A Gruta do Lou

A procura do bom samaritano

092611_1814_aprocuradob1-150x117

Quando o Thomas nasceu, minha teologia “super” correta foi para o espaço. Bom tempo antes, ouvira o profeta John Stott preconizar ao vivo que era preciso alargar as estacas de nossa teologia. Claro que não dei bola, na época, e ainda pensei, quem esse cara pensa que é?

Mas descobri o quanto estava errado. Alias, essa é uma das coisas que mais faço na vida, descobrir o quanto estou errado. Minha vida tem erros para todos os lados, que o digam meus dependentes. O Deus que eu havia concebido, até então, era um deus super protetor, que vivia livrando a cara de seus protegidos e, claro, eu me via entre os tais. Quando eu poderia supor uma permissão dessas da parte dele? Logo conosco, catzso, nenhum dos meus amigos ou parentes mais próximos, do passado ou do presente, teve a nossa sorte, e a maioria não tá nem aí para Deus e o filho rebelde dele.

Então precisei rever meus conceitos teológicos, uma opção a chutar o balde teológico cristão. Redesenhei o meu Deus, agora mais permissivo, menos protetor e capaz de amar de formas menos humanas, que incluem amor onde jamais sonharia, como na enfermidade congênita e complexa de um filho. Esse novo Deus era mais C. S. Lewis e falava através do sofrimento e achei, sei lá por que, que Ele estava usando esse meio sutil para me dar um pequeno recado: Vá cuidar dos cardiopatas congênitos desse mundo, seu vagabundo!

Isso aplacou certos sentimentos horríveis em meu interior, coisas como inveja, ciúmes, ódio, etc.. Tá louco. Sentir essas coisas é o fim da picada e só um gesto Samurai extremo pode livrar a cara da vítima, acho. Tô com os japoneses nessa e não abro.

Mas o meu novo Deus não parou por aí. Peguei-o no flagrante, querendo me fazer ter mais fé. Ele não estava contente comigo, continuando a crer nele apesar da presepada que ele nos aprontara, ferrando nosso filho. Ele tratou de diminuir o fluxo de entradas monetárias em nossa vida.

Imagine a chance de sentir uma inveja insuportável de gente como o Malafaia, os bispos, apóstolos, etc., que não fazem grande ideia do que é sofrer, sem falar nas pessoas que nos criticam (sim elas existem e não são poucas) nos bastidores e na plateia. Gente que não costuma cruzar com o sofrer. Só o John Piper, os cardiopatas congênitos e seus familiares, os outros contemplados com doenças atrozes, vivos ou não e eu sabemos o preço real da fé, entre outros estrepados desse mundo.

Agora, isso tudo importa, mas está longe de esgotar-se. Devo ser o pior e mais inexpressivo missionário que Deus pôs neste mundo.

Logo depois que conclui brilhantemente que minha verdadeira missão não era aquela insignificância de propagar o evangelho pelo povo do planeta – coisa que cheguei a fazer com certo desprendimento, mesmo porque, não conheço ninguém que tenha levado mais a sério aquela bobagem de ir e pregar o evangelho até os confins da terra, –   assumi a causa dos cardiopatas congênitos como a minha verdadeira missão e jurei, solenemente, dedicar minha vida e ministério a isso, então.

Em poucas palavras vou lhes dizer o que consegui, desde então: Quase nada. Além de um site fuleiro, mal logrei qualquer êxito em cuidar de meu próprio filho. Atualmente, o Projeto Coração Valente (note que até o nome é ruim) tem um único contribuinte e nem sei qual é a motivação dele, ao certo. Mas sossegue, minha esperança era fazer caridade com o fruto do trabalho de minhas mãos, orgulhoso que sou. Não me ocorreu de pronto a possibilidade de mendigar por ai. Demorou para perceber o apreço que Deus tem pelos cristãos maltrapilhos, embora isso não seja uma teologia muito bem aceita por aqui.

Essa é outra lição do meu Deus, as pessoas não ficam por aí contribuindo para causas perdedoras como a nossa. Elas não contribuem, investem nelas mesmas, por isso os caras que oferecem prosperidade a quem lhes der algo se dão bem. Eu não posso e nem poderia fazer isso. Comigo, contribuição é a fundo perdido.

Temo que a vida dos meus contribuintes vá de mal a pior depois de contribuírem a nosso favor, pois, segundo minha mãe, certos irmãos e amigos, preciso ficar à mingua para aprender. Só não sei o que eles querem que eu aprenda. Deve ser a mesma coisa que os caras que passaram ao largo da vitima socorrida pelo bom samaritano queriam que o moribundo aprendesse. E não sei se o meu Deus não concorda com eles, coisa que penso às vezes.

Meus bons samaritanos estão exauridos, depois de tantas petições  (Facadas como diria o Daniel meu companheiro de lutas por causas  divinas) diretas e indiretas, eles nem me atendem mais, seja por qual via for. Pior é que escolhem cada hora para me disciplinar.

Acho que já deu para perceber que esse Deus em quem creio é puro produto da minha imaginação. Ele não é como eu acreditava que fosse antes do Thomas chegar e muito menos como passei a pensar que fosse depois. Uma coisa é certa, não o vejo em ninguém por aí. O que sustenta a minha fé nele, são os milagres, que testemunho por todos os lados e um pouco minguados por aqui. Pior é que não posso escolher nada nessa área. Parece que Deus tem seus próprios critérios para liberá-los.

Além de cuidar do Thomas que está prestes a ser internado para exames (incluindo novo cateterismo) com objetivo de ser submetido à cirurgia complementar da Fontan dele, gostaria de fazer grandes coisas pelos cardiopatas congênitos, sobretudo levantar dinheiro para custear todas as necessidades deles.

Não falo só dos nossos cardiopatas irmãos brasileirinhos, não. Queria incluir os da África que dificilmente chegam a obter qualquer tratamento. Os nossos ainda estão bem melhor atendidos do que os africanos, em que pesem as mazelas todas do nosso sistema de saúde precário.

Sou obrigado a confessar, ou essa não era a minha missão , de novo ou tenho falhado redondamente nela, como de resto. Temo ter chegado a essa brilhante conclusão por algum sentimento de culpa e agora faço isso para aliviar minha angústia, se não me engano.

Que Deus tenha piedade desse meu deus, e de nós um pouquinho se der, também.

Capricornio PB

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *