A Gruta do Lou

A Confissão de Culpa da Igreja

A confissão da igreja
A confissão da igreja


A Igreja confessa não ter transmitido com bastante sinceridade e clareza seu testemunho do Deus Uno, que em Jesus Cristo se revelou para todos os tempos e que não tolera outros deuses ao seu lado.

Reconhece seu temor, seu desvio, suas perigosas concessões

. No mínimo, renegou sua missão de guardiã e consoladora. Com isso recusou com frequência aos expulsos e depreciados da misericórdia devida. Ficou muda onde deveria ter gritado quando o sangue dos inocentes estava clamando ao céu. Não proferiu a palavra devida da maneira devida e no devido tempo. A apostasia não resistiu à morte e causou a impiedade das massas.

A Igreja confessa ter profanado o nome de Jesus Cristo ao envergonhar-se dele diante do mundo e não haver oposto maior resistência ao abuso deste nome empregado para fins malignos. A Igreja tem assistido placidamente ao fato de sob o nome de Cristo produzirem-se violências e injustiças. Tampouco se opôs ao escárnio do qual foi objeto o nome santíssimo, ajudando assim a encobri-lo. Reconhece que Deus não deixará sem castigo a quem abuse de seu nome como tem ela tem feito. A Igreja se reconhece culpável pela perda das festas dos dias santos; da falta de assistência aos seus serviços religiosos; do desprezo ao descanso dominical. Assume a culpa do desassossego e da perturbação, mas também da exploração do potencial de trabalho muito além da jornada normal de trabalho, porque seu testemunho de Jesus Cristo era débil, com também seu culto rendido a Deus.

A Igreja se confessa culpada pela derrubada da autoridade paterna. A Igreja não foi capaz de opor-se ao desprezo pela velhice e ao endeusamento da juventude, com medo de perder a juventude e com ela o futuro. Como se seu futuro fosse a juventude. Não sabe como testemunhar a dignidade divina dos pais contra uma juventude revolucionária e se contentou com a tentativa muito terrena de “marchar com a juventude”. Desse modo se fez culpável da destruição de incontáveis famílias, da traição dos filhos cometida contra seus pais; da auto-idolatria cometida pela juventude e com ela de sua rejeição a Cristo.

A Igreja confessa haver assistido o emprego arbitrário da força bruta ao sofrimento do corporal e psíquico de inúmeros inocentes, à opressão, ao ódio e ao assassinato, sem levantar sua voz em favor dos sofredores, sem haver providenciado caminhos para acudir em sua ajuda. Fez-se culpada pelo dano causado à vida dos irmãos mais débeis e indefesos de Jesus Cristo.

A Igreja confessa não haver encontrado palavra alguma capaz de ensinar o caminho e servir de ajuda ante a dissolução de toda ordem à mutua relação dos sexos. Não soube opor nada válido, nada forte, ao desprezo pela castidade. Nem à proclamação da promiscuidade sexual. Não passou de uma tímida indignação ocasional. Com isso se fez culpada do empobrecimento da saúde da juventude. Não tem sabido proclamar com força suficiente a pertinência do nosso corpo com o corpo de Jesus Cristo.

A Igreja confessa haver contemplado, muda, a privação e exploração infligida aos pobres e o enriquecimento e a corrupção do forte.

A Igreja confessa ser culpada diante dos inúmeros seres cuja vida foi aniquilada devido à calúnia, aos denunciantes e à infâmia. Não culpou o caluniador e dessa forma abandonou o caluniado ao seu destino.

A Igreja confessa ter cobiçado a segurança, a tranquilidade, a paz, a propriedade, a honra, aos quais não teria direito e, dessa maneira, não freou, se não, favoreceu a cobiça dos homens.

A Igreja confessa ter pecado contra os Dez Mandamentos, com isso confessa ter renegado a Cristo. Não testemunhou a verdade de Deus, de tal forma, toda a busca da verdade, toda ciência, reconhecem ter sua origem nesta verdade; não proclamou a justiça de Deus de tal maneira a permitir ver nela todo direito verdadeiro e seja possível ver nela a fonte de sua própria essência; não soube fazer a providência de Deus tão digna de fé a fim de toda a ação humana houvesse aceitado suas tarefas partindo dela. Devido ao seu próprio emudecimento, a Igreja se fez culpada da perda da ação responsável, da falta de valentia necessária para ser solidário e disposto para ajudar, para sofrer por aquilo reconhecidamente verdadeiro. Fez-se culpada por toda a autoridade ter renegado a Cristo.

São exageradas as nossas afirmações? É possível a alguns justos se levantarem afirmando não ser culpa da Igreja, mas dos outros. É provável a alguns homens da Igreja rechaçarem tudo isto como um tosco insulto e ponderem distribuindo a medida de culpa aqui e acolá, com a pretensão de serem juízes eleitos para sentenciar o mundo. Por acaso a Igreja não estava impedida e atada em todos os sentidos? Por acaso todo o poder do mundo não estava contra ela? Por acaso a Igreja deveria arriscar os últimos: seus cultos, sua vida comunitária, empreendendo luta contra as forças anticristãs? Assim fala a incredulidade, quem na confissão da culpa não vê a recuperação da imagem de Jesus Cristo que tira todo o pecado do mundo, se não somente uma degradação moral perigosa. Porque a livre confissão de culpa não é nada a fazer-se ou deixar de fazer, se não for a irrupção da imagem de Jesus Cristo na Igreja, irrupção cuja a Igreja sofre; ou bem, se não a sofre, deixa de ser Igreja de Cristo.

O cristão ao malograr a confissão de culpa da Igreja ou a falsificá-la, se faz culpado – sem esperança – ante Cristo. Ao confessar sua culpa, a Igreja não exonera o homem de sua própria confissão de culpa, mas o chama a integrar a comunidade da confissão de culpa.

Somente julgada por Cristo, a humanidade apóstata pode ser absolvida por ele. Sob esse juízo, a igreja chama a todos aqueles que lhe é dada alcançar.

Dietrich Bonhoeffer

Do Livro “Ich habe dieses Volk geliebt”

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