A Gruta do Lou

Cristão pós-moderno

“O plano que vou apresentar-vos agora não deve parecer fora do comum ou de impossível realização. Sei, porém, que ele talvez assim seja considerado por um grande número de membros da igreja. Vou expô-lo do modo mais simples e mais categórico possível, para evitar má compreensão. Desejo voluntários da Primeira Igreja que se comprometam, ardentemente e conscienciosamente, durante um ano inteiro, a nada fazer sem perguntar primeiro: Que faria Jesus? Devendo cada um, depois de feita essa pergunta, seguir a Jesus, tão exatamente quanto possível, sejam quais forem as conseqüências.”

Charles M. Sheldon do romance Em seus passos, que faria Jesus?

Tenho em minhas mãos o exemplar do livro citado. Está um pouco judiado, o que indica um manuseio intenso em alguma época. Pelas pistas encontradas, adquiri-o na década de setenta. Afinal foi ai que ele fez grande sucesso. Foi editado pela Casa Publicadora Batista.

Não posso evitar certa emoção ao manuseá-lo. Esse é um daqueles livros que passam por nossas vidas e deixam marcas profundas. Como todos, também tentei aplicar o método no meu dia-a-dia, se bem me lembro. Mas Jesus mostrou-se pouco afeito aos problemas de um cidadão moderno e mundano. Sabe, ele não demonstrou o jogo de cintura necessário e acabei abandonando-o em alguma esquina da vida.

De lá para cá, no máximo, pergunto o que “eu” faria nessa ou naquela situação e mando brasa. Jesus ficaria empatando o meio de campo com aquelas suas perguntas irônicas e peculiares. Fora aquela mania de ficar tratando todo mundo do mesmo jeito. As coisas não são assim, por aqui.

Neste ano pós moderno, próximo do fim, passei por situações as quais ele haveria de complicar muito mais, se eu solicitasse sua opinião divina. Primeiro, Jesus não entendia nada de finanças. Vejam vocês aquele caso da tal viúva pobre. Os maiorais vieram e depositaram no gasofilácio quantias substanciais. Ai veio aquela viuva pobretona lá e jogou uma moedinha de fazer rir. O que Jesus disse? “Ela deu mais do que todos.” Ora isso é uma questão matemática. Mais é mais e menos é menos e ponto. Os neo pentecostais, devidamente insuflados pelo alguma coisa Young Cho, vivem pedindo a “oferta da viúva pobre”. Eu não quero essa miséria. Quero a oferta dos maiorais. Percebe como Jesus não pode ficar do meu lado?

Já imaginaram o que Jesus diria na hora em que eu fosse preencher um cheque sem fundos? E na hora de comprar alguma coisa a crédito? Sem emprego ou receita constante. Certamente, ele me desaprovaria o tempo todo. Viraria minha consciência, meu pai protetor negativo.

Se eu perguntasse agora a ele: Devo continuar morando nessa casa boa e confortável, mas com aluguel que não posso pagar e está sempre atrasado ou ir para debaixo da ponte com minha família? O que ele faria no meu lugar? Já sei, “as raposas tem seus covis…”. Não , não daria certo. Ele não sabe nada desse mundo.

E não estou mencionando computadores, a internet, o blog, o celular, o Ipod, a câmera digital, etc. Isso seria desleal. Seria ridículo perguntar: “Senhor, qual o melhor tema para o meu blog?” Ele me olharia com aqueles olhos meigos e diria o que: Blog? O que é isso?

Em meus passos o que faria Jesus? Choraria a pampa. Pelo menos, rolaria uma revoltazinha. Ia chutar minhas pombas e as minhas idéias vendilhãs, minhas estratégias de captação de recursos (boas para meus clientes), de marketing e todas as minhas coisas queridas.

E o Thomas, no mínimo ia querer curá-lo, depois de perdoar seus pecados. Uma razão a menos para conseguir a peninha dos outros. E ainda por cima ia me chamar de homem de pouca fé. Não, ele não seria capaz de trilhar meus passos. Melhor ele lá e eu cá.

Sou um cristão pós-moderno. Jesus? Nem sabemos direito quem ele é. Nem mesmo se era Deus ou teria sido elevado ao posto pelos líderes da igreja, em séculos posteriores. A igreja cristã não é confiável em nenhuma de suas versões. Sou liberal demais para os ortodoxos e conservador demais para os liberais. Gosto de computador, globalização, hi-tech, etc. Ah! E de um vinhozinho e uma boa cervejinha. Depois ir lá na casa de recuperação e falar para aqueles caras não beberem.

Jesus fica ai insistindo comigo. Toda hora, perdão e mais perdão. Será que ele não se cansa. Sou um caso perdido. Agora não venha querendo me dizer o que fazer ou não. Não dá para perceber o que fiz com a minha vida, sozinho? Precisaria eu de alguma intervenção celestial. Ora bolas!

Em meus passos, Jesus enlouqueceria.

Mas, há trinta anos atrás, gostei muito do livro. Pena ele não ter sobrevivido ao mundo pós-moderno. Entretanto, tem ai um monte de livros mais atuais que nos ensinam a viver o momento com propósitos ou sem e mais adequados ao momento presente. Só não pergunte a Jesus se ele os leria.

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