A Gruta do Lou

A Novela

A Novela é apenas um gênero literário, muito simples e com grande capacidade de arrebatar audiência, leitores e fãs.

Os personagens básicos são três: O Vilão, a Mocinha e o Mocinho. Coloquei nessa aparente má ordem propositalmente e há toda uma série de outros personagens, dependendo da vontade do autor, mas sempre secundários.

A personalidade do Vilão é absolutamente do mal. Ele é astuto, sagaz, competitivo, competente, intuitivo, muito bem preparado, corajoso, sem nenhuma ética ou escrúpulos, ateu, violento e dono de uma beleza madura. Usa bigode e cavanhaque e adora beber espalhafatosamente. Muito rico, consegue o dinheiro necessário facilmente, geralmente tomando do imbecil do mocinho ou da mala (entenda como quiser) da mocinha. É o personagem que mais aparece durante toda a história. Geralmente, o melhor ator é escolhido para interpretá-lo. Ele come a mocinha diversas vezes, mas mantém outros relacionamentos em segundo plano. Vale lembrar que ele é um Don Juan incorrigível. Possue charme irresistível. Sua verdade inclui seu mais ardente prazer que é passar o mocinho para trás. Pessoalmente, adoro esse personagem.

A Mocinha é muito bonita, mas tola. Bem burrinha, também. Não consegue guardar segredos e morre de medo de baratas e ratos. Ama o mocinho, mas deixa-se seduzir pelo charme do Vilão, sem que ninguém o saiba, claro. Não confessa, mas treme de prazer nos braços do malvado. Sua consciência religiosa faz sentir-se culpada e vê no mocinho sua redenção. Ela perde sua virgindade para o Vilão, sempre em cena que beira o estupro, mas onde ela sente prazeres secretos inimagináveis. Geralmente ela volta ao vômito várias vezes no transcorrer do enredo, antes de, finalmente, entrar na igreja com seu vestido branco de mulher pura, para ser entregue ao mocinho cornudo. Ela é patética.

O mocinho quase beira o papel de coadjuvante. Dos três é o que menos aparece. Parece forte, mas vive apanhando do Vilão e seus capangas. É educado, quase gay, quando não é chegado à bi-sexualidade. Em cenas de amor com a bobinha, dá a impressão de não gostar da coisa. Anda limpo e bem vestido, dificilmente exala o cheiro masculino que tanto encanta as donzelas. Não prima pela inteligência e, apesar de bonito, sua beleza dissolve-se em incompetência e ética infrutífera. Vive atacando moinhos de vento e transa mil vezes com a mocinha em suas fantasias (geralmente lembranças da única vez em que a teve nos braços), mas pegar no concreto é coisa quase não lhe acontece, além de uma vez no inicio e outra no fim da novela. É o trouxa e o último a saber das coisas. Tenho pena dessa figura.

O enredo desenvolve-se, inequivocamente, da seguinte forma: logo no início, desenha-se o romance arrebatador entre o Mocinho e a Mocinha com a mais completa desaprovação do Vilão. Logo, o bigodão rapta a mocinha, literalmente ou literariamente dissolvido em ventos de rumos incessantes e fortuitos da vida. Os dois passarão o resto da novela protagonizando cenas de amor, ódio, paixão, sexo, agressões e traições. Enquanto isso, o vil amante tratará de manter o mocinho ocupado andando atrás de falsas pistas que plantará adequadamente, quando não o enganará pessoalmente, pois isso é muito mais gostoso, sempre. Somente na última parte do último capitulo, o pai da mocinha (nunca o idiota do mocinho) conseguirá convencer algum delegado mentecápito da perniciosidade do personagem mais arrebatador da novela. O raposão, por sua vez, tratará de fugir para algum paraíso fiscal, onde gravará sua última fala: Uma sonora risada acompanhada de uma boa banana e “hasta la vista muchacho”. Os dois pombinhos, finalmente, dirão sim na presença do padre visivelmente enfadado e ainda terão meio minuto para um beijo, claramente, sem graça.

The End

11 thoughts on “A Novela

  1. Espero que os leitores olhem esse texto contra a luz e vejam nele uma parábola da igreja. Caso contrário, irei dormir com dor de cabeça.

  2. Ok,
    pode começar com sua dor de cabeça e dificuldade em dormir.
    Não sou muito boa nessa coisa de quebra-cabeças e portanto, perdoa-me o meu inferior Q.I.
    Dá para traduzir?
    God bless you.
    T.
    ps: eu sei que já tinhas saudades minhas, desde o ano passado que não te cutucava… hihihi

  3. Tinoca

    Vamos esperar e ver se não aparece alguém para te ajudar. Caso contrário, eu tentarei a minha própria interpretação.

  4. Compreendo suas intenções excusas, meu velho. É realmente um ótimo negócio – especialmente nestes dias – abrir uma Escola para formar roteiristas. Você se revelou um bom professor.

  5. Pensei que você estivesse falando do meu romance, vi os meus mocinhos ai nessa descricao, akkakakakakakka.
    Mas é assim mesmo, o povo gosta dessas coisas demais. Fazem uns muito ingênuos e outros espertos demais. Quanto ao ingênuo do mocinho tenho pena nao, eles pedem mesmo prá ser enganados e quanto à mocinha, elas vivem loucas por uma aventura.
    Nao adianta falar, aconselhar, cada um quer ter suas próprias experiências.
    Lou, sinto que vc terá que ficar com dor de cabeca. Estou a espera da resposta sobre qual parábola.

    Bom fim de semana abraco em vocês

  6. Lou, muitas vezes nao são só os posts que precisam ser interpretados…
    os comentários também….
    entende?
    🙂
    beijos,
    alê

  7. Pingback: Lou Mello

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