guarda bem tudo o que viu nesses dias . Haverá momentos em que você deverá lembrar à humanidade desses acontecimentos .”

Ainda era cedo, mas o sol já estava muito quente. Os viajantes haviam providenciado vestimentas mais apropriadas para eu enfrentar aquele calor. Uma túnica negra, coberta com um espesso colete claro e um turbante do mesmo tecido da túnica com presilha de couro tecida à mão. Nos pés eu já adotara as sandálias. Tudo isso tornava mais suportável o clima implacável do lugar. Também me deram um recipiente, feito de couro de cabras, cheio de água. Então, depois de abençoar a todos no acampamento, convidou-me a iniciar viagem de volta à Galileia.

Seguimos rumo norte, andando sempre próximo às margens do Rio Jordão. Enquanto caminhávamos, ele descreveu-me os acontecimentos durante os dias em que esteve lá no deserto. Após ter jejuado quarenta dias e quarenta noites, sentiu fome. De alguma forma isso deu ocasião à aproximação do tentador com a seguinte sugestão: “Se você conseguir transformar estas pedras em pães, provará que é o filho de Deus.” Ao que ele respondeu: “As escrituras nos dizem que o pão não saciará a alma dos homens; o que nós precisamos é obedecer a todas as palavras de Deus.” Então, o tentador o levou em espírito a Jerusalém colocando-o sobre o telhado do templo e disse: “Salte daí ”, disse ele, “prove que é o filho de Deus”, pois, as escrituras dizem “Deus enviará anjos para impedirem que se machuque, eles não deixarão você despedaçar-se nas pedras lá embaixo.” Jesus replicou: “Porém, as escrituras também dizem que não devemos impor ao Senhor Deus uma prova tão absurda. ” Em seguida, o tentador o levou ao alto de uma montanha muito alta e mostrou-lhe as nações do mundo e toda a glória delas dizendo: “Eu lhe darei tudo isso se você, apenas, ajoelhar e me adorar .” A isso Jesus disse: “Saia daqui. “As escrituras ordenam: Adore e obedeça ao Senhor Deus, somente.” O tentador obedeceu-lhe e foi-se embora.

Foi nesse momento que vi os anjos servindo-o. Ao ouvir esse relato impressionante, minha sensação era que ele estava tentando me mostrar as sutilezas e os meios do tentador para arrebatar o ser humano, ao mesmo tempo em que enfatizava o uso da principal arma contra esse ser abominável, as palavras contidas nas escrituras. Nesse momento, o sol começava a sumir no horizonte, criando um reflexo extraordinário nas águas do rio Jordão, iluminando seu leito largo e caudaloso naquele ponto. Assim como o sol ilumina o rio, Deus ilumina o nosso caminho através de suas palavras. Ele estava a meu lado e sem dizer nenhuma palavra, naquele instante, me falava profundamente.

Fim do primeiro capítulo, continua em breve… se conseguir elevar-me de novo.
# posted by Lou @ 9:53 AM

Leia mais em O Evangelho Segundo Khalil:

  1. A Testemunha Trans-secular
  2. O meu grande amor
  3. Uma Grande Luz
  4. Pescadores de Homens
  5. Levou sobre si as nossas dores
  6. A felicidade maltrapilha
  7. Lágrimas Valorosas
  8. Os famintos
  9. Os Misericordiosos
  10. Corações purificados
  11. Os Pacificadores
  12. Os Perseguidos
  13. Os Recompensados

 

Capricornio PB

4 thoughts on “A testemunha trans-secular

  1. Minha expectativa é formar um exército com os aflitos, os endividados, os angustiados, classe média sem teto, sem carro, sem trabalho. Coisa que o Nietzche adoraria, pois, evidencia o nefasto sentimento da compaixão, ao qual, estou entregue toda a minha vida. Herança católica.
    Qualquer dia desses, sai o capítulo II.
    # posted by Luiz Henrique Mello : 2/14/2006 11:16 AM

  2. A, a compaixão; já li sobre esse curioso sentimento, mas sou como o Bush impermeável à virtude.

    Na sua relação só não me encaixo pois ainda tenho carro, e esporadicamente trabalho.

    Mande mais.
    # posted by Paulo Brabo : 2/14/2006 3:40 PM

  3. Em breve devo viajar para a Terra Santa.
    Poderia,por favor, me emprestar os mapas ? Gostei do seu roteiro…

    Xiiii… não havia pensado nessa hipótese. Mas olha só, na maior parte das vezes, uso um Atlas Bíblico que ganhei dos gringos em 1979, chamado Baker’s Bible Atlas de Charles F. Pfeiffer 14ª ed. 1976 Edição Revisada.

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