A Gruta do Lou

Falsidade Teológica

“Por toda parte desencavei o instinto teológico: é a forma mais divulgada, a forma mais peculiarmente sub-reptícia de falsidade que existe sobre a terra.”

Nietzche em “O Anticristo, maldição do Cristianismo”

O que é bom? Tudo que eleve no homem o sentimento de potência, a vontade de potência, a própria potência.

Ontem, repeti o que venho fazendo nos últimos dias: fui a um culto. Era feriado em Sorocaba, por causa do aniversário da cidade, então imaginei que o culto da tarde na Igreja Paz & Amor, denominado “Tarde da Vitória” estaria concorrido e seria uma boa oportunidade para vender Bíblias e livros. Além disso, a Igreja fica perto de casa e isso me pouparia o físico, já que estou obrigado a levar o carregamento e não disponho de automóvel, no momento. Se bem que, ao sair de casa, encontrei meu vizinho e ele me ofereceu carona, livrando-me desse martírio.

O que menos fiz lá foi vender. Aliás, não vendi um único item. É uma Igreja pentecostal e não costuma incentivar a leitura. O pastor, um amigo, não tem a leitura em bom lugar, em sua ordem de preferências, embora seja um bom homem. Então, restou-me acompanhar os acontecimentos. Depois dos louvores de praxe, a “palavra” foi entregue a um pregador assembleiano vindo do Rio de Janeiro. Ele cantou mais algumas músicas e depois iniciou algo que ele chamou “uma mensagem de Deus para vocês”, com base em Marcos 16: 17 a 18.

Quando ele mencionou o texto, lembrei imediatamente do Dr. Shedd, nosso professor de Novo Testamento na Faculdade Teológica Batista: “Nunca preguem mensagem usando o texto de Marcos 16 a partir do versículo 9 até o 20, pois, não pertence aos melhores manuscritos.” Não sou tão radical quanto o Shedd. Mas, confesso, esse texto me incomoda, especialmente esses três versos escolhidos pelo pregador. Tudo bem, ele não me pareceu ter nenhuma grande intenção que não fosse promover um rito absolutamente pentecostal com falação de línguas, expulsão de demônios e curas.

Como sempre e infelicidade do preclaro irmão, ninguém falou em línguas, ficou endemoninhado ou deu oportunidade para ser curado de alguma enfermidade. Assim, ele terminou fazendo profecias: “O irmão de cor ai no fundo, com camisa azul, Deus me mostra isso e aquilo.” “A irmãzinha aqui na frente, aquele negócio esperado, será assinado porque Deus está liberando ele agora.” E, é claro, o casal de pastores da Igreja, não foi poupado.

Essas manifestações são sempre muito interessantes. Eu fico de olho em tudo, quando isso acontece, especialmente nas reações. Já vi muita saia justa nessas ocasiões. Sou uma presença péssima, em reuniões desse tipo, especialmente para os profetas. Acreditem que nunca Deus disse a nenhum deles que em minha casa há uma pessoa vitimada por grave enfermidade. Mesmo quando oraram por mim, Deus nunca lhes mostrou minha situação financeira depenada ou minha reticência quanto ao método. Nem mesmo quando eles foram à minha casa com o objetivo de orar por mim e minha família.

O último que levaram, foi informado pelo divino que alguém em casa era fumante. Belaroba, todo mundo sabe que a Dedé fuma, lá em casa. Ou seja, Deus gastou uma revelação profética para revelar o que já era sobejamente revelado, mas, ignorou uma grave enfermidade no quarto ao lado ou a carteira vazia, em meu bolso.

Entretanto, Deus não esteve totalmente apático durante o culto. Senti-o falando comigo. Um pouco constrangido, Ele me perguntou (pelo menos me pareceu assim): “Você já percebeu que Eu nunca respondi às suas principais orações?” Isso é uma grande revelação e Deus falou comigo diretamente, sem usar nenhum profeta. Até poderia ter usado, se houvesse algum por perto.

Fiquei com essa pergunta na cabeça e hoje acordei muito antes da hora habitual. Tratei de orar e dizer a Deus, tim-tim por tim-tim tudo o que Ele me falou ontem naquele “culto”. Deus não responde minhas orações, pelo menos as mais importantes, não. Engraçado é que eu creio Nele. De verdade. Não tiraria um j ou um ~ de tudo o que disseram de Jesus no Novo Testamento e ainda aceitaria encaixar outros ditos não canônicos. Mas, não tenho razões pessoais para isso. Fui sempre o preterido de todos os processos, inclusive de receber graças divinas. Não sou capaz de afirmar que Deus me deu algo, nessa vida, até para não comprometê-lo. Minha falta de prosperidade e felicidade envergonharia o mais pobre dos deuses.

Alguma coisa não funcionou e suspeito tenham sido os conjuntos de crenças oferecidos. Não dá para aceitar as bobagens ortodoxas do Nicodemus e seus amigos ou as asneiras dos meus amigos pentecas. De todos só peço a amizade.
# posted by Lou @ 9:58 AM

lousign

3 thoughts on “

  1. Em cheio. Mas isso é um mistério reservado aos iniciados na senda das bem-aventuranças do Cristo, ou seja, os que choram, os pobres de espírito, os perseguidos, os humilhados, os pecadores, as meretrizes, ou seja, todos os que estão na gruta.

    Lou, quando leio coisas como essa que você escreveu tenho as esperanças renovadas. Eu ficaria muito deprimido se lesse de um amigo um discurso como o de certo televangelista neopentecostal, que afirma nunca mais ter ficado doente depois que aprendeu a “determinar” a cura. Desde meu primeiro contato com este blog tive a sensação de que havia encontrado alguém incomum, e incomum para mim significa raro, invulgar, acima da mediocridade, de valor.
    Além disso também senti que não estou sozinho.
    # posted by Hernan : 8/16/2006 11:14 AM

  2. Hernan

    Há muitos cristãos pensando assim. Como você disse, iniciados na senda das bem-aventuranças. Certamente, não os encontraremos pregando nos principais púlpitos, as editoras evangélicas não publicarão seus livros e eles não serão entrevistados na Rede Gospel. São pessoas comuns como você e eu, mas, gente muio boa.
    # posted by Lou : 8/16/2006 5:52 PM

  3. Pingback: Lou Mello

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