A Gruta do Lou

60 anos

Lou 60
Lou 60

O que faz um homem quando chega aos sessenta?

É, acho que terei que descobrir.

Quando fui fazer o seminário batista, só queria descobrir a teologia, era licenciado em Educação Física e tinha meu trabalho. Entretanto, o objetivo de todos os outros alunos e alunas lá me assustou. Os caras estavam ali para conseguir um diploma, coisa que só as faculdades podem conceder, depois passar por uma junta e chegar à ordenação ao ministério pastoral, habilitação necessária para o pastorado. Pelo menos, até aquela época. Hoje em dia, a formação banalizou-se, nem os presidentes precisam mais dela. Ah, qualquer um pode virar pastor ou presidente, da noite para o dia, agora.

Depois de ter estudado um pouco, não foi difícil perceber a necessidade de experiência para tratar com pessoas e ainda ser responsável pela espiritualidade delas. Isso me levou a pensar em um plano, coisa simples, comecei a dizer a todo mundo que aos cinqüenta me tornaria pastor, pois então seria experiente e sabido o suficiente, já que os cinquenta pareciam bem distantes, ainda.

Depois de uns anos na missão,  me ofereceram uma congregação, lá mesmo na escola faziam isso, ficava lá para os lados de Morro Grande, divisa com Osasco e a igreja mãe era a de Perdizes, vizinha à escola. Fui lá coloquei tudo em ordem e depois entreguei para eles tocarem em frente. Em seguida me deram outra, na Vila Madalena, uma casinha na beira do barranco ameaçada de despencar morro abaixo. Cuidei das pessoas, mas foi frustrante, nos dois casos. Aquilo não poderia ser o tal ministério, pelo qual aquela gente toda era capaz de vender até a mãe para conseguir.

A partir daí, comecei meu distanciamento da Igreja, uma lenta e constante caminhada rumo ao cargo de ovelha perdida da casa de Israel. Voltei a trabalhar em uma Igreja, anos depois, mas não no ministério, na função de nerd, por alguma razão os computadores pessoais entraram na minha vida e acho que levava jeito para mexer com eles. Acabou virando meu trabalho, em um tempo que nem todo mundo conseguia entender como aquelas geringonças funcionavam, ao contrário de nossos dias, onde qualquer um sabe como usá-los.

A propósito, o desejo de conhecer a teologia nunca arrefeceu, naqueles anos conheci o Zenon Lotufo Jr. que também fora pastor, depois tornou-se uma espécie de capelão de pastores da Igreja Presbiteriana Independente, além de teologia ele tornou-se um dos mais capacitados psicólogos no nosso meio. Com ele minha teologia cresceu e minha psicologia melhorou muito, também. O melhor é que não me custou nada, embora acho que o Zenon não possa dizer o mesmo.

Bem antes dos cinqüenta eu já havia esquecido aquela história de ser pastor. Às vezes, batia uma pequena inveja em ver algum dos meus ex-colegas de seminário se dando bem num ou noutro pastorado. Alguns deles conseguiram até enriquecer e não faço idéia como isso é possível em igrejas batistas, ainda se fosse uma neopentecostal, vá lá. Não acho que sejam desonestos, devem ser muito mais inteligentes que eu, não me tornei pastor e muito menos enriqueci.

Enfim, há poucos dias completei sessenta e deveria estar me aposentando, pois já completei mais de quarenta anos de trabalho. Mas isso não é possível. Talvez daqui uns quatro ou cinco anos, se conseguir fazer as coisas certas, daqui para frente. Para isso precisarei fazer recolhimentos mensais constantes e será necessário ter receitas suficientes para gerá-los.

Fora isso não sei mais o que um homem de sessenta deveria fazer. Sei que não posso parar, pois não foi só o pastorado que deixei de conquistar, não logrei uma casa própria para a família, nem algum tipo de poupança e ainda tenho pessoas que dependem de mim. Gostaria de deixar uma casa para o pessoal antes de partir, pelo menos. O fato é que nunca fui muito chegado em pensar no amanhã. Só que agora isso não é mais opcional.

É talvez isso seja um plano, é simples, eu sei. Só preciso encontrar alguma oportunidade e uma ou duas pessoas com certo senso de subversão para algum tipo de parceria profissional anti capitalista. Isso e uma boa ajuda de Deus, sem dúvida.

Salve meus sessenta anos.

 

Ops: Alguém lembrou bem, essa desgraça ocorreu em 8 de janeiro,
 mas só agora encontrei um espaço em nossa ocupada agenda de posts,
 para fazer essas ousadas revelações. :)
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8 thoughts on “60 anos

  1. Acho que aos sessenta – chego lá no ano que vem – a gente descobre que não chega lá coisa nenhuma, porque não há “onde” chegar. Sessenta é como 50, 30, ou 10. Apenas, ficamos mais velhos, o que tem algumas vantagens (família, algumas boas lembranças, amigos, etc), muitas desvantagens (doenças, falta de energia, falha da memória, etc).
    Só.

    Concordo com tudo, menos com a falta de memória, né o….. como cê chama masmo? 🙂

  2. Meu caro … “A natureza benigna providenciou de qualquer modo que em qualquer parte voce encontre algo para aprender (leonardo da vinci).

    Francisco
    Não vejo como discordar do Leonardo, nem de você. Só nos resta seguir aprendendo, então… o que não é mau.

  3. Amigo,
    lembro-me das aulas de história, que só os sexagenários poderiam chegar ao senado romano.
    Você é um fundador do Movimento.
    Abraços e felicitações fraterníssimas!!!
    (Qualquer dia, qualquer hora minha carta, aquela, ainda chegará aí… provalvelmente antes dos 70)

    Roger
    Mas, sem dúvida, agora eles mudarão a idade para chegar ao senado romano para 65. Faço compras em um supermercado aqui perto, chamado Santo, onde haviam caixas especiais para pessoas com mais de 60 anos. Semana passada, eles mudaram as placas informando que esses caixas destinam-se aos idosos com mais de 65 anos. Não esqueça de registrar a carta, dessa vez. 🙂 Beijo na careca

  4. Lou, meus parabéns! Quando você e o Roger falavam sobre a idade do senado romano, me veio a mente como andam aumento o limite de idade para aposentadoria. Pelo jeito daqui a alguns dias vai ser aos 70. Um abraço.

    Não esquecendo que a média de vida do brasileiro está em 73, ou seja, o governo pretende se livrar de pagar aposentadorias definitivamente, mantendo as receitas provenientes das contribuições ao INSS.

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