A Gruta do Lou

A eternidade, o paralítico e o tempo

Gandalf
Gandalf


 

“…Diz Plotino com notório fervor: «Toda a coisa no céu inteligível também é céu, e aí a terra é céu, como também o são os animais, as plantas, os homens e o mar. Cada um revê-se nos outros. Não há nada nesse reino que não seja diáfano. Nada é impenetrável, nada é opaco e a luz encontra a luz. Todos estão em toda a parte, e tudo é tudo. Cada coisa é todas as coisas. O Sol é todas as estrelas, e cada estrela é todas as estrelas e o Sol. Ninguém anda ali como em terra estrangeira. …

…Os manuais de teologia não se detêm com dedicação especial na eternidade. Reduzem-se a prevenir que é a intuição contemporânea e total de todas as fracções do tempo, e a fatigar as Escrituras hebraicas depois de fraudulentas confirmações, onde parece que o Espírito Santo diz muito mal o que diz bem o comentador. Costumam agitar com esse propósito esta declaração de ilustre desdém ou de mera longevidade: «Um dia perante o Senhor é como mil anos, e mil anos são como um dia», ou as grandes palavras que ouviu Moisés e que são o nome de Deus: «Sou Aquele que Sou», ou as que ouviu São João, o Teólogo, em Patmos, antes e depois do mar de cristal e da besta de cor escarlate e das aves que comem carne de capitães: «Eu sou o A e o Z, o princípio e o fim[4].» Costumam copiar também esta definição de Boécio (concebida no cárcere, porventura em vésperas de morrer pela espada): «Aeternitas est interminabilis vitae tota et perfecta possessio», e que me agrada mais na quase voluptuosa repetição de Hans Lassen Martensen: «Aeternitas est merum hodie, est immediata et lucida fruitio rerum infinitarum.» Em contrapartida, parecem desprezar o obscuro juramento do anjo que estava de pé sobre o mar e sobre a terra (Apocalipse, 10: 6): «e jurou por Aquele que viverá para sempre, que criou o céu e as coisas que nele estão, e a terra e as coisas que nela estão, e o mar e as coisas que nele estão, que o tempo deixará de ser». É verdade que o tempo neste versículo deve equivaler a «demora»”…

Jorge Luís Borges em História da Eternidade

Admirava as estrelas em noite quase única, daquelas em que se vê milhares delas, quando ocorreu-me algo interessante: Se houver alguém em outro planeta admirando o céu como faço nesse instante, verá a Terra, tudo que nela está e eu incluso como parte do céu. Sendo assim, afirmar que estou no céu seria correto. Não consigo ver-me no céu porque nele estou, como não consigo ver a mim mesmo sem a ajuda de um espelho. Nem por isso deixo de ser ou de estar.

Tenho enorme dificuldade em captar o presente. Tendo a concordar com os filósofos indianos em sua tese de que o presente não existe. Só há passado e futuro e isso corresponderia à eternidade.

Entendo aquele paralítico e sua reclamação a Jesus dando conta de que desde o momento em que a água começava a mover-se até a sua imersão, ela não se movia mais. As oportunidades são fugazes meu filho, diria a ele, ou o presente não existe, pelo menos para você.

Nesse sentido, tenho sido um paralítico, pois desde quando surgiam as oportunidades, até conseguir me aproximar delas, já era tarde demais. Isso quando pude percebê-las, outras, só dei-me conta quando nem havia mais sanidade em tentar aproveitá-las.

Sou agora um discutível passado com um futuro incerto, provavelmente curto e continuo não conseguindo captar o presente. Mesmo porque, não me parece verossímil consegui-lo. Estou na eternidade e só há uma opção: o futuro, o único tempo que posso modificar.

Talvez tenha escrito muitas vezes por aí que só havia o presente, mas não creio mais nisso e agora penso bem ao contrário. Estou na eternidade e não consigo me ver nela por inteiro. Não capto o presente e o passado está na memória, mas não sou capaz de modificá-lo. Deus deve ter tido boas razões para não habilitar essas funcionalidades, em mim.

Bom, o que não tem remédio, remediado está, diria a minha avó. Havia comprado quatro pedaços de bilhete da Loteria Federal cujo o número continha o meu ano de nascimento. O número sorteado não poderia estar mais distante do meu. Sendo assim, resta-me fazer o meu futuro. Esperar por oportunidades nessa altura soa tão débil quanto imaginar aquele paralítico conseguindo seu milagre via poço dos milagres. Sou, agora, um paralítico do tempo. Minha imagem é a de um homem no último terço da vida e gente assim não é bem vista pelos que ainda estão nos terços anteriores. Essa imagem é verdadeira, em certo sentido, talvez quanto ao corpo e ao funcionamento da memória, mas faço parte da eternidade tanto quanto qualquer um, e aí, todos são iguais.

O mais interessante é imaginar que o tempo com o qual Deus lida é apenas um: a eternidade, pelo menos, é isso que minha intuição teológica me diz.



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