A Gruta do Lou

A Revolta GGG


De repente você acorda e seus amigos no Facebook estão repercutindo o falecimento de um amigo de longa data. Sinto aquele arrepio correndo pela espinha dorsal e surge uma tristeza estranha acompanhada de indesejadas lágrimas ensopando meus olhos. Pô, sou homem e homem que se preze não chora, dizia minha mãe, sempre que via meus olhos assim. Agostinho e C. S. Lewis tinham razão, amar o que perece é insensato, pior ainda se for uma pessoa próxima, ainda que distante.

Faz tempo que não sou feliz. Faço minhas palhaçadas para manter a tradição, afinal sou filho e neto de palhaços e não estou brincando. Tenho alguns momentos alegres, como quando o médico disse que operaria meu filho para deixa-lo muito melhor ou quando surgiram algumas boas perspectivas de trabalho. Nada disso se deu ainda, mas deve acontecer nos próximos dias ou semanas, o que não é nada para quem espera por isso há anos. Mas como qualquer bom palhaço, meu coração sangra. Como disse Teresa de Ávila em citação do Manning: “Senhor, se é esse o modo como o Senhor trata seus amigos, não me admira que tenha tão poucos!”

Alguns profetas até previram, embora não os creia, em minha missão profética de vida. Penso sim, se Deus me escolheu para esse tipo de missão, esqueceu-se de me avisar, embora não tenha esquecido de equipar-me com alguma coisa, um dom talvez, de me indignar com a violência ou de amar e venerar ações gentis e generosas. Gente cortes, cavalheira e generosa me encanta. Tudo que preciso, na verdade é da graça de Cristo e isso me bastará, sem dúvida.

Ainda bem jovem, quase adolescente, encasquetei com Francisco de Assis e fui ao mosteiro dos franciscanos, na praça com o mesmo nome. Um frei me recebeu e, um tanto perplexo com minha curiosidade, deu-me alguma literatura sobre o santo e alguns escapulários. Acho que perguntou se eu desejava ser padre e devo ter declinado de pronto. Sem dúvida, essa vocação nunca tive. Aquelas coisas não me ajudaram muito, mas serviram para me deixar com a pulga atrás da orelha sobre aquela conversa de voto de pobreza. Fiquei com a forte impressão de que não era bem assim.

Muito tempo depois encontrei o livro “Francisco de Assis e o Modelo de Amor Cortês-Cavaleiresco” de Vitório Mazzuco, para meu delírio. Ali estava a prova necessária para acabar com aquela falácia. Francisco de Assis tratou sim de imitar a Cristo, não em nenhum voto de pobreza, mas naquilo que ele tinha de melhor, a generosidade espalhada em gestos corteses e cavalheirescos, além das questões do espírito. O cavaleiresco do nome do livro diz respeito aos cavaleiros da idade média, obviamente, para o que Francisco foi educado. Não sei dizer qual a diferença entre um cavaleiro e um cavalheiro, que para mim são a mesma coisa, sendo que a última versão é mais recente e de um tempo que os homens gentis não andam mais a cavalo tão frequentemente, pelo menos não no meio das cidades. Essa viagem acabou me levando a Avalon, os cavaleiros da Távola Redonda, Arthur e a fata Morgana. Foi um momento mágico em minha vida.

Francisco tornou-se uma espécie de monge. A todos tratava com uma cordialidade espantosa e surpreendente. Os evangelistas bíblicos chegam a mencionar o assombro dos discípulos diante de atos incríveis, depois chamados de milagres, de nosso Senhor Jesus Cristo, como quando ele fez cessar os ventos e acalmou o mar arrancando de um dos presentes a célebre exclamação: Quem é este que até os ventos e os mares se lhe obedecem?

Quem me chamou a atenção para essa passagem, nessa perspectiva assombrosa, pela primeira vez, foi o Zigfried Zils lá de Porto Alegre e missionário incansável aos cubanos e africanos perseguidos. Estivemos juntos na África e fizemos uma boa dupla, como ele dizia antes de dirigirmos um culto por lá, “você prega e eu faço o show“. E fazia mesmo, principalmente quando declamava poesias de Mirthes Mathias e tocava Vencendo Vem Jesus em uma gaita de duas notas ou algo assim. O Zig sempre foi um cara gentil e eu o admiro por isso. Entre outras coisas ele me preparou para o meu batismo com fogo que ele recebeu e previu que eu também receberia. Essa é a pintura do quadro que ilustra nossa missão, fomos chamados para cessar ventos, acalmar os mares revoltos e Jesus nos mostrou claramente que era isso a fazer.

Ando pensando em como o mundo ficaria se começássemos a viver como Jesus, Francisco de Assis e o Zig. Fazer como bem preconizou o Patch Adams no vídeo do post anterior, ou seja, detonar uma revolta GGG, de graça, generosidade e gentileza. Revoltamo-nos contra qualquer forma de violência com orações e atos cavalheirescos. Aquelas mulheres ucranianas estão tirando suas roupas publicamente como sinal de desaprovação contra atos que consideram violentos. Nós poderíamos tirar nossas mascaras de bonzinhos, de politicamente corretos, e bons ladrões e admitir quão falaciosos somos, primeiro para nós mesmos, depois para o mundo e por ultimo para Deus. Apesar de que ele está cansado de saber quem somos, de fato. O arrependimento é o primeiro ato de cortesia e generosidade possível. Quando a pessoa ainda está assoberbada, dificilmente será gentil, com quem quer que seja.

Gandhi libertou a Índia da tirania britânica com a não violência e atos gentis para com o próprio opressor. Ele leu Thoreau e os dois tiraram suas ideias de não-violência do exemplo de Jesus, oferecer a outra face ao inimigo. O poder de atos gentis é incomensurável e indescritível.

Ultimamente tenho batido muito na tecla da não violência e estou convencido de sua validade. Alias já estava antes, faltava colocar mais em prática. Comecei a falar e escrever sobre isso e já começo a ver resultados aqui e ali. Creio que podemos amar a todos, seja quem for. Não é lindo chorar por um amigo que morre? Isso só depende de cada um. Tenho certeza que ao nos dispormos a isso, um grande reforço dos céus virá sobre nós. Não vejo nada que possa estar mais no centro da vontade de Deus do que a paz entre nós.

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