A Gruta do Lou

A Alma

A Alma
A Alma

 

“É por isso que eu uso parábolas para falar com eles. Porque eles olham e não enxergam; escutam e não ouvem, nem entendem”. Mt. 13:13

Pouco tempo atrás, estive em uma grande organização filantrópica. Meu propósito era oferecer um serviço inédito. Como essa organização é muito assediada por organizações menores que precisam de verbas para seus projetos, muitas acabam não conseguindo essa ajuda e saem de lá falando sozinhas. Imaginei criar uma forma de atender esse pessoal, ensinando-os a obter seus próprios recursos.

A senhora por quem fui atendido, me olhava e via um homem aparentando seus sessenta e poucos anos, um velho. Mal sabia ela que dentro desse corpinho surrado, faltando cabelos, dependendo de óculos, há uma alma sem idade. Afinal, almas não são medidas por anos de vida, pois elas são eternas.

A mulher também não era muito jovem, mas fazia esforço enorme para parecer mais jovem. Usava vestido curto demais, de tonalidade inadequada e decote impróprio. A certa altura, saquei um folder da minha mochila e dei para que ela lesse. Assim obriguei-a a fazer uso dos óculos de leitura que ela tentava camuflar sob os outros objetos sobre a mesa. Mas ela não entendeu minha mensagem.

Ela não me julgou por minha ideia-proposta. Avaliou-me por minha idade aparente, estampada nas marcas do meu corpo. Mas mentiu ao alegar a impossibilidade de aproveitar meus serviços devido à nossa falta de conhecimento mutuo. Mais de noventa por cento das pessoas que iniciam trabalho em algum empresa, são completos desconhecidos. Tudo a respeito deles está em algumas folhas de papel, um documento cujo nome é “Curriculum Vitae” e todo mundo sabe o quanto aquelas informações podem não ser verídicas. E isso eu também poderia fornecer e certamente conteria muitas informações, algumas bem surpreendentes.

De fato há um lado ruim em gente como eu. Há uma história de um homem que aproximou-se de um sábio e perguntou-lhe: Pode me informar quanto tempo eu levaria para chegar ao próximo vilarejo? O sábio olhou para ele e disse: anda um pouco. Pelo tempo gasto em um ou dois passos ele calculou quanto tempo ele levaria para andar até o próximo vilarejo. Quando começo a ler um livro, às vezes no prefácio, já sei se quero continuar a lê-lo ou vou cancelar aquela leitura ali mesmo ou em outros, isso acontece já nas primeiras páginas do primeiro capítulo ou na introdução. Isso deixa as pessoas mais jovens incomodadas. Elas não se conformam com essa minha capacidade e prefeririam que fizesse como eles, ou seja, experimentasse algo que para eles é novo, mas para mim é mais do que conhecido.

Outra característica insuportável para essa gente é eu ter resposta para quase todas as perguntas que me fazem. Na maioria das vezes preciso omitir a resposta e devolver a pergunta a eles fazendo-os pensar, outra atitude que eles demonstram pouca aptidão em praticar.

Claro que é muito bom ser jovem. Você não vai precisar fazer nenhum esforço para me convencer disso. A grande sacanagem com os jovens é o fato deles agirem como burros e digo isso no bom sentido. Embora não pareça, também já agi como um burro, muitas vezes. Só tenho pena dos burros que não merecem esse tipo de comparação, pois a maioria dos animais já vem ao mundo sabendo tudo que precisam saber e o que não sabem aprendem rapidamente. Enfim, a exigência com eles é bem menor. Começa com o fato de não precisarem ser alfabetizados, um ganho e tanto, para quem terá uma vida bem menor.

Quando eu trabalhava como professor, costumava dizer aos alunos logo na primeira aula, qual era a diferença entre os professores e os alunos, a saber: “alunos são seres que pensam que sabem, mas não sabem e professores são seres que pensam que não sabem, mas sabem”. O que eu não dizia a eles, pelo menos não na primeira aula, é que muitos ditos professores se pareciam mais com alunos.

Se as pessoas, jovens ou velhos, procurassem ver a alma do outro, certamente haveria muito mais entendimento entre nós. Infelizmente, as pessoas vivem um mundo de aparências. Acreditam no que podem ver sem grande esforço e em tudo que ouvem, mas não conseguem discernir, com raras exceções. O problema é que as verdades não costumam estar muito à mostra. Às vezes, precisamos olhar várias vezes para ver ou pensar muito sobre o que ouvimos para ouvir.

morcego-12


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