Esquerda, direita ou coisa nenhuma


Assim como nos perguntaram (ao Paulo Brabo e a mim), muitas vezes, se éramos membros de alguma igreja, também tenho recebido a pergunta se sou de esquerda ou de direita, outras tantas vezes. Imagino que o Brabo também seja alvo dessa pergunta, bem mais do que eu. Ele defendeu a pergunta sobre a igreja braba… digo bravamente e eu tentei fazer o mesmo, algumas vezes.

Agora, em meio à crise política cheia de consequências ruins para a economia do país, obviamente, com enormes feitos consequenciais às populações mais sofridas, por serem mais carentes, ainda mais, quando somos obrigados a desalojar um governo dito de esquerda, maior responsável pelo atual estado de coisas, sem deixar de lembrar a contribuição dos governos antecessores para tanto, torna-se inevitável sermos chamados de oposição reacionária.

Se não me falha a memória, e já estou entrando naquele fase em que minhas lembranças estão ficando mais lentas, o último pleito no qual participei foi aquele plebiscito sobre a forma de governo (monarquia, presidencialismo ou parlamentarismo). De lá para cá acho que voltei no primeiro turno de uma eleição e não votei no segundo turno. Nem me lembro quando e para que e muito menos em quem teria votado, no primeiro turno. Mais provável que tenha sido em algum candidato que não tinha chance nenhuma, então a mãe dele e eu não o deixamos pagão. Coitado, deve ser muito chato não receber voto algum. Mas não faço a menor ideia de quem seria. Sou muito cético e bem informatizado para acreditar em urnas eletrônicas em um país onde enganar é o nosso jogo predileto.

Minha única indignação nessa crise é com a corrupção, especialmente nos níveis em que as coisas foram levadas. Nosso país ultrapassou todos os limites conhecidos nesse quesito e, dificilmente, será alcançado nos próximos séculos. Com isso, nós, nossos filhos, netos e seguintes vamos ter que conviver com esse barulho em nossos ouvidos, do povo mais corrupto da Terra.

Sou mais ligado às coisas espirituais. Para mim, a vida não se define em bens e/ou contas bancárias. Talvez tenha exagerado nisso e devesse ter amealhado um pouco mais, evitando constrangimentos à minha família. Por outro lado, tivemos algumas aventuras do tipo fio-da-navalha. Nesse caso, talvez pudesse ter feito mais por nosso filho que se foi, vai saber. Fato é que, após três anos, ainda não durmo direito por causa disso. Às vezes ainda choro no meio do dia…

O C. S. Lewis, autor de quem gosto muito, escreveu no seu livro “O Problema do Sofrimento” no capítulo da “Bondade Divina” que Deus se fez homem e vive como uma criatura entre as Suas próprias criaturas na Palestina, Sua vida é então de supremo auto sacrifício e o leva ao Calvário. Um moderno filósofo panteísta declarou: “Quando o Absoluto cai no mar se transforma em peixe”; do mesmo modo, nós cristãos, podemos apontar para a Encarnação e dizer que quando Deus se esvazia da sua glória e se submete àquelas condições únicas sob as quais o egoísmo e o altruísmo têm um claro significado, Ele é considerado como inteiramente altruísta.

Amar, meu caro, não é bem o que Vinicius de Morais dizia em sua visão tacanha de homem mundano, a saber “Que o amor seja eterno enquanto dure”. Para Deus, o amor será eterno quando formos capazes de dar nós mesmos em favor dos seres amados por toda a eternidade, sempre e sempre, se me permitem a redundância.

Estou convencido que nem a direita e muito menos a esquerda sobreviverão a uma revolução assim. Tão pouco os que se esvaem junto com suas imoralidades verão a glória de Deus. O moralismo não é condição, torna-se mais um aspecto do que não é, apenas, quando se desmancha nas entranhas dos egoístas.

O Paulo Brabo afirma que o blog dele é o lugar onde as ideias estão condenadas às reformulações eternas. A minha proposição desde os tempos de ginásio vocacional é bem parecida e, nesse caso, vou na linha do Vinicius, ou seja, minhas ideias são eternas enquanto não forem modificadas por algum novo saber.

Portanto, mesmo se assumisse alguma posição política, ela seria temerária, pois estaria correndo sério risco de ser traída a qualquer momento. Melhor não. Prefiro deixar o rio livre. Certamente ele encontrará o caminho para o mar qualquer dia desses.

lousign