A Gruta do Lou

A Casa de Deus


Miles Davis

“Os padres do deserto nos ensinam uma espiritualidade a partir da base. Eles nos mostram que devemos principiar em nós e em nossas paixões. Para os padres do deserto, o caminho para Deus sempre conduz ao autoconhecimento. Se queres conhecer a Deus, aprende primeiramente a conhecer a ti mesmo.”

Anselm Grun – O Céu começa em você – Ed. Vozes – 1999

O livro do monge Anselm Grun nos dá uma pista importante para encontrarmos e seguirmos por nossa senda espiritual. Vivemos em dias onde a espiritualidade deu lugar às finanças, pessoais e da igreja, e a busca pelo conhecimento de Deus e de nós mesmos foi substituída pela realização material. A tal ponto que, trocamos encontrar a Deus pela complementação de nossos sonhos de consumo nesse mundo tenebroso.

Pessoalmente, não sou a pessoa ideal para tratar desse tema. Não achei a Deus e não me realizei segundo as exigências desse tempo. Muito menos, cheguei a descortinar o mistério que atende pelo meu nome. Sei o quanto isso importa a você e aos outros, ou em uma palavra, nada. Os escritores de blogs deveriam perceber, minimamente, o quanto se tornam chatos quando começam as suas frases com o pronome eu. Não sou diferente. Quando começo a ler meus textos com essa peculiaridade egocêntrica, trato de abandonar a leitura e buscar algo melhor para fazer. Twittar é muito mais relevante do que ler as bobagens narcisistas espalhadas blogs a fora, com a vantagem de estar mais alinhado com os estereótipos da hora.

Em alguns momentos da minha história, cheguei a pensar ou acreditar ser um conhecedor de Deus. Sabia onde ele morava e tinha intimidade. Entrava na casa dele, abria a geladeira, me servia a vontade e comia sentado no sofá da sala com os pés sobre a mesa de centro. Quando precisava de qualquer coisa, bastava estalar os dedos em uma oração medíocre qualquer e lá vinha um anjo vestido de mordomo com a resposta numa bandeja. Mas essa proximidade passou longe de ser a regra. Logo as preocupações desta vida e o engano das riquezas a sufocaram.

Não tenho, a rigor, nada contra ser próspero. Parece-me bastante natural ver um individuo competente ser bem sucedido. Se bem que, no meu caso, competência, embora fundamental, não se mostrou como elemento único nas bases da minha caminhada rumo ao sucesso. Fatores alheios à minha vontade decidiram mais e impediram-me de obter o tão almejado alvo da prosperidade. Mas ainda guardo comigo o sentimento de que não precisaria ser dono do mundo para satisfazer meu apetite consumista. Também não desejo ser adepto de nenhum evangelho maltrapilho. Nada contra o livro do Manning que é muito bom e fala de outra coisa. Nesse caso, optaria pelo evangelho segundo Calvino e trataria de ter minha casa própria, meu carro do ano, um closet cheio de Armani e Boss, camisas La Coste e sapatos de puro cromo alemão, importados de Franca. Sem falar em uma verdadeira conta bancária, igual a do pastor Tadeu, de onde os cheques nunca retornam sem fundos.

Interessante notar a assertividade desses monges. Quanto mais me sinto longe de Deus, mais distante me sinto de mim mesmo. Ao olhar no espelho, assustado, pergunto: Quem é esse cara? Detesto preencher o cadastro para esses insistentes sites de redes sociais porque eles pedem para eu descrever a mim mesmo. Quem sou? Se soubesse a resposta não estaria preenchendo essa porcaria, seu idiota. No fundo espero que alguém me diga ou Deus mande alguém revelar o mistério que sou.

Se o pai de Jesus escolheu a mim para fazer aqui sua morada, perdeu todo o meu respeito. Afinal, se assim fosse, haveria muitas outras opções bem melhores que essa. Na verdade, nem eu estou gostando de morar em mim mesmo. Tudo bem que não sou nenhum galã, algum gênio da informática, pastor ou economista. Nem psicólogo consegui ser, ou seja, fiquei abaixo da linha da miséria intelectual. Mas não precisava ser tão azarado ou em palavras menos supersticiosas, tão desprovido de sorte. Então, não acredito que Deus sendo tão sábio quanto imaginamos, escolhesse um vaso tão chinfrim para morar. Até ele que é menos bobo, deveria preferir andar ao lado dos bem sucedidos homens e mulheres do Twitter. E aí? Trocou seu Iphone? Ainda não, estou esperando a Apple lançar o modelo novo. Estou ouvindo o Miles Davis agora, depois eu volto.

Pior é que sem saber onde ele mora e quem ele é, fico sem saber quem sou, igualmente. Aliás, não sei direito onde moro. Hoje estou aqui, mas nem Deus sabe até quando ou para onde irei. Mas se sou a verdadeira Casa de Deus, preciso arrumar um monte de coisas quebradas para torná-la digna dele. Até que a idéia não má, pensando bem. Já pensou? Na próxima vez que perguntarem quem sou, direi: Sou a Casa de Deus.

3 thoughts on “A Casa de Deus

  1. Casa de Deus é mais ou menos o significado do meu nome em hebraico. Não tem me ajudado muito. Talvez seja uma casa alugada, eu acho, ou uma daquelas casinhas dos sistemas pobrinhos de habitação. Durante muito tempo, aceitei dos pastores que a culpa era minha: o que fizeste do talento que lhe foi dado? Talvez eles estivessem até certos,não sei. Mas vejo que o meu maior talento é para perder as poucas coisas que tenho. Administradora infiel, talvez, claro, nem meu diploma de administração escaparia da minha derrocada.

    Pois é, se esses caras que andam por aí são Casa de Deus, por que nós que somos muito melhores (quando o quanto pior é melhor) não seriamos também?

  2. Dos cositas:
    Acho que nem Calvino seguiu o que dizem ser “o evangelho segundo Calvino”;
    Não sou Casa de Deus, imagine! Com muito esforço e generosidade da pra me imaginar como gruta de Deus…

    Cuidado meu! Os calvinistas vêm aí.

  3. Lou, até quando ouviremos essa teologia platonica no meio de nós?
    Me dirigia do trabalho para casa no último final de semana quando vi um daqueles carros cheio de adesivos cristãos no parachoque. Um deles estava escrito: Sou casa de Deus morada do Pai.
    Até que funcionou, pois me chamou atenção para ler o adesivo, mas o que realmente me chamou a atenção foi a imundice do veículo.
    Se o carro do cabra estava imundo daquele jeito imagina a casa?
    Agora, diz ainda ele que é morada do Pai,pode uma coisa dessas?
    P.S: Não estou querendo julgar ninguém,meu carro está sujo também(não só o carro). Só que não tem nenhum adesivo.

    Minha experiência com isso é a seguinte. Todo mundo na nossa Igreja (século passado) usava um adesivo com o logo dela. Eu não. Um dia me perguntaram por que. Envergonhado, mas resoluto, respondi: Não faço propaganda de graça. Se Deus quiser propaganda em meu carro, sujo ou limpo terá que pagar, contrato assinado e dinheiro adiantado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *