A Gruta do Lou

Venho como estou

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Chegamos à congregação uma hora antes do início do culto. Assustou-me a quantidade de pessoas presentes com tanta antecedência. O salão ficava no andar de cima e o acesso dava-se por escadas laterais. Fomos subindo e o zum-zum-zum do povo foi aumentando. Quando entramos no salão pude ver todas elas. Eram mais de quinhentas pessoas naquele lugar.

Levaram-me para a sala do pastor, atrás do palco (onde havia uma banda e um púlpito enorme, todo construído em acrílico). Naquela época, além deles, só o Rex Humbard tinha um daquele, acho.

O pastor me recebeu com a mão estendida. Havia outros homens na sala e estavam todos ajoelhados. Convidaram-me a participar das orações e ajoelhei entre eles. Ao som do velho hino “Venho como estou” As orações seguiram-se.

Notei que todos estavam de terno e gravata, apesar do calor, e alguns eram bem obesos. Eu vestia uma camisa social bege com dois bolsos, sem gravata e muito menos paletó, mesmo assim, estava derretendo.  A sala era pequena demais para tantos homens gordos.

Era domingo e todos deviam ter almoçado muito bem. Fiquei ali ouvindo atentamente cada oração. Todos eles pediram perdão por seus pecados da semana, alguns até citaram o crime.

Então um senhor, que depois vim a saber chamar-se Deoclécio, aliás o mais gordão de todos, começou sua oração e foi destilando seus pecados. Ao poucos comecei a notar um aroma estranho que começou a fazer do recinto algo parecido com um chiqueiro. Foi ficando cada vez mais forte e insuportável. Enfim, o seu Deoclécio disse a frase final de sua oração: Senhor, além de tudo isso, peço perdão por ter reparado nas pernas da Alzira.  Também com aquela saia curta… Ah! E peço perdão pelos traques que soltei aqui nessa sala enquanto orava, também. Em nome de Jesus. