A Bondade de Deus

“Deus chora a morte de cada um de seus filhos”.

 Sl 116:15

Leio em vários blogs e em outros meios a insistente afirmação de que Deus é bom. Parece haver uma necessidade premente em lembrar o fato. E não é de hoje. Em nossos dias, cada vez mais, a pergunta que não quer calar se faz presente: Se Deus é bom, por que tanta desgraça? Por que Deus não houve minhas orações e me livra das minhas perseguições?

Anos atrás, a Revista Ultimato (aquela que parece o império romano com César para todo lado) trouxe, em um de seus números, uma série de entrevistas com alguns pastores e líderes evangélicos conhecidos que haviam perdido seus filhos tragicamente. Procurei o exemplar entre meus guardados, mas não o tenho mais. O que mais me chamou a atenção nas declarações foi a dúvida de todos os entrevistados em relação a como seguir em frente com a pregação que inclui um Deus bom, depois de tamanha sacanagem.

Lembro-me do pastor Rudemar. Conheci-o e a esposa ainda solteiros, quando eram membros da mesma Igreja Batista da Esther, nossa secretária na Missão (estou proibido de citar o nome pelo infeliz que a dirige atualmente) que Deus levou através de um câncer severo. O tempo passou e o casal teve um filho. Ainda tenro, descobriram ser o menino, portador de leucemia. Nada foi eficaz e aos cinco anos, Deus teria aprontado mais uma das suas e privado o casal de pastores cristãos do filhinho amado.

Passado algum tempo, encontrei o Rudemar na Igreja Projeto Raízes, pastoreando junto com outros irmãos conhecidos. Aproveitei para lhe presentear com um exemplar livro “Quando coisas ruins acontecem a pessoas boas” do rabino Harold Kushner.

Depois disso, fiquei sabendo de muitas outras desgraças envolvendo cristãos dedicados. Mortes em todos os graus de perversidade possíveis, acidentes gravíssimos, filhos com problemas congênitos com gravidade de zero a cem, perdas insustentáveis, estupros, assaltos, falências, desemprego, desamores, divórcios, despejos, etc. etc. etc. E esses fatos continuam acontecendo até hoje e suponho que continuarão no futuro.

E Deus parece não se importar. Quem quer um Deus que não seja bom? Deus que é deus tem que ser bom. Precisa fazer milagres todos os dias. Livrar criancinhas da morte, curar enfermos graves, depositar dinheiro nas nossas contas vazias e arranjar-nos empregos, preferencialmente daqueles onde se ganha muito e se trabalha pouco ou fazer nossa empresa prosperar, de olhos bem fechados para as nossas práticas ilícitas, afinal para vencer nesse mundo é preciso dançar conforme a música.

Durante muito tempo, após o nascimento do nosso filho* cardiopata congênito, adotei o estilo: “Apesar disso, Deus é bom”. Minha pregação esvaziou-se. As pessoas não acreditavam em mim e, pior, demonstravam pena. Aos poucos fui abandonando a prédica até rejeitá-la, completamente.

Depois de sofrer um tempão, e sem encontrar resposta satisfatória para a pergunta, acabei batendo de frente com um pensamento simples: o mal é humano. Para nós, bondade inclui todo tipo de paternalismo divino. Julgamos o que é bom e o que não é segundo nossa justiça parca. Desconfio que essa prática nos impeça de reconhecer alguma bondade divina que possa haver nesse mundo material.

Ainda não havia lido o citado livro “O Jesus que eu nunca conheci” do Yancey. Comprei o livro em São Paulo, lá na rua Conde de Sarzedas (o maior shopping evangélico do mundo), pela metade do preço e enfiei na mochila.

À noite, depois de me acomodar na poltrona 37 do ônibus Cometa com destino a Sorocaba, saquei o livro, acendi as duas luzes acima e abri-o. A primeira coisa que li foi: “Tradução de Yolanda Krievin”. Quase desmaiei. Ela trabalhou na Missão na mesma época que eu.

Certa vez, trouxemos ao Brasil um pastor nascido na Alemanha Oriental e que viveu os horrores da Cortina de Ferro, cujo nome era Gerard Ham. Levei-o à muitas igrejas para pregar e dar seu testemunho funesto.

Uma tarde reuni os funcionários da Missão para ouvirem uma palavra do pastor alemão (sic). Dona Yolanda estava entre os tais. Veio para a sala de conferências (a garagem) com um pacote na mão. Após o ato espiritual, ela pediu licença e entregou ao pastor Gerard o pacote. Dentro havia duas camisas novas e escolhidas com muito carinho. Dona Yolanda percebera que a camisa usada pelo pastor, desde sua chegada, tinha o colarinho puído. Só ela viu isso. Que vergonha.

Li lá na Bacia das Almas, outro dia, o Paulo Brabo citando vários atos de bondade divina difíceis de serem reconhecidos pelos olhos mais exigentes. Ontem dei um viva ao maniqueísmo. Fiquei muito impressionado, muitos anos atrás, ao descobrir a luta de Agostinho no século quarto contra esse fenômeno.

O que se supõe é que se há “a bondade de Deus”, então, ele deve combater o mal e mostrar seu poder em desfazê-lo. O problema é que Ele tem tudo a ver com o bem e nada a ver com o mal. A não ser, sua mais completa discordância. No mal, na desventura, na desgraça, na desesperança ele se achega, nos abraça e chora conosco.

Quando o Thomas estava na UTI, após a segunda cirurgia, do lado de fora havia dois jovens, um rapaz e uma moça, filhos de um homem de cinquenta anos que havia sido operado de um aneurisma na aorta. A situação era de alto risco e eles estavam sofrendo. Comecei a conversar com eles. Senti que estavam preocupados comigo e com meu sofrimento. De repente, nos abraçamos, os três, fortemente e choramos.

Deus chora a morte de cada um de seus filhos.

*nosso filho: Thomas nos deixou em 20/04/2013, contra a vontade dele e de todos nós.

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