A Gruta do Lou

A Grande Missão, sem egoísmo

“Como saberei se completei a minha missão?”

Fernão Capelo Gaivota, no livro homônimo de Richard Bach

Estou vivendo o primeiro dia, primeira hora, primeiros minutos e segundos do último ano do meu quinto dígito de vida. Estou só na sala de casa. A família está toda em casa, todos acordados, mesmo nessa hora, mas cada um em um microcomputador em contato com o mundo, enquanto escrevo aqui. Apesar do adiantado estágio desse viver, ainda não cumpri toda a minha missão e, portanto, acho que o divino ainda não me chamará para jogar no time deles, mesmo que estejam perdendo.

Andei pensando nos últimos dias, sobre esse negócio da missão de vida. Não creio que Jesus, e muito menos o pai dele, nos comissionasse para cumprir algum tipo de tarefa em prol do Reino de Deus, da igreja ou qualquer outra das megalomanias da família divina, como querem muitos por aí. A razão dessa minha tresloucada opinião é simples, para emitir um mandato desses tipos é preciso altas doses de egoísmo e essa gente do céu não dispõe do aparato.

O que me leva a crer em outra razão para Jesus, com toda aquela fleuma, nos outorgar aquela tarefa toda especial de andar por aí fazendo discípulos, ensinando-os nas mesmas coisas que ele nos tem ensinado, até que venha nos resgatar do grande seqüestro universal. Penso que os motivos do filho do Homem eram opostamente altruístas, com objetivos todos em nosso favor. Ele nos deu um outro plano de vida, ao invés de vivermos para nosso favor, distanciando-nos de alcançar algo proveitoso em seu seio, ele nos enviou a viver em favor dos outros, aproximando-nos de alcançar seu favor irrestrito e imerecido.

Sei o quanto deve ser difícil para a maioria das pessoas imaginar que Jesus jamais desejou construir igrejas, ou a tal igreja universal. A construção de uma igreja de pedras vivas é o cerne do Novo Testamento. Infelizmente, esse ensino dificilmente chegará aos nossos filhos, a menos que o céus enviem algum reforço extra aos seus combalidos exércitos em guerra aqui na terra. Mas a missão jamais foi dada em termos do cumprimento de alguma vontade egocêntrica de Deus, coisa comum aos nossos presidentes, professores psicólogos, pais e pastores caudilhistas.

Jesus só pensou em uma forma de abençoar seus irmãos queridos. Ensinar as pessoas no caminho em que se deve andar é uma tarefa auto-construtiva. A gente se alimenta enquanto dá de comer aos famintos. Essa é a essência da missão concedida pelo Mestre. Creio que saberemos se a cumprirmos, não apenas quando tudo terminar, mas a cada instante de intensa troca de favores com nossos discípulos, adrenalina e endorfina a mil. Nesse caso, não se trata do que faremos para eles, mas do que faremos a nós mesmos, enquanto fazemos algo ao próximo.

Agradeço a todos que participaram de qualquer forma de meu viver, do cumprimento de minha missão e dos meus melhores e piores momentos, até aqui e aproveito para já agradecer a todos os que ainda virão a participar, nos próximos anos, do resto de minha vida ou da minha grande missão, também.

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