A Gruta do Lou

A penúltima tentação de Cristo

Em entrevista, Humberto Maturana, atual guru dos adeptos das redes sociais, relata sua experiência durante um exercício de meditação em que observou esse quadro de Jerônimo Bosch e concluiu que as figuras em volta de Jesus seriam tentações em formas humanas. Cada um desses personagens representariam uma tentação como, a superficialidade, o valor, a cobiça e por último, que só lhe ocorreu tempos depois, a certeza.

O saber implica em certeza e vivemos em um mundo onde o saber está altamente valorizado. Para Maturana, a diferença entre saber e conhecer é justamente a questão da reflexão e afirma: quem sabe não reflete. Em outras palavras, não questiona os fundamentos de suas certezas. Se não pratico a meditação, não saberei a diferença entre saber e conhecer. O saber nega a reflexão. Quem pensa saber muito, não reflete, diz.

Segundo ele, no mundo atual o saber concede poder e não refletimos para saber se os fundamentos que temos são adequados ou não. Os cientistas e os militares não refletem sobre o fazer porque isso modificaria seus atos. Se questionar seus fundamentos, certamente modificará suas atitudes e questionar meus fundamentos é um ato libertador.

Perguntado se Jesus teria caido na tentação da certeza ao afirmar que era o caminho, a verdade e a vida, cita duas passagens do evangelho, primeiro a do Reino de Deus ser como um grão de mostarda que quando semeado torna-se uma árvore frondosa onde os pássaros se aninham, significando o valor do desapego, pois o apego nos impede de refletir e a outra quando Jesus diz à mulher: a tua fé te salvou. Jesus estaria dizendo, foi você e não eu.

Isso me lembra a questão dos impulsores, matéria obrigatória no discipulado à moda Zenon Lotufo Jr. São eles:

Seja Perfeito

Quando essa mensagem soa em nossas mentes, esforçamo-nos para atingir a perfeição em tudo o que fazemos. Mas não há limites para atingir a perfeição, nada nos parece suficientemente bem feito, o que impede que nos sintamos satisfeitos com nossas realizações. O impulsor pode, também, dirigir-se para fora, isto é, exigir perfeição dos demais. É comum ele soar: Ah, se eu fosse perfeito!

Seja Forte

Essa mensagem faz com que a pessoa bloqueie seus sentimentos autênticos, ela proíbe que nos mostremos fracos ou necessitados de ajuda.

Apresse-se

As pessoas submetidas a este impulsor necessitam fazer todas as coisas “nesse mesmo momento”; são impacientes e não toleram nenhum tipo de espera.

Agrade Sempre

A pessoa que tem esse impulsor em posição de destaque tem grande dificuldade de afirmar-se diante dos outros. É quase impossível dizer não, para eles. A aprovação dos demais é de vital importância para ela. São os que costumo chamar de obnóxios.

Esforce-se mais

A mensagem interna diz que tudo é difícil de fazer. A pessoa que tem esse impulsor tenta, tenta, mas raramente leva a cabo seus empreendimentos. É muito comum nos procrastinadores.

O Zenon e eu, em nossas conversas, costumávamos definir as pessoas pelos seus impulsores característicos, por exemplo, o Ricardo é um tremendo Seja Forte, o Ed, aquele Seja Perfeito ou o Lou, esse baita esforce-se mais. O fato é que, todas os impulsores são negativos e podem levar as pessoas ao manicômio ou ao suicídio. Sob o olhar do Maturana e suas tentações, as pessoas cheias de saber e sem nenhuma reflexão, são movidas por esses impulsores.

Não cair em tentação foi uma recomendação expressa do Filho predileto de Deus e deve ser essa a razão para ela figurar na oração do Pai Nosso. Desapego e reflexão são ferramentas imprescindíveis para nos libertar da tentação da certeza,  a penúltima tentação de Cristo.

Assista à entrevista, se seu espanhol estiver em dia:

1 thought on “A penúltima tentação de Cristo

  1. Estou certo de não ser possuído nenhum dos impulsores e de ser o meu melhor crítico. Acho que ‘tô no ponto de começar a perder…

    Também acho… 🙂

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