A Gruta do Lou

A imobiliária



Então travou-se, nesta tarde, contundente e voraz duelo entre Dra. Flávia e o ferr… digo, grutense que vos escreve.
Foi um embate morno. Só apresentamos nossas propostas. Peguntei do dossiê, com classe. Ela me falou dos alugueis atrasados. Perguntei do mensalão, cortesmente, ela me disse ter trabalhado muito no meu caso e não abriria mão da cobrança dos honorários advocatícios (cláusula 8 do contrado). Perguntei dos sanguessugas, com carinho, e ela me disse para sair do imóvel imediatamente, se preferisse. Arrisquei uma última pergunta, com humildade, se ela sabia dos planos da imobiliária, ela me disse que o valor do aluguel fora aumentado segundo a lei e eu seria obrigado a aceitar.

Lembrei dos milhares de leitores orando genoflexos e lembrei de Jesus perguntando aos discípulos: “Vocês não puderam orar nem meia hora?” Então, lá se foi o cheque pela fé. Agora ganhamos mais vinte dias de moradia. Depois… a ponte.

8 thoughts on “A imobiliária

  1. Lou, experiência de endividada: da próxima vez em que der um cheque pela fé, faça com a mão que não é ativa… Aí o cheque volta por assinatura. Se bem que essa é manjada né? Acho que nem cola mais…Nós os endividados estamos ficando cada vez mais ridículos. Mas me conforta aquela poesia de fernando pessoa que sei que você conhece mas que estou muito ocupada (leia-se com preguiça) por isso não posso escrever aqui.

  2. Bete
    Fiquei curioso. Sou um analfabeto quando o assunto é Fernando Pessoa. Para vergonha maior, minhas raizes são completamente portuguesas. Mas, sempre me surpreendo com os escritos dele. Sou um admirador ignorante. Então, você vai ter que me mandar o texto.

  3. Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

  4. Eu li esse texto em algum lugar e em algum momento. Tanto é, que quando me trai a memória, estou a citá-lo ou nele a pensar, sem a isso me dar conta.

  5. Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, …

    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

    Não, não tem nada a ver comigo. Ai, para de beliscar, Dedé..

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