A Gruta do Lou

A arte de recuperar: internação.

Em tempos neoliberais tudo vira mercado, igreja, saúde, educação e até recuperação de dependentes químicos. Toda terça-feira à noite tem reunião do GRAPA na igreja do Pr. Eliseu, perto de casa, para um sem igreja como eu, essa acaba sendo a minha última referência eclesiástica, e não se dê ao trabalho de pesquisar porque nenhuma igreja poderia destoar tanto de minhas convicções teológicas quanto essa. Mas isso não importa a mínima, não tenho qualquer participação como membro ou como pastor, muito menos. Além do GRAPA, às vezes dou uma de C. S. Lewis e participo discretamente do culto de ceia, de preferência, atrás de alguma coluna ou escondido na sala de som e imagem (é, até eles têm uma). Eles mantêm uma fundação (ou a fundação mantém a igreja?) e foi através dela que encaminhamos um pedido de verba para sustentar o Projeto Coração Valente em 2011.

Na última reunião do GRAPA, fiz uma palestra aos participantes, geralmente um grupo de vinte a trinta pessoas, e falei-lhes um pouco do tratamento aos dependentes químicos e de amor exigente. Antes que me esqueça, o GRAPA é uma espécie de grupo de auto-ajuda aos chamados co-dependentes, geralmente formado por: pais, esposos, filhos e amigos dos dependentes. Quase sempre, esse grupo de pessoas, no intuito de ajudar a tirar seus queridos das drogas e/ou álcool, acaba empurrando-os mais para dentro ainda. Alias, aqui vai uma dica grátis, se desejar ajudar um dependente químico, procure ajuda competente e não faça nada antes disso. O GRAPA é grátis e aberto a qualquer um que deseje participar. A fundação mantém uma comunidade de recuperação em uma das cidades vizinhas, geralmente o lugar onde são internados os dependentes dos participantes desse grupo, e há um custo nesse caso, mas acredito que deva ser a comunidade mais barata que já ouvi falar, não tem muitas vagas, e sempre está lotada.

O fato é que o tratamento dos dependentes químicos virou um grande negócio. As clínicas de “recuperação” se multiplicam e costumam cobrar muito caro por seus serviços. Além das atividades ligadas à tal recuperação propriamente dita, ele prestam serviços de hotelaria, obrigatoriamente. Só não me pergunte de quantas estrelas é a classificação disso, se bobear, o mais provável é que seja um serviço de zero estrela. Mas há exceções. O problema é que quanto melhor a hotelaria, mais caro ficará uma internação. Provavelmente, a grande maioria dessas clínicas esteja mais interessada no lucro que essa atividade pode gerar, do que em recuperação das vítimas, propriamente ditas.

Particularmente, como tive o privilégio de dirigir uma dessas casas, durante um ano, percebi que o segredo desse “tratamento” era levar os participantes à entrar em abstinência e, para isso, bastava mantê-los longe de suas drogas de eleição, dar-lhes boa alimentação, descanso completo e, sobretudo, muito exercício, atividade para a qual sou altamente capacitado, em um lugar onde o essencial é haver muito verde, local para esportes e trabalho. Com os exercícios saem as toxinas, o corpo gera mais endorfina e a pessoa entra em abstinência, as outras atividades provêm as outras substâncias necessárias e de forma natural . Depois é só deixar a pessoa nessa rotina algum tempo para firmar o processo. Na verdade, esse tempo poderia ser variável, caso a caso, mas as clínicas costumam estabelecer um tempo igual para todos.  Me arvoro em afirmar que grande parte desse contingente poderia (ou deveria) viver o resto da vida assim, talvez devesse existir algum pecúlio com essa finalidade. Por que não? Certamente, se a pessoa voltar ao uso das substâncias intoxicantes, refazer o processo será obrigatório. Em alguns casos isso vira um círculo vicioso até a pessoa ir a óbito.

Os psiquiatras e psicólogos arrogaram para si o direito de tratar esses indivíduos e seus tratamentos incluem altas doses de medicamentos e terapias. Alguns pastores enchem os caras de bíblias e orações, mas o resultado disso costuma ser inócuo. Uma parte dos casos só iniciará tratamento depois de medicados e, devido a presença de outras patologias, muitos precisam de tratamento desses profissionais, entretanto não me convenci de que eles sejam essenciais no trabalho de recuperação dessa gente. Passamos muito bem sem eles, durante esse ano que lhes dediquei minha importante vida. Eram cinco refeições por dia, muito esporte, inclusive desses mais moderninhos (trilha, rapel, etc.), trabalho campesino, sono, conversa prazerosa, artes (música, pintura, escultura, poesia, etc.). Procurávamos evitar a televisão, mas não conseguimos zerar esse item. Minha frustração foi não ter conseguindo implementar, em nenhum dos casos, a internação de toda a família. Cheguei a hospedar uma na fazenda onde mantínhamos nosso serviço, mas não chegamos perto de transformar aquilo em uma família em recuperação. Pena.

Nada impede, e também não estou contra, que o ambiente de tratamento seja cristão, apenas não creio nisso como método de tratamento. Se a pessoa for uma endomoniada não precisará ser internada em um lugar desses, basta expulsar o capeta e boa, se você tiver esse talento.

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