A Gruta do Lou

A Dama da Noite

093011_1909_ADamadaNoit1Na última semana, tenho me preocupado com algumas manifestações de um amigo cujo pai faleceu no ano passado. Com o primeiro aniversário da morte, pressionado pela saudade e a ausência definitiva de alguém muito querido, ele tem discutido alguns pontos e temas como a Cura Divina, a onipresença divina e a própria questão da morte, geralmente, de forma contestatória, tendendo ao dogmatismo e, certamente, manifestando um estado de vitima das famosas e tão reais falsas crenças existentes.

Nesses casos, é muito comum a pessoa entrar pelo atalho da resposta mais fácil. Pessoas vitimadas por doenças terminais tendem a buscar em Deus a culpa e razão por suas misérias mortais. Esquecem detalhes como os transgênicos, flúor na água, poluição, estresse, raios ultra violeta, hpv, motocicletas, políticos, etc., todos reconhecidamente causadores de doenças letais, sobretudo das várias formas de câncer. Como meu amigo, questionam a razão de Deus não lhes ter contemplado com a velha e discutível Cura Divina, por exemplo, ou um bom e sempre bem vindo ressuscitamento no estilo Talita Cumi ou Lázaro. A meu ver, o pior é assistir um bom amigo tornar-se adepto de um desses malucos apologistas de um Deus que não intervém em um mundo a deriva e ao sabor dos ventos que sopram desde o inferno.

Nos tempos de seminário (Faculdade Teológica Batista) participei de um seminário sobre a morte. A proposta (Ministério e Morte) elaborada por nosso professor Silas Coutinho era preparar-nos para enfrentar a morte em nossos ministérios. Pouca coisa me foi mais proveitosa do que esse seminário naquele lugar exótico. Descobri, só para citar algo relevante dentre tantas relevâncias, que a morte é uma decisão como qualquer outra em nossas vidas. Até alguém que morre precocemente vitima de um acidente o faz por decisão próxima, pois, mesmo que secretamente, algum dia essa pessoa decidiu que se algo acontecesse que deixasse seu corpo imprestável, seria preferível morrer. Inúmeros são os casos das pessoas que precisam soltar-se da vida quando estão em idade avançada e o tempo de morrer já passou há tempos. Faz parte do trabalho pastoral, muitas vezes, avisar o velhinho (a) que chegou a hora. Tomada a decisão a morte faz sua parte, rapidinho.


Pratiquei Arte Marcial até que, um dia, cansado de tanta concentração, respiração, relaxamento, etc., perguntei ao mestre: Afinal, quando serei um mestre? Ele respondeu sem hesitar: Quando você vencer o medo da morte. (Confuzio)

Creio ser muito importante lembrar que a morte deve ser um ritual de passagem, talvez o mais importante nesse nosso plano atual, que as pessoas, em situação normal, precisam encarar. Descobri com um irmão que não só cria, mas era um inacreditável curador de enfermidades via oração de cura, a resposta para as curas que não se processavam. Disse-me ele: As pessoas não são curadas diante da morte quando já se decidiram a participar do ritual de passagem, desse para o outro plano. Curas de doenças ou mutilações que não envolvem morte são muito mais fáceis de ver. A não ser quando a vitima não crê na possibilidade, de jeito nenhum. O segredo, segundo meu amigo, é: “a cura se dá pela fé deles e não só pela minha, alias a minha é de pouca ajuda, nesses casos“.

Outra informação importante obtida com meu amigo curandeiro de uma figa é que os bebezinhos que deixam a vida precocemente, se vivessem, também optariam pela morte em caso de não poderem mais contar com um corpo minimamente funcionante. Então, segundo ele, essas decisões não são pontuais, mas lineares. Durante muito tempo tive dificuldade em aceitar isso, até o dia em que minha esposa perdeu um bebe por aborto espontâneo e o medico que fez a curetagem me disse: “Não devemos lutar contra a natureza, esse bebe sabia o que era melhor para ele”

A morte faz parte da vida, você já ouviu isso e, certamente, acha tão paradoxal quanto eu. O problema que isso está absolutamente certo e não há nenhuma certeza mais contundente do que essa para todos nós. Divirto-me com as profecias de ano novo, todos os anos, onde os profetas de plantão preveem a morte de todos os velhinhos e moribundos mais famosos. Por exemplo, eu previ que a Amy Winehouse estava à beira da morte, quando ela esteve no Brasil, cambaleante. Tendo tido a oportunidade de trabalhar com dependentes químicos, infelizmente testemunhei vários casos parecidos com o dela, embora sem o componente da fama. Mas, certamente, ela fez a opção pela morte. Provavelmente por não ter vislumbrado nenhuma outra perspectiva melhor. O importante é que a minha previsão não originou-se de nenhum dom ou talento, mas da experiência, somente. A morte não deveria ser vista como algo sobrenatural, mas natural. Aliás, algumas culturas incluem esse dado, não as cristãs, obvio.

