A Gruta do Lou

Teologia Brasileira

Domingo, Janeiro 22, 2006

Tempos atrás, participei de um encontro da SETE, braço da SEPAL voltado aos seminaristas. Meu papel foi dirigir um workshop sobre entidades cristãs voltadas ao social. Como preletor principal trabalhou o Julio Zabatiero e o tema dele foi “O reino de Deus”.

Ainda tenho comigo o esboço dessas palestras. Lembro-me das intensas citações a George Eldon Ladd. Por causa delas, adquiri dois livros ótimos “The Gospel of the Kingdom” e “The Presence of the Future” desse autor e sem tradução em português (que eu saiba). Também foram citados vários teólogos latinos ligados à teologia da libertação.

Uma afirmação do Julio me incomoda até hoje. Disse ele, lá pelas tantas, não existir uma teologia brasileira. Mesmo a participação de teólogos brasileiros na teologia da libertação não supria essa lacuna, pois a teologia da libertação era latina hispânica e, nesse universo, nós sofríamos certa marginalização, por não sermos hispânicos.

Sempre desconfiei desse negócio dos rotulamentos. Eu já existia quando criaram o Terceiro mundo. Antes disso éramos muito mais prósperos. Vivíamos em um país onde as pessoas recebiam um pagamento honesto por uma jornada de trabalho honesta. Quem sustentava a família era o pai. As mulheres eram femininas e gostavam do papel maternal a elas dedicado.

Nesse sentido, a teologia da libertação contribuiu para ratificar nossa condição de terceiro mundistas. Fomos nivelados às nações hispânicas socialmente subdesenvolvidas como a Bolívia, o Paraguai, Equador, Peru, Colômbia, Guatemala, El Salvador, Nicarágua, etc.

Também jogaram nesse saco países hispânicos bem estruturados e desenvolvidos como Argentina, Chile e Uruguai, que assim, decaíram e aproximaram-se dos outros. Enfim, nos convenceram ou condenaram ao limbo no bando dos miseráveis e nós aceitamos isso.

Mais tarde, fomos considerados como um dos países em desenvolvimento, quando descobriram que éramos a oitava economia do mundo e trataram de liquidar com ela, com a ajuda dos nossos governos omissos e subservientes aos interesses internacionais.

Mas, em meio a tudo isso, volta a questão da teologia e percebo não haver, de nossa parte, nenhuma contribuição relevante.

A Igreja mantém-se à margem ou pior, une-se à escória. Não sabemos em que cremos. Quem é Deus, Jesus Cristo, a Igreja, a salvação, o espírito, a família, o homem para nós. Em que nós cristãos brasileiros pensamos e acreditamos? Minha sensação é de sermos um povo a repetir as bobagens ensinadas pelos neo-teólogos americanos. Não nos damos conta para onde essas boçalidades estão nos levando ou já nos levaram.

Nós aceitamos isso e a mediocridade latina porque não tínhamos nada. Max Weber já tinha demonstrado que a riqueza se processou na esteira do protestantismo calvinista e a pobreza na esteira do catolicismo. Deixamo-nos levar por esses ventos. Passamos a acreditar em um cristianismo não reformado e pré-luterano, ensinado pelos missionários americanos e hispânicos dissidentes da teologia calvinista.

Não temos a teologia calvinista e não temos nada, na verdade. Qual a diferença feita pela Igreja cristã nessa mudança que nos transformou em povo do terceiro mundo? Estamos pobres, em todos os sentidos, porque nossas crenças são frouxas.

Estamos dividindo nossa espiritualidade e riqueza (os restos que não são pagos aos países ricos em forma de juros e diferenças monetárias) entre indivíduos, ao invés de dividirmos entre as famílias.

Pusemos a mulher e os jovens no mercado de trabalho e desempregamos os pais e maridos. Por quê? Porque agora cremos na prosperidade, cura interior, células, propósitos e todas essas heresias grotescas. Deus não é mais deus da Igreja e da família, do pai, da mãe, dos filhos. Deus agora é deus do indivíduo. Assim nos ensinam Rick Warren, Kennet Hagin, Morris Cerulo, Edir Macedo, Cesar Castelanos, Estevan Hernandes e esposa e seus seguidores.

Talvez Barth tenha razão e o inferno seja este. Reino de Deus é que não é. Ah! Mas um dia eu morrerei. Então, irei para o céu e lá conhecerei o verdadeiro Reino de Deus. Já sabemos qual é a resposta a essa bobagem. Quero ser como um Neemias aqui e agora. Quero construir o muro já.

Não quero andar dizendo que estou cheio do espírito quando meu íntimo está vazio. Quero o Reino de Deus hoje e aqui, no Brasil. Caso contrário, contratarei um coiote e imigrarei para os EUA ou Inglaterra “The Holy Land where ‘In God we trust’”.

# posted by Lou @ 2:37 PM

4 thoughts on “Teologia Brasileira

  1. Ei, Lou, traduza alguma coisa de Ladd pra gente conhecer. Poderosa em seus efeitos é a citação de um justo.
    # posted by Paulo Brabo : 1/23/2006 6:41 PM

  2. Paulo, pode ser, mas, vai demorar um pouco. Mais provável em um sábado, por ter mais tempo.
    # posted by Luiz Henrique Mello : 1/26/2006 10:24 PM

  3. Pelo menos o “lema americanizado” o governo ainda não adotou não é?!
    Eu confesso que acho triste um presidente inconsequente como Bush usar o nome de Deus para as loucuras que vem fazendo e dou toda razão para os muçulmanos que não acreditam em ocidental algum, afinal, se é esse o Deus que os ocidentais servem Ele é muito cruel por aprovar esses atos de invasão, submissão forçada, e não interferir… Palavras de pessoas que viveram a guerra, deveríamos ao menos impedir que o nome de Deus fosse usado nessa sandice, mas (concordando com você Lou) vivemos um cristianismo frouxo!
    # posted by Camila : 1/27/2006 1:22 PM

  4. Então vamos construir o muro!Tenho visto que grande parte das pessoas entendidas da Bíblia e de Teologia falam ,falam,mas fica no falatório,construir o muro,como você diz,que é bom nada.Se quem entende e sabe, não faz,o que dirá o resto!Na minha maneira humilde de ver,mesmo sem uma Teologia nossa,botar a mão no arado é coisa que qualquer um pode e deve fazer,sem desmerecer o artigo.

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