A Gruta do Lou

A razão de ser

Pr. Ted Haggard

Ontem, sábado foram nove visitas. Nem nos primeiros dias a visitação foi tão baixa. Isso mostra o acerto da decisão de parar. Os números no gráfico mostravam o declínio, mas foi o lado direito do cérebro quem deu a ordem de fechar.

Também, Gruta para que? Quando alguém peca o expulsam da Igreja. Ao invés de ir para a Gruta, o chutado fica batendo na porta da frente do templo pedindo clemência. Outros abraçam o discurso positivista ou triunfalista para sublimar sua miséria. E lugar para isso não falta. O que essas igrejas fazem quando acontece algo assim? Vai ver, chamam todos os frutos do pecador medonho para recall de conversão e batismo.

É preciso ter coragem para procurar a Gruta. Lugar de miseráveis e maltrapilhos, pega mal ser visto em tão má companhia. O pessoal de fora senta a pua, sem dó em quem sai do armário e confessa a própria canalhice, mas talvez essa seja a razão de ser. 

Escrever sobre o tema dói. Recebi inúmeros conselhos para cessar com o pessimismo e a melancolia. Cheguei a projetar um estudo sobre o tema, supondo ignorância do povo em relação ao assunto.

Aí, bate o som das origens e lembro de minhas raízes mendigas e quem é o verdadeiro pecador: eu. Quem está na Gruta é grutense. Só me resta pronunciar a frase da longevidade: “Sabe que você está certo.”

Qual a temática de um Blog que fala sobre o que ninguém quer ouvir? Parece aquela mulher lá da igreja que eu dirigia. Assim que acabava o sermão, ela vinha e me dizia: Tem uma vizinha, lá perto de casa, que é igualzinha ao que o senhor descreveu hoje. Nunca era com ela.

Além disso, quando estoura uma bomba igual a do Haggard (leia brilhante post do Paulo Brabo sobre o assunto aqui) e afirmamos estar dispostos a recebê-lo, todo mundo passa ao largo. Lembro do assaltado caído à beira do caminho e os fariseus e os sacerdotes passando do outro lado, provavelmente, pensando coisas como: Quem mandou se meter com quem não devia? Ou Bem feito, assim ele aprende o lugar dele, se bem que o caso da mulher adultera é mais apropriado à proposta da Gruta.

O fato é que a humanidade não muda seu sistema de crenças impulsionadas pela igreja. É sempre olho-por-olho e dente-por-dente. Matou tem que morrer. Roubou tem que cortar a mão. Mentiu, arranque-lhe a língua. Fez sexo, castre-o. Então, viramos todos exímios camufladores das ações reprováveis pela sociedade.

Na maioria das vezes, nem questionamos o mérito dessas imposições, como no caso do sexo. Dependemos dele para garantir a sobrevivência da espécie e algum prazer com as pessoas amadas, mas deixamos que ele seja encarado como repugnante. Todo mundo faz ou gostaria de fazer, mas ficam com aquele ar de: nem vem que comigo não tem. Não tenho uma fórmula pronta para resolver a questão. Fui abençoado nesse quesito (é tenho lá as minhas bênçãos) ao encontrar uma parceira fantástica. Só que minha sorte não me dá o direito de julgar a dos outros. Não sei se Deus fechará a porta na cara de um homem que, nessa vida, foi feliz ao lado de outro homem e de uma mulher companheira de outra mulher. Tão pouco, aqueles que viveram pulando de galho em galho ou os adeptos de alguma poligamia ou poliandria.

Quando nos propomos a receber um miserável pecador sujo e tolo o bastante para se deixar pegar no erro, aí não tem conversa conosco. Somos “liberais”. Ainda bem que as prostitutas e prostitutos do centro da cidade de São Paulo e outras capitais são muito discretos. Fosse o contrário e nosso trabalho seria desmedido, especialmente com certos religiosos.

Desconfio que Deus esteja muito além do que posso imaginar ou conceber. Desde o início, menino ainda, questiono a imponderabilidade da religião cristã. Nunca é o que estão dizendo. Sempre cheios de mistérios e sutilezas. Sou o testemunho vivo dessa prática.

Então, para que grutas? O grupo dos que admitem sua miserabilidade é muito pequeno. Aqueles endividados que se uniram a Davi em Adulão eram um absurdo. Formar um exército de parias e derrotar Saul foi um orgasmo divino. Nunca mais. Temos que sobreviver. Para colocar comida no refrigerador precisamos compactuar, e bem, com o inimigo. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Cada vez mais, a morte do Galileu errante por crucificação faz mais sentido para mim. Ninguém quer um liberal desses solto por ai. Acho bom colocar as barbas de molho.

PS: Assim que tiver notícias confirmadas sobre a passagem do Furacão Latrina, as divulgarei.

morcego-12

8 thoughts on “A razão de ser

  1. Esses seus posts de despedida me parecem mais com uma comprovação de quem deveria ficar e seguir adiante. A Gruta se consolidou, meu caro e nem você pode mudar isso.

    Você me divertiu muito, apesar de estar falando sobre assuntos muito sérios.

    O Senhor adoraria seu tratamento para com Ele.

  2. I’m here.

    Estive visitando hoje o ótimo site do Ricardo Gondim que fazia tempo que eu não acessava e li algo de Bonhoeffer que parece confirmar que estamos no caminho certo, embora estejamos na contra-mão.

    “Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que dão conta da vida sem Deus. O Deus que está conosco é o Deus que nos abandona (Marcos 15.34). Deus é o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus. Deus deixa-se empurrar para fora do mundo até a cruz; Deus é impotente e fraco no mundo e exatamente assim, e somente assim, ele está conosco e nos ajuda”

    http://www.ricardogondim.com.br/Artigos/artigos.info.asp?tp=69&sg=0&id=1289

    Acho que Paulo tinha razão. Quando somos fracos, então é que somos fortes.

  3. Hernan

    Bonhoeffer foi um grutense e, talvez, o mais importante do século vinte. É estranho. Deus nos ensina a ajudar sem ajudar através de um relacionamento de não ajuda conosco. Muito ao contrário dos modernos deuses assistencialistas e paternalistas (uma forma de autoritarismo conhecida) que habitam as igrejas por ai. Sem falar no Deus déspota de outras.

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