A flor conhecida como a dama da noite, ao contrário das demais, exala seu agradável perfume durante a noite e é conhecida como a flor da morte. As pessoas mais ignorantes acreditam que quando sentem o odor da Dama da Noite alguém não acordará para a vida no dia seguinte. A meu ver, há milhares de outras damas da noite anunciando a morte por aí, não a de um desconhecido, mas as próprias. Gente que não encontra mais nenhuma razão legal de viver e resolve antecipar o rito da morte. Muito cuidado com os niilistas, os deprimidos e os desanimados, eles podem ter decidido não acordar amanhã. Depois ainda tem gente que desconfia que Deus não seja democrático…

Não é fácil, mas meu amigo precisa aceitar a decisão tomada por seu pai, talvez a mais difícil da vida dele.

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5 thoughts on “A Dama da Noite

  1. Acho muito importante nós, cristãos, conversarmos e refletirmos sobre a morte, e sobre nossa esperança. A gente age como se a morte fosse a pior coisa que pudesse nos acontecer! Até parece que não temos promessas de Deus e certezas quanto ao nosso destino e a (ir)relevância das coisas presentes.
    Geralmente ficamos com um pouco mais de vontade de falar sobre isso quando acabamos de perder alguém querido, mas já conheci gente que ficava com a consciência pesada por querer pensar sobre como é/será o Céu!
    De qualquer forma, achei interessante o seu texto, Lou.
    Ah! E esta semana orei por você(s)!
    Abraço,
    Kathleen
    NB: Acho importante conversar sobre a morte com a pessoa que está em fase terminal, também. Nem sempre a boa e perfeita vontade de Deus é a cura física que pedimos.

    1. Kathleen
      De vez em quando trago o assunto para a pauta, mas é como você diz, interessa mais quando a morte passa por perto. Tenho visto muitas pessoas com grande dificuldade em encarar alguma situação de morte e, na maioria das vezes, devido às falsas crenças e/ou falta de melhores informações ou abertura para falar do tema. O assunto é abrangente, polêmico e não há qualquer pretensão de esgotá-lo em um simples post. Só levantar a bola e ver se o pessoal entra na roda.
      Fizestes bem em orar por mim, pois a semana não foi fácil. Resolvemos um problema daqueles, se não foi de forma definitiva, pelos menos acomodamos bem as coisas. Agora vem uma fase intensiva do tratamento do Thomas com cateterismo, possível cirurgia e outras cositas. Só estamos aguardando nova convocação do Hospital. Na anterior, ele estava com uma infecção e não pôde ir. Agora já está ok.
      Muito obrigado e um abraço
      Lou

    2. Kathleen

      Tive oportunidade de aconselhar algumas pessoas que estavam com algum ente querido em fase terminal, inclusive em coma. Na maioria das vezes, o medo maior era a pessoa morrer sem ter aceitado Jesus como salvador. Meu conselho era que elas orassem e pedissem a Deus cinco minutos de conversa com a pessoa antes dela partir. Em todos os casos, isso aconteceu, as pessoas aceitaram Jesus, oraram e depois partiram com o salvador. Pessoas que estavam em coma, também, tiveram cinco minutos para essa conversa. O mais importante, a meu ver, é que as pessoas partiram em paz e pacificaram o coração dos que ficaram. Se não me engano.

  2. Passei o fim de semana na casa do meu irmão, um sítio numa cidadezinha rural. Naquela semana um cachorro lazarento tinha devorado todas as 6 ovelhas do sítio. No mês anterior, os porquinhos da índia tinham morrido, talvez picados por cobra ou aranha. No início do ano, morreu a égua. Sei que são bichos, mas esse tipo de vida rural deixa as pessoas muito mais preparadas pra morte do que nos centros urbanos, acho eu. Antigamente, quando o mundo era rural, a morte fazia parte da vida de verdade, o tempo todo. Hoje, é uma excessão pouco tolerada.

    1. Tuco
      Você está certíssimo. Fico abilolado com a perspectiva de vida das pessoas que nunca incluem a morte. Outro dia, disse a alguém que não faria alguma coisa porque não viveria o suficiente para fazê-lo e o cara gastou um monte de tempo que já não disponho para tentar me convencer que eu não deveria pensar assim. Tive que interrompe-lo antes que ele acabasse com o resto de bateria que ainda me resta. A gente vai mesmo, podemos ficar tranquilinhos com relação a esse ponto.

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