A ironia e o bom humor como características do cristão pós-moderno


Lou Martir

Chesterton parecia perceber instintivamente que numa sociedade cheia de gente sofisticada que desprezava a religião, um profeta sisudo teria menos impacto do que um bobo da corte.

Philip Yancey no prefácio ao livro Ortodoxia – Ed. Mundo cristão

Não sei bem por que, mas gostei muito dessa frase e fiz questão de sublinhá-la. Talvez devido a essa característica, sempre presente em minha vida, de fazer as pessoas rirem. Não sei no caso do Chesterton, mas eu não procuro fazer as pessoas rirem, isso acontece naturalmente. Provavelmente comece com certa falta de atenção e um pouco de desligamento e esquecimentos contribuam. As perguntas indevidas também ajudam nesse quadro. Acho que acabei adotando certa ironia e algum sarcasmo, no meio do caminho. Um pouco devido à expectativa das pessoas, sempre esperando o momento em que eu diria ou faria alguma asneira e, também, por causa das agruras da própria vida. Um dia, comecei a rir de mim mesmo e de minhas desgraças e nunca mais parei.

Daí a ler a bíblia pelo lado mais cômico foi um pulo, mas também aconteceu sem querer. Estava pregando e disse, sem pensar: “Então Jesus olhou para Maria e entrou em pânico!”, a congregação caiu na risada. Aí, emendei uma descrição de Maria, o quanto ela era feia, fanha, etc… O pessoal gostou e não parou mais de rir. Todo humorista desenvolve um jeito engraçado de brincar com estas coisas sem ofender as vítimas reais. Adoro fazer a voz dos personagens bíblicos. Por exemplo: Moisés gago: Ma, ma, ma, mas Fa, fa, fa, fará, fará, Faraó, PE, PE, pera um, um pó, um pó, um pouco, pô! Ou Paulo fanho: Combati o bom combate…, o povo quando ouve esse discurso na voz de um apóstolo fanho, morre de rir. Não creio que seja pecado. Deus deve rir a valer. Pelo menos é isso que diz na Bíblia, no Salmo 2.

Estava com o Sérgio na convenção do Jorge Tadeu e quando foi chegando ao final, na hora dos apelos e coisa e tal, sabendo que ele ia mandar todo mundo dar as mãos, tratei de verificar quem estava do meu lado. Era um rapaz baixinho e ele não era propriamente um suíço ou descendente de anglo saxão. Discretamente, subi alguns lances da arquibancada, aproveitando a pouca luz, sem que o meu amigo percebesse. Não deu outra, a ordem veio e o baixinho agarrou a mão do Sérgio que ficara ao lado dele com minha saída. Acho que o ouvi dizer, no meio da oração repetitiva: Lou você me paga!

Sempre achei a igreja muito sisuda. Parecia errado rir na igreja. Aliás, eu nunca fui bem visto nas igrejas por ande passei, em boa parte, por causa desse negócio de rir. Bom, esse é outro problema que eu tinha. Do nada, me dava vontade de rir. Desde criança me acontece isso, principalmente em elevadores cheios de gente. Muitas vezes, no meio de alguma pregação séria eu começava a rir, sabe quando a pessoa tenta segurar a risada, sem conseguir? Então, todo mundo começava a rir, sem saber por que e o coitado do pregador ficava ali com cara de coió, enquanto o povo ria. Quando parecia que tinha parado e o cara começava a falar de novo, eu desatava a rir outra vez e todo mundo comigo. Era uma farra, principalmente se o pregador não era lá essas coisas.

Felizmente, não tenho mais essa manifestação espiritual da risada. Isso foi tão forte que se espalhou pelo mundo. Tem igrejas nos Estados Unidos que fizeram do riso uma doutrina, como se fosse um carisma, igual ao negócio de cair no poder, etc., e tudo começou comigo. Sei que você não acreditará, mas é a mais pura verdade. Eu também fui o primeiro a cair no espírito. Foi lá na África. O pastor estava meio suado e quando levantou a mão para orar por mim, dei um pulo para trás, para fugir do cheirinho dele, meu pé enroscou no tapete e eu caí, igual uma tábua solta da parede. Então todos os outros depois de mim caíram também, começando esse trem de cair sob o poder do espírito.

Depois vocês ficam me incentivando a voltar para a Igreja. Vocês não sabem da missa a metade. Tem pastor que não pode nem ouvir falar no meu nome. Um deles é o Jonathan. Tudo porque contei em um congresso missionário a história dele em Moçambique com o braço inchado depois de tomar a vacina contra malária, porque não demos a ele um comprimidinho que evitava o sofrimento. Bom, também ele não pediu.

Assim, só pelo bom humor e alegria, um dos atributos do amor ágape descritos por Paulo no capítulo cinco da carta aos Gálatas, fiquei fã do Chesterton. Nem liguei para a o fato dele defender a Ortodoxia, se bem que ele sempre reconheceu o lado perverso do cristianismo igrejeiro. Como disse o Yancey, depois de ler esse livro, nos sentimos renovados e dispostos a começar tudo outra vez. No meu caso, a começar tudo com muito humor e alegria. Sem querer, é claro.

Capricornio PB