A inevitável arte de aniversariar

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A inevitável arte de aniversariar contém em sua definição a inescapável e compulsória certeza de vive-la ano após ano, quase sempre como um dia para esquecer. A não ser que você tenha parentes minimamente legais e um ou outro amigo, ao menos, fora a sua família nuclear, obviamente.

Neste mesmo dia, em 2009 escrevi:

“Enfim, o ano começou e segue seu curso inexorável. Hoje é o último dia de mais um ano e amanhã o primeiro do resto de minha vida. Estranho, pois não tenho uma ideia completa e definida sobre o que farei. Apenas alguns vagos lampejos, ora mais claros ora obscuros. Continuarei insistindo com a consultoria, desenvolver o Projeto Coração Valente e voltar a tratar os Dependentes Químicos. A D. Arlete gostará de saber dessa última parte. Estaremos em nossa cidade, isso será bom. Não me peçam detalhes, o certo é, eles ainda não chegaram a um tamanho que nos permita divisá-los…

…Sem promessas de ano novo. Serei eu mesmo, sempre que possível. Tentarei decepcionar menos e ser mais generoso com todos. Talvez descubra, daqui um ano, pelas estatísticas, ter falado em quantidade menor e ouvido mais. Quem sabe consiga ajudar abundantemente, ser ajudado raramente e aparecer suavemente, seja por onde for. De Deus, receberei o presente de ser e existir, até quando lhe convier…

…Se der, viajarei. Andarei além e retornarei para confirmar que o melhor lugar é mesmo a minha casa. Mas não creio que chegarei nem perto do Polo Sul, muito menos do seu oposto. Gostaria de navegar por aí, voar sentindo o prazer da liberdade e sonhar muito, mas menos em relação ao fazer. Se tiver um teto sobre as nossas cabeças, o que comer, um fusca em bom estado e roupas nas gavetas, com minha esposa feliz pelos cantos da casa, os meus filhos à roda de nossa mesa, sob o som estridente dos gritos dos meus netos, venderei tudo e darei a troco disso. Feliz serei e abençoado homem temente a Deus, continuarei….

…Se ninguém escrever uma linha, quiçá uma palavra, terei me bastado como sempre foi. Deus salve a vida e os dias dela”.

Insisti com minhas propostas descritas acima, até aqui. Mas devo confessar: um homem de minha idade fará melhor se debruçar sobre a tarefa de escrever suas memórias e poesias, se puder, pintar suas imagens, plantar e cuidar de um jardim e prometer não conversar com estranhos na fila do caixa do supermercado ou qualquer outra fila. Quanto aos demais parágrafos, me parece formarem uma proposta com a qual me sentiria muito bem em conviver, nesse ano também. Talvez deva acrescentar o propósito de tentar descobrir o que é amizade. De repente alguém me faz essa pergunta de novo e, então, ser capaz de responder.

No mais, é manter o que sempre fiz: ler a Bíblia, orar, tomar a ceia do Senhor, de preferência secretamente, em uma igreja qualquer, visitar alguma exposição de pinturas que possa surpreender, continuar a ler em todas as oportunidades e, caso tenha a sorte de ter com quem jogar conversa fora, de vez em quando, não perder essa oportunidade. Caso venha a ter netos, algumas dessas possíveis atividades perderão a vez para eles, seguramente.

Sei que você gostaria de me dar um longo e fortíssimo abraço hoje, daqueles de tirar o fôlego, seguido de um sincero desejo de muitas alegrias em minha vida, mas não pode fazê-lo por razões óbvias, como sempre. Não faz mal. Se não foi a primeira vez, também não será a última, acredito.

Capricornio PB