A Gruta do Lou

Quantos paus são necessários para se fazer uma canoa?

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Potala – Lhasa – Tibet

Ouvi essa frase muitas vezes nos anos da burrentude. Talvez porque, imprudentemente, desafiasse os maiores frequentemente. Meu irmão é oito anos mais velho do que eu e isso faz diferença quando estamos na infância e adolescência. Aprendi a desafiá-lo e a vencê-lo em muitas de nossas batalhas. Com medo, ele me dizia essa frase, na fase das provocações. Isso me ajudou (ou não ) pelo resto da vida, pois nunca tive medo dos caras maiores e mais velhos. Sempre soube como derrotá-los, quanto era necessário.

José Mauro de Vasconcelos me lembra de outro uso a ser dado à pobre da canoa ao criar seu exótico personagem Zé Orocó e sua canoa, a quem nominou Rosinha. Ah, a Rosinha minha canoa! Enquanto comigo canoa era o inicio de uma boa briga, para esse barqueiro do Rio Araguaia, canoa era romance, ver a vida com olhos cheios de paixão.

Em Lhasa, no Tibet, aprendi (ou desaprendi) a valorizar as pessoas, ao invés do que elas representam ou possuem. A mim, pouco importa as designações que vêm antes dos nomes das pessoas. Entretanto, cada vez mais, essas coisas fazem diferença no mundo ocidental. Zé Orocó está muito mais para tibetano do que para um individuo ocidental que ele é, na verdade. Que besteira dar nome de gente a uma canoa e que maluquice falar com ela como se fosse gente. Ele devia ter comprado um título de coronel e chamar-se Cel. Zé Orocó e, jamais, se deixar ver falando com a canoa.

Meu último símbolo desse tipo foi uma leoa que dormia comigo quando era menino (calma, ela era de pelúcia), a quem nunca dei nome e com quem não conversava muito, também. Se fosse voltar a essa fase, acho que a chamaria de Charapovinha. Não sei por quê. Não confio muito nos Zé Orocós da vida. Verdade. Gente que fala com coisas, dá nome a canoas, carros e motos me parecem insanas. Acho que sempre tive gente de verdade para conversar. Minha mãe me fez um grande favor ao me abandonar com as nossas empregadas, dando preferência ao trabalho. Sempre tive uma empregada do meu lado para conversar e tratar dos meus sentimentos. Jamais trataria desse tipo de assunto com minha mãe, mas com elas eu falava das minhas dores e medos. Eram as minhas Rosinhas, mas eram feitas de carne e ossos.

Depois vieram as namoradas e finalmente a minha Rosinha mais importante e única que é a Dedé. Quando estou mais alerta, me esforço para comunicar minhas emoções a ela. Sinto medo de perder a casa, confesso. Meu coração se aperta quando olho e não vejo nossos filhos resolvidos, compartilho. Aquele maldito Zé Orocó sabia com quantos paus se faz uma canoa.

Talvez o blog seja uma Rosinha, para muitos. Mas acho muito mais fácil falar de meus sentimentos com gente que vejo e posso tocar. Deve ser assim com a maioria, penso. As pessoas parecem preferir usar o blog para despejar seus conhecimentos teológicos e filosóficos, com exceções. Tive alguns privilégios nos tempos de ginásio. Um deles foi ser iniciado em literatura brasileira e estrangeira. Apresentaram-me os gregos e os grandes nomes da filosofia. Claro que alguns me fascinaram e outros passei a repudiar. Fã de Sócrates e Kierkegaard passei para o lado deles e exclui Hegel e os românticos. Fiquei mais teológico e pronto para entrar para o mundo da teologia.

Isso não aconteceu de imediato. Mais de uma década depois, quando vieram até nós os BBBs. Não, não era os Big Brothers Brasil não, era o tempo de Barth, Berkouwer, Bonhoeffer e Bultiman, todos com sobrenomes começados com B. Para não ficar atrás deles, mudei meu nome de Lou Mello para Lou Bello. Como a fase passou, voltei para o nome original. Esses caras me abriram as portas da teologia.

Fiquei feliz por um bom tempo, mas um dia, maldito dia, percebi que isso era uma grande cilada de Hegel com sua turma de doidos e me vi um baita de um tolo romântico, pregando contra o materialismo dialético e louco para voltar a Lhasa e tomar chá de manteiga de leite de cabra, em companhia daquela gente cheirando a pelo de lhama.

Nosso mundo não é assim. Preciso comprar o livro do Ricardo Senler e reler a dupla Kloter e Drucker. Se o mal for mais grave, voltarei ao Adam Smith e A Riqueza das Nações. Preciso voltar a pagar as contas. O montante está insuportável. Para isso preciso me livrar do romantismo. Românticos não pagam contas e não se mantém casados. Vide essa gente maluca, feito o Fernando Pessoa e a Cecília Meireles. A Adélia Prado mente, pois escreve como uma romântica e vive com os pés bem no chão.

Preciso andar rápido porque não quero perder minha Rosinha e muito menos, descobrir com quantos paus se faz uma canoa.

lousign

13 thoughts on “Quantos paus são necessários para se fazer uma canoa?

  1. Lou, a Xuxa ficou salva aqui na tela, foi castigo pra eu ter usado o nome dela em vão.
    Eu sempre falei esse treco aí dos paus da canoa, até que o Sibelius me ensinou que era um pau só,pior que eu nunca tinha pensado nisso.
    Putz, nem que eu quisesse ter um blog filosófico eu não conseguiria, porque não consigo nem soletrar “kirkigar”.
    Legal você ter me lembrado do Zé Mauro de Vasconcelos, li uma pancada de livros dele, gostava muito, chorava… O Theodoro meu ex noivo me disse que ele vendeu um milhão de livros num tempo em que o brasil tinha 70 milhões de habitantes, incrível não? E que naquele tempo ele andava de jato particular.
    Mas desencana, que a sua Rosinha cê não perde não, e nada de ler esses livros chatos, vai que essa chatura acaba repercutindo aqui.

  2. Setenta milhões ou noventa? Além de ter dormido nas aulas de filosofia dormi nas de geografia também. O meu nome voltou, ufa!

  3. Bete

    Duas coisas: Primeiro, concordo com você no caso da minha Rosinha. Ela devia chamar-se Ruthinha porque é fiel até que a morte nos separe, se não for além. Segundo, já estou de olho no meu jato particular. 🙂

  4. Por mais estranho que pareça, o livro que mais gostei de ler na minha vida foi ‘Rosinha Minha Canoa’. É também o único livro que li 3 vezes. Pior que isso, tenho vontade de ler de novo. E ainda pior, chorei nas 3 vezes. Não sei o que um psicólogo diria. Mas que esse é o melhor livro do universo, isso é.

  5. Tuco

    Sem dúvida, um clássico de nossa pobre literatura. Mas tem esses destaques, além do Mauro, o Machado de Assis, Euclides da Cunha, Érico Veríssimo, Adélia Prado, iiiiiiii… são tantos que nem me lembro. 🙂

  6. Boa tarde, Lou

    …”aprendi(ou desaprendi) a valorizar as pessoas,ao invés do que elas reprezentam ou possuem. A mim, pouco me importa as designações que vêm antes dos nomes das pessoas. Entretanto, cada vez mais, essas coisas fazem a diferença no mundo ocidental”…

    Apreciei sobremodo esta parte do seu texto.

    È mesmo verdade que aqui no mundo ocidental, essas coisas contam mesmo… e de maneira!

    Aproveito para lhe contar um episódio ocorrido comigo há muitos, muitos anos atrás, quando eu era uma jovem mulher crente.

    Estava a ter inicio uma Assembleia anual da Convenção Baptista Portuguesa que decorria em Viseu.
    O auditório estava repleto de mensageiros enviados pelas Igrejas.
    Eu estava lá bem no meio com o meu bébé ao colo.

    O Prsidente da mesa da Assembleia, dá inicio aos trabalhos e saúda a assistência e, de uma forma muito especial, alguns Pastores, a quem trata por. Doutores, Engenheiros, advogados, etc. etc. Ora eu, percebi que ali havia alguma desciminação em relação aos outros Pastores que eram simplesmente Pastores. Pedi a palavra e disse: Irmão Presidente, creio que a forma mais linda e mais cristã de nos tratarmos aqui uns aos outros, será tratarmo-nos tão simplesmente como Irmãos em Cristo.

    Imaginem a cena! O pessoal todo a olhar para mim como se eu fosse “um bicho raro”, e o Presidente da Mesa um bocado atrapalhaDO, sem saber bem o que dizer…

    Passaram-se muitos anos e ainda hoje quando me encontro com alguns irmãos que assistiram a isto… eles me vêm falar sobre o assunto.
    Acham que eu fui muito corajosa.

    O certo é que os Pastores a partir daí… durante o encontro, foram todos tratados da mesma forma.

    Tenha um bom resto de dia
    Viviana

  7. Viviana

    Quem já frequentou o meio batista, como eu, há de valorizar ainda mais seu testemunho. Por aqui não é nada diferente. Fico a pensar por que pastores já mais do que vencedores (em termos de terem edificado igrejas prósperas) andam atrás de títulos e essas coisas. A vaidade é um saco sem fundo. Certo?
    Estou estudando a compra de uma patente de General. Que tal me chamarem em meio da convenção: Agora o General Lou Mello vai lhes falar sobre o cristão maltrapilho. 🙂

  8. Oi Lou !!… é mesmo muito gostoso ler-te !!… olha,a Adélia escreve como romantica e vive com os pés no chão só porque a gente escreve não o que se faz , mas o que queremos ser, o que queremos fazer , o que sentimos no escondido de nossas almas… Agora, pra conversar com bons capricornianos que somos, só mesmo a tua Dedé, e o meu Tatá…( ta vendo, a gente até escolhe companheiros com apelidos especiais !!..rsrsrs).
    Obs. adorei “burrentude”,…rsrsss… e, “Você esta louco!” do Ricardo Semler é bem interessante.

    Abraços
    Alice

  9. Alice

    Quando citei o Senler, tinha em mente o livro “Virando a própria mesa” que considero um manual da superficialidade. Não li o “Você está louco!” que talvez ele tenha escrito em minha homenagem por não seguir o manual dele. Mas confesso que fiz a lista por ele recomendada e várias vezes ela esteve sobre a minha mesa com grandes chances de virar um post. Talvez os anjos do Senler me tenham impedido, sei lá. Mas uma hora sai, pode acreditar e aguardar. O Drucker é ótimo. Se eu tivesse seguido as diretrizes dele seria um sucesso pessoal e empresarial. Problema é que nasci com parafusos a menos ou algo assim… e comigo não funcionou.

  10. Olhai os lírios do campo foi nomeado por outro blog amigo SLetras. Assim continuamos esta RedeTeia cumprindo as regras.

    Pela blogosfera decorre uma inciativa com a finalidade de homenagear blogs de amigos que nos visitam ou que nós visitamos e que, de alguma forma, têm pontos em comum connosco.

    Desta forma o blog OlhaiosLíriosdoCampo foi nomeado pela Isabel, pessoa muito gentil e amável que possui um espaço que é um jardim de afectos, flores e sorrisos. “SLETRAS” (http://bc-beblogspotcom.blogspot.com/).

    Como é um blog muito bom, sim senhora!

    De acordo com as seguintes regras:

    1. Este prémio deve ser atribuído aos blogs que gostamos e visitamos regularmente, postandocomentários.

    2. Ao receber o selo “é um blog muito bom sim senhora”! devemos escrever um post incluindo:o nome de quem nos deu o prémio com o respectivo link de acesso+ a tag do prémio + a indi-cação de outros 7 blogs.

    3. A tag do prémio deve ser exibida no blog.Assim o blog http://olhaioliriodocampo.blogspot.com/, conhecido por OlhaiosLíriosdoCampo, declara que os blogs que visita e comenta, entre outros que comenta e visita lamenta não nomear são:

    http://abrigodossabios-paulo.blogspot.com/

    http://www.lhmbrasil.com.br/blog/

    http://alicenopaisdopensamento.blogspot.com/

    http://cantodojo.blogspot.com/

    http://amorfraternal.blogspot.com/

    http://deferipula.blogspot.com/

    http://gaivota-mareterra.blogspot.com/

    Porque é uma jardim de sentimentos e de amizade.
    Isabel

    A Gruta do Lou porque:

    È uma Gruta fresca, onde crescem as verdes avencas da Esperança, e onde gotejam águas limpidas e refrescantes, dum coração aberto e sincero.

    viviana

  11. Viviana

    Agradeço imensamente sua escolha. A Gruta, mais uma vez, está em festa pelo reconhecimento e apreço. Deus a abenço abundantemente. Prepararei o post com meus indicados e colococarei o prêmio em exibição. Posteriormente ele será abrigado na nossa sala de troféus, dedicada a Deus que é verdadeiro merecedor de tudo isso. Grande beijo do Lou e seus auxiliares.

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