A Gruta do Lou

A Igreja não é grande


Essa constatação não é privilégio de nenhuma igreja em especial, mas se aplica a todas. Evidentemente, sou obrigado a escrever sobre esse tema a partir do meu próprio universo religioso, mais ligado aos pressupostos cristãos.

Como já foi incansavelmente divulgado nas páginas dessa Gruta subversiva, dei meus primeiros passos cristãos sob os auspícios católicos, até descobrir que podia fazer minha própria opção religiosa e topei me converter ao cristianismo protestante, provavelmente por me enganar imaginando uma religião mais independente, menos servil e mais honesta. Obviamente, foi um grande engano e isso me deixou mais confuso ainda, sem saber se era menos inteligente quando adotava a religião paterna por imposição ou quando optei por uma religião segundo meu próprio julgamento e “dei com os burros n’água”.

A igreja falha de maneira lamentável em afastar-se do Deus que deveria representar e isso não é privilégio dos cristãos, católicos ou protestantes. O recente óbito de Christopher Hitchens, outro antideista honorário que pisou nosso planeta, traz essa discussão de volta e caberia aos senhores sacerdotes e pastores oferecer considerações sobre os equívocos e acertos desses caras. Certamente eles falharão nessa expectativa fazendo ou não o dever de casa, então gente menos apropriada como eu e alguns outros antibobalhõesateistas nos vemos na obrigação de fazê-lo.

Meu anticristo predileto ainda permanece sendo Nietzsche e seu O Anticristo Maldição do Cristianismo. Adoro quando ele relata: ” …Como se sabe, Aristóteles via na compaixão um estado doentio e perigoso que poderia ser superado tomando-se um purgante ocasionalmente: ele entendia a tragédia como uma purgação“. Ele também elege a Igreja como seu anticristo predileto, embora nomeie a teologia, a filosofia, os pastores e os filósofos como os principais demônios a serem combatidos. Evidentemente e com sabedoria ele esclarece ser um Filólogo antes que alguém se arvore a traçar algum tipo de ligação subversiva dele com a filosofia. Coisa de filósofo sacana.

Esse exemplo me remete, inapelavelmente, a duas vertentes. Primeiro é preciso mencionar que esse livrinho do Nietzsche é o melhor livro de Auto Ajuda que já li e olha que li muitos, com destaque para o Segredo claro, escrito aos pés de Pense e Enriqueça. Veja isso nas próprias palavras do Filólogo: “O que é felicidade? O sentimento de que a potência cresce, de que uma barreira é superada“. “…Os débeis e os disformes devem sucumbir: primeira regra do nosso amor ao homem, e para isso devemos ajuda-los. O que é mais prejudicial do que qualquer vício? A compaixão ativa para com todos os deficientes e fracos; o cristianismo.” Para ele, a própria vida encerra um instinto para o crescimento, para a duração, para o acumulo de forças, para o poder; onde falta o poder, existe o declínio. E afirma mais, falta essa vontade em todos os valores mais elevados da humanidade, que os valores da decadência, valores niilistas imperam sob os nomes mais santos. Sua afirmação definitiva, nesse sentido é: “Nada é mais doentio na nossa podre modernidade do que a compaixão cristã”. Para ele, fomos vocacionados pra o que é bom (e os objetivos do cristianismo se opoem completamente a isso), ou seja, para tudo que eleve no ser humano o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência.

O que estou tentando dizer é que a opção da Igreja Cristã é inversa aos propósitos de Deus. Ela marcha na direção contrária tomando partido de tudo aquilo que é fraco, baixo e deficiente; construiu um ideal a partir da oposição ao instinto de sobrevivência de uma vida forte; perverteu a razão até mesmo de naturezas intelectualmente mais fortes definindo os valores mais altos da intelectualidade como pecaminosos, enganosos, como tentações. Isso dito nas palavras do próprio citado.

Isso nos leva à segunda vertente, ou seja, enquanto a Igreja contaminava a sociedade humana o que fazia Deus? A meu ver, Deus gosta do principio ativo da energia atômica, usando com fins pacíficos e construtivos, obviamente. Vira e mexe, ele despacha um missionário para a Terra a fim de detonar alguma bomba de efeito pacifico devastador. Teria usado até o próprio filho para essa tarefa, em uma das vezes. O cara vem e começa a propagar uma ideia xoxa do tipo: “Arrependei-vos que é chegado o Reino de Deus” ou “podemos vencer nossos inimigos através da resistência pacífica” ou “tenho um sonho, que todos vivam em paz e harmonia, juntos apesar das diferenças”. A principio, as pessoas riem e até caçoam, mas pouco a pouco os átomos vão se dividindo e quando os sacerdotes dão pela coisa, já era. Aí eles tratam de apagar o incêndio (começando por apagar o louco pacificador e anticristão) e salvar o que restar desses desastres.

A Igreja seria grande se pensasse como Deus. Ela precisaria lutar pelo engrandecimento do ser humano e não se esconder atrás dos seres humanos decadentes. Não ouso dizer que Deus não se compadeça dos seres em decadência. Mas sua compaixão é construtiva, não alimenta a causa das misérias humanas, mas trata de levantar gente capaz de lembrar aos moribundos que eles têm a força neles mesmo, concedida lá na criação de todos e tudo. Quem pensa enriquece, pense e cresça, etc., só isso será suficiente em todas as situações. Como diria o Zenon, meu melhor terapeuta, Deus deseja apenas que cada um de nós seja responsável por sua própria vida e acrescento: não se deixe enganar por sacerdote algum.

Ops: …esse texto continua com A Igreja não é grande II, a missão dos teólogos. Em breve nas telas desse blog.



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