A outra face

Acordei com uma sensação estranha, hoje, Barack Obama foi indicado para receber o Prêmio Nobel da Paz desse ano e não sabia se havia sonhado isso ou, de fato acontecera. Estranho, devo ter ouvido falar disso muito pouco e não me lembrava como ou quando. Quando desci de meus aposentos, na ala residencial do palácio grutal, ao meio dia, inquiri a Dedé a respeito e ela confirmou com ares desconfiados.

Tratei de ler a notícia completa, especialmente as razões desse  desatino sueco e depois dei uma boa olhada na lista dos agraciados anteriores. Percebi que Albert Schweitzer recebeu em 1952 e não em 1958 como imaginava. Não achei o nome do presidente Jimmy Carter nem de Mohandas Gandhi e seria capaz de jurar que eles haviam recebido, também.

Parece que a razão principal para agraciar Obama tão prematuramente foi o empenho dele em reduzir armamentos de destruição em massa no planeta. Não posso dizer que seja uma idéia ruim, mas não vi os caras desmontando ogivas por aí e, assim, sinto certo incomodo em acreditar nisso. Na verdade, vi nosso presidente trabalhador tratando de fazer acordos com o presidente da França para construção de submarinos atômicos e compra de caças super-sônicos com boa capacidade de ataque, armas excelentes para despachar um monte de trabalhadores para o inferno rapidinho, enquanto nossas criancinhas morrem de fomem por aqui. Não notei nenhum esforço de Obama no sentido de desestimular tal arroubo guerreiro de nosso caudilho, ao contrário, cheio de ciúmes, ele teria oferecido os caças pela metade do preço e outras vantagens para ficar com o negócio.

E não é só nesse caso que se confunde violência e paz. Para acabar com a violência e a falta de segurança conseqüente no Rio de Janeiro, futura sede de jogos Olímpicos e Final de Copa do Mundo, os responsáveis estão receitando, pasmem, mais violência. Ontem mesmo, ouvi a notícia de que liberariam mais cento e cinqüenta milhões para compra de armas destinadas a combater o crime organizado nesta cidade que já foi maravilhosa.

Sabe, em minhas parcas reservas de saber, acredito que a melhor forma de se conseguir a paz é acenando com a própria. Gandhi, que não ganhou o prêmio Nobel da Paz, embora tenha sido indicado cinco vezes, pregava a resistência pacífica, algo que ele aprendeu lendo Thoreau e o sermão da montanha de Jesus Cristo, outros não ganhadores do prêmio. Martin Luther King foi agraciado e tudo que fez foi seguir os passos desses paladinos da paz. Segundo esses senhores, para vencer a violência e lograr a paz você deve pagar o mal com o bem, até dobrar o violento. Parece que eles foram bem sucedidos, embora isso tenha lhes custado a própria vida. Um preço pequeno, se compararmos ao número de vidas ceifadas diariamente pelos morros  e ruas cariocas.

Cara, posso estar enganado, mas o infeliz que conseguir apaziguar a cidade predileta da Rede Globo de Televisão correrá sério risco de ganhar o Prêmio Nobel da Paz. Na pior das hipóteses, conseguirá umas indicaçõeszinhas. Será que não há um infeliz, sequer, capaz de almejar esses dois objetivos?

Meu, sou candidato a coordenar essa vitória em terras de Ari Barroso e estou disponível. Se quiserem, vou para lá, amanhã mesmo. De Cometa, porque estou sem Land Roover, no momento, como todos sabem. Minha primeira providência seria desarmar a polícia, a fim de desestimular os senhores traficantes a investir em armas. Já imaginaram a economia? Daí, colocaria em andamento um planejamento estratégico todo inclusivo de ações pacíficas e benevolentes. Como diria o Mestre: “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mal; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra” Mt 5:39

Tudo bem, alguns nos acharão (o Mestre e eu) inocentes e piegas. Talvez seja melhor dar o Nobel para o Obama e seu desarmamento, pelo menos ele pode estar caminhando pelo mesmo princípio, se é que está mesmo fazendo o que diz. Poderia desestimular o colega brasileiro, pelo menos. Eu continuarei a dar minha cara a tapa aos meus inimigos domésticos mesmo. Fazer o que?

lousign