A Gruta do Lou

A inutilidade liberta

Dercy GonçalvesDercy Gonçalves

Falávamos da inutilidade que liberta, pré anunciada pela epopeia de Noé e o pássaro com o ramo no bico, quando sub-repticiamente recebi o telefonema de um dos pastores de Sorocaba desejando minha opinião sobre uma ideia. Já sei o que você está pensando, mas Sorocaba é assim mesmo, até isso acontece: pastores pedirem a opinião do pastor renegado. Nessa hora me chamam pastor Luiz Henrique, se bem que minha real consagração é de missionário, o que não me serve de nada.

Quando ele me ligou, senti um frio correr minha espinha de alto a baixo. Enquanto me expunha seu plano, parece que havia alguém gritando em meus ouvidos que o negócio era fria. Foi preciso me conter para não ser grosso ao telefone. Marcamos uma reunião e ontem ele veio até minha casa e conversamos bastante. Com gentileza e ternura expus a ele meu sentimento e sensação diante de sua ideia e depois o ajudei a descobrir, dentro de sua Igreja, algo em andamento que valesse a pena investir, ao invés de partir para esse plano suicida. Acho que entendo agora, o que deu na cabeça dos japoneses com aquela ideia insana de Pearl Harbor. Deve ser a mesma coisa que as pessoas sentem quando decidem serem motoboys. O pastor foi embora todo feliz e eu fiquei com outro pensamento kamikaze na mente: a de que estou recuperando meu dom.

“Essas histórias de fé consistente me assustam, porque raramente tenho uma fé assim. Sinto-me, com facilidade, desencorajado pelo silêncio de Deus.” Disse Philip Yancey em O Jesus que eu nunca conheci – Vida – Pág 195. Nenhuma outra afirmação poderia aproximar-se mais da minha própria experiência. Raros são os meus momentos de fé espetacular. Estou mais para o silencio divino e uma continua sensação de que o velhinho está distante, cuidando dos seus filhos prediletos, como o Ed, o Gordim, Arinovaldo, Bispo e Malafeia. Mas é apenas um reflexo de minha auto imagem negativa construída com ajuda de meus pais, professores, amigos e a constante preterição da parte dos irmãos em cristo. Nessa o divino não tem culpa, acho.

Assim, a minha inutilidade serviu para a libertação de um irmão a beira da agonia e dar-me a ilusão de que não sou tão inútil assim. Acho que comprarei uma daquelas agendas big para marcar horários dos milhares de compromissos a serem assumidos daqui para frente. Certamente, muitos virão de todos os cantos da terra para consultarem-se com o papai aqui.

Pensando bem, estou sentindo um cansaço imenso com toda essa possibilidade. Talvez seja melhor marcar férias durante o mês de julho e viajar com a Dedé para Portugal, Alemanha, Egito e Índia. Afinal, não sou feito de ferro.

 Capricornio PB

7 thoughts on “A inutilidade liberta

  1. Wander

    Não. A Dercy não tem nada a ver com o post. Mas, pelo menos, você reparou na foto. Há vários dias, venho homenageando as pessoas que fazem ou fizeram da alegria, do riso a sua profissão, com fotos. Hoje foi o dia da Dercy.

  2. O velhinho costuma surpreender. As coisas fracas para confundir as fortes, como disse o Paulo.

    Já que comentaram a foto da Dercy: que achado arqueológico, hein?!

  3. kkkkkkkkkkkkkkkkk

    Gosto de ver as fotos que vc seleciona. Acho que um bom gosto!!! Acho que é exatamente a ironia da coisa.

    Tinha uma música no Brasil, nao me pergunte quem cantava, porque nao sei mesmo, mas os jovens cantavam: “A gente somos inutéis. A gente somos inutéis.”

    Em algumas situacoes me sinto exatamente assim: Iutil, remando contra a mare.

    Bom domingo

  4. Não se iluda. Você continuará a ser inútil como nós, ou então terá de abandonar a Gruta. Onde é que se conta nosso líder passar a ser importante. O que será de nós! Ficaremos órfãos!

    Geórgia, os “jovens” eram o Ultraje a Rigor. Hoje eles não são tão jovens assim…

  5. “Tudo serve pra alguma coisa, nem que seja pra mau exemplo…”
    A tua inutilidade coloca em xeque a “utilidade” dos poderosos.
    Falei!

  6. “Você não pode mudar o dia de ontem, mas pode acertar o dia de amanhã.” (T. Evans)

    – Posted by alealb!

    Abraço

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