Meu sexagésimo quarto Réveillon

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Pra ser bem franco, nunca me dei bem com essa festa. Acho que depois de tantos anos, ainda não consegui descobrir a diferença entre esse ano e o próximo. Bom, nunca é tarde para aprender e, quem sabe, não descubro onde a porca torce o rabo desse ano para o próximo.

Quando acordei hoje, ainda sem sair da cama, tempo de minhas orações, geralmente, tentei convencer a Deus sobre o quanto Ele está me devendo, ainda. Claro, Ele não me deve nada, mas nunca é demais insistir. Como diz certo picareta de nossos dias, “uma mentira dita muitas vezes acaba virando verdade”.

Em todo caso, pretendo ter paz no próximo ano. Se isso acontecer, no próximo Réveillon poderei mudar minha declaração para: Agora há uma diferença entre o ano que finda e o ano que vai nascer. Não me lembro onde ouvi essa frase, mas ouvi.

Evidentemente, falei ao magnânimo sobre a casa perdida há tantos anos. Orra meu, não aguento mais brigar com proprietários de casas alugadas, fora as dívidas remanescentes. Alugar uma casa (ou apto.) é igual comprar um Fiat, uma incerteza na entrada e uma alegria indescritível na saída. Como dizia meu finado pai, um homem sem casa própria é um nada. Incrível como ele conseguiu me convencer disso.

Também lembrei das minhas outras perdas, sendo a do nosso filho perdido, disparada a pior delas. Mas acho difícil Ele me recompensar essa perda, pra não dizer impossível. Afinal… dizem por aí que Ele é o tal Deus dos impossíveis. Melhor deixar a barba de molho, então. De repente Ele me aparece com a poção dada a Abrão e Sara e Dedé e eu botamos um bacuri no mundo em idade avançada. Acredita?

Sem falar nos pais de João Batista, outro casal a tomar a poção. Isso só pra citar os casos registrados na Bíblia. Vai saber quantos outros há por aí, sem registro. Apesar de não entender todo aquele trabalho pra trazer o Batista à vida e depois deixar a vadia da Heródias (Salomé) pedir a cabeça dele em uma bandeja, sem chance do maridão negar. Você e eu sabemos o poder que uma esposa tem para conseguir certas coisas.

Bom, pelo menos essa opção Ele não tem mais conosco. Um filho tirado de nós precocemente e violentamente Ele já nos fez experimentar. Sobra, mesmo, a opção Sara-Abraão, acho. Enfim, não subestimarei a criatividade do Criador. Quando ele resolver criar, sai debaixo.

Minha esposa e meus filhos remanescentes são presentes inestimáveis recebidos nessa minha vida discutível e nada agradável. Mas a tristeza crônica deles me arrasa e esbofeteia minha cara a cada manhã. Provavelmente, uma boa parte disso, é minha máxima culpa. Se não for por outro motivo, será pelo fato de tê-los enredado na minha teia.

Está claro o fato de não estar descrevendo meu oráculo matinal com Deus na ordem certa. Apesar de parecer pouco indiscreto, não estou revelando os detalhes sórdidos dessas desgraças. Então você pode imaginar o tamanho dessas encrencas. Tive outras perdas duras e, especialmente aquelas as quais não fiz por onde, não foi fácil assimilar, se é que as assimilei.

Assim sendo, volto ao começo. Quero paz de criança dormindo, no próximo ano, não, mas nos próximos anos, sejam lá quantos Deus ainda me reserva. Às vezes penso ser essa a minha missão: Me ferrar. Mas não deve ser. Sou devagar mesmo. Meu apelido nos tempos de juventude era Slow. Agora você já sabe por que adotei o Lou. Quem sabe se ouvir Ex-Lou suficientes vezes acabo me livrando desse estigma. Pouco provável, né?

Mas para eu ter paz, o Divino vai ter que rebolar. Vai precisar me ajudar a ter trabalho, apesar de já estar fora da idade para essas intransigências, casa própria e isso é o de menos, pois o mais complicado será alegrar minha família. Quando meu filho se foi, uma amiga me escreveu dizendo que logo eu me apegaria aos netos e essa dor se tornaria mais suportável.

Taí. Outra reivindicação de fim de ano: netos. Só que, para isso, Ele precisará consertar as emoções e sentimentos dos meus filhos. Talvez Ele (ou eu) tenha entendido errado o Salmo da minha promessa. Onde diz, verás seus netos eu achei que seriam os filhos dos meus filhos, e Ele estava falando do Neto (por quem tenho o maior respeito e admiração) o meu amigo pastor e/ou o comentarista da Band (que detesto), talvez.

Então, é assim meu final desse ano. Para meu próximo ano fazer a diferença, Papai do Céu vai precisar melhorar muito. Quem sabe se Ele parar de mimar o Ed e outros queridinhos, dando a gente esquecida como eu, os outros pais de cardiopatas congênitos e ao Brasil um pouco mais de carinho e menos samba, suor e cerveja.

Tudo bem, a cerveja pode deixar, se for moderada. Mas não venha com aquela bênção dada a Ezequias, o rei que pediu mais uns anos de vida e Deus consentiu-lhe mais quinze, ocasião em que o reizinho gerou o pior homem da história, o querido Manasses, segundo o Billy Graham.

Essa champagne, mar e réveillon, acima, é tudo que você vai ver por aqui, nesse sentido. Mas o pessoal queridinho do Papai vai ter mais, muito mais, pode crer. Não é só inveja não, mas pura provocação ao Pai.

lousign