A Gruta do Lou

A Paixão desnecessária

E DIZENDO: TU, QUE DESTRÓIS O TEMPLO, E EM TRÊS DIAS O REEDIFICAS, SALVA-TE A TI MESMO. SE ÉS FILHO DE DEUS, DESCE DA CRUZ. Mt. 27:40

Afinal, Deus teve misericórdia de sua criação e em supremo ato de amor perdoou a todos, indiscriminadamente, enviando seu Filho Jesus Cristo para anunciar a Boa Nova da salvação ampla, total e irrestrita, considerando todos os capazes de acreditar nessa notícia inclusos em sua conseqüência salvífica, em um ato liberal e incondicional ou teve alguma recaída teológica de última hora e teria voltado à velha prática pagã do sacrifício, enviando o próprio filho ao matadouro, dessa vez?

Essa questão me intriga. Jesus mesmo pareceu-me absolutamente perplexo quando constatou que ser vituperado e assassinado em uma cruz humana e tosca era inevitável: Pai, por que me desamparastes? Esqueceu sua certeza de poucos dias atrás quando declarou à polícia e ao ministério público que se o matassem, em três dias, estaria de volta, rijo e forte, vivinho da silva. Eram todos jogadores e pagaram para ver. Salva a ti mesmo, se és filho de Deus, desce dessa cruz.

Me parece ser a questão fundamental o problema da teologia e sua cria cheia de defeitos congênitos, a psicologia. As duas não existiriam sem o pecado original e tudo o que veio depois. “O poder imaginativo que vimos em ação reaparece, de modo muito lógico, em outro ponto da dogmática, na Redenção. É ensinado que Cristo trouxe a redenção à humanidade pelo pecado original. Entretanto, que aconteceu a Adão, o que introduziu no mundo o pecado original? O pecado original não seria um pecado atual em Adão? Ou, ao final das contas, será que tal pecado assume para Adão significado idêntico que para outro qualquer participante do gênero humano? Neste caso, contudo, o conceito explode. Ou terá sido pecado original a vida inteira de Adão? O primeiro pecado que praticou não teria feito nascer nele outros, isto é, pecados atuais? O vício do raciocínio anterior mostra-se aqui com maior clareza ainda: Adão é exilado para fora da História de maneira tão fantasiosa, que, no fim, ele será o único a não se beneficiar com a redenção. … Explicar o pecado de Adão é dar a explicação do pecado original: ou explicar este, sem explicar Adão, nada vale. Seria tarefa impossível, aliás, e a razão profunda de tal impossibilidade está na própria essência da existência humana; o homem é um indivíduo e, assim sendo, é ao mesmo tempo ele mesmo e toda a humanidade, de maneira que a humanidade participa toda inteira do indivíduo, do mesmo modo que o indivíduo participa de todo o gênero humano.”*

Com o pecado original e seu criador, o infeliz Adão, que veio ao mundo carimbado com a sina de ser o primeiro ser humano vivente e, conseqüentemente, ser transformado no primeiro pecador, a porta por onde o pecado entrou para contagiar toda a raça humana, veio a culpa, a maior vilã de todos os tempos. Graças a ela, cada um de nós perdeu a inocência, ou não éramos inocentes antes de pecar?  Nessa não dá nem para recorrer a algum genoma da vida, a não ser que Deus fosse matéria como nós. Em outras palavras, o pecado original tirou a nossa inocência e nos encheu de culpa. Agora, se tudo isso é dogmática, portanto teologia, se outro ramo qualquer tentar tratar do pecado, o conceito tornar-se-a obscuro. Como diz Kierkegaard: É o que sucede, para retornar ao objeto de nossos cuidados, quando os psicólogos se imiscuem.”

Creio ser grande a possibilidade de que Jesus, o profeta da Galiléia, não tivesse nenhuma dúvida em relação a tudo isso, e considerasse apenas o estado psicótico e cheio de transtornos bipolares da humanidade gerados por uma (ou mais) teologia falaciosa que encheu a criação de culpa e angústia. Talvez ele estivesse dizendo a verdade quando afirmava: “Quem crer em mim e for batizado será salvo”. Sua morte antecedida pelos horrores tão bem reproduzidos por Mel Gibson não significariam mais do que um brutal assassinato cometido pelos defensores da teologia vigente e, em nada, significativa à redenção da humanidade. Nesse caso, a redenção seria um ato voluntário e todo amoroso de Deus, apenas, e incondicional.

Certamente, os defensores do pecado original e mantenedores da mente culpada e angustiada tão propícia às manipulações e interesses de gente que não serve nem para joio, não concordarão comigo. Não tem importância, destruam esse templo e eu o reconstruirei em três dias.

*Soren Kierkegaard em O conceito de Angústia

5 thoughts on “A Paixão desnecessária

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  5. Independentemente de uma doutrina de pecado original, de fato, o sacrifício de Cristo, se enxergado dentro de uma teologia que não estou disposto a admitir (quem lê entenda), é mera bobagem, uma formalidade desnecessária para o Deus que, ao estalar os dedos, poderia ter retirado todos os pecados do mundo.
    Você o coloca bem: um assassinato brutal.
    Antes que surja interrogatório e investigação policial: sim, cheguei aqui pelo blog dos outros, a saber, o do Rogério.
    Um abraço,
    André

    Antes de mais nada, agradeço a visita e comentário. Claro que vir seguindo a rota dada pelo Roger não deixa dúvida de que você caminha por bons blogs e livra da nossa inquisição. Um abraço.

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