D. Benedicta Santos

Às vezes, vivo como se fosse uma pessoa desconhecida além de poucos, além da família. Não sou esperto, empurro com a barriga e esses ditados negativos me enganam quase sempre. Então, quando chega a verdade, já era. Aí só remédio e sabe-se lá se dará certo.

Paguei um monte de “recolhimento de imposto” ao INSS (atualmente). Claro, na hora de pegar minha aposentadoria aos sessenta e cinco anos cheguei a chorar, sem deixar ninguém ver. Mas o funcionário, mais velho em relação a mim, conseguiu algo para não sair de mãos abanando, o tal do BPC, muito citado atualmente. Trata-se se uma esmola no valor de um salário mínimo (o Brasil tem um dos piores salários mínimos dentre os mais de 20 países da América do Sul e Central. Citar os menores valores para aposentados na América do Norte dá vontade de chorar muito mais forte.

Depois de minha chegada ao BPC parece ser proibido trabalhar, caso contrário, perde o BPC. Entretanto, nem precisaria esse regulamento, pois se for BPC ninguém irá lhe dar mais nada, além desse salário mínimo.

Não sei se você já se perguntou como vivi um, como dizemos= “idoso”. Nossa aposta são os idosos presos digo em lugares, geralmente chamados de “A Casa do Vovô” ou algo semelhante. Poucos anos atrás, ali por 2015, minha mãe estava muito ruim, aos 88 anos esquecia quase 100 % e não conseguia mais controla-la. Nesses casos, é dificílimo saber quando você é obrigado a entregar a bandeira branca de paz.

Uma moça conhecida em uma das escolas de teologia onde lecionei, e ela entrou no meu facebook e me deu um dos melhores presentes da minha vida, então levei minha mãe para uma casa mantida por igreja presbiteriana, no interior. O pastor diretor me ofereceu gratuitamente.

Duas semanas após da chegada de minha mãe já havia sido chamado lá por três vezes, primeiro um tombo, depois levar ao hospital para consertar o ombro dela e comprar uma tipoia; por fim (naqueles primeiros 15 dias) a esposa do pastor junto com a enfermeira chefe nos achacou sem vergonha.

Levar para casa não dava mais, então sugeri um, adivinha, um salário mínimo e bati o pé. Com as finanças ruins nessas casas (como faz falta um excelente, digo, o único e melhor profissional na área do desenvolvimento para organizações sem fins lucrativos) apostei nos meus três azes e ganhei.

Pera aí, ganhei a questão do pagamento para deixa-la mas arrumei muitos inimigos, inclusive a moça a qual me indicou. Choro muitas vezes quando faço minhas orações e peço a Deus para dar o melhor a essa pessoa e sua família, mas nunca mais me disse um olá.

Enfim o pastor Diretor da Casa para Idosos, igreja sei mais que, ele me ligou um sexta-feira a tarde e ne avisou o a morte de minha mãe. Foi levada para o hospital onde aguardaram minha chegada. Do hospital fui encaminhado para a casa funerária municipal, onde encontrei o pastor lá. Gente idosa é sempre pontual. Então ele passou o trabalho para mim e se despediu.

Ninguém apareceu para o enterro as 14:30 hs, só eu e advinha, sim, o pastor. Espero uma placa dele quando ele for. Interessante é o fato de minha mãe ser nascida naquela cidade onde viviam muitos familiares, mas ninguém apareceu. Você sabe, em cidade do interior, ir ao cemitério é um pulinho.

Ultimamente, eu sou a próxima vítima. Vira e mexe, alguém me ameaça uma moradia em uma dessas casas para “idosos” e eu dei essa chance à família.

Te cuida meu, não sabemos quando isso acontecerá e não pensa em coisa longa, de repente, na segunda próxima. Mas vou dar uma dica, embora eu mesmo ainda não coloquei andamento, ou seja, entregar o BPC. Mas tem um probleminha, como sempre, eles podem continuar com a gente, mas também podem esquecer você em alguma cidade ali no Amazonas ou até ali pelo Polo Norte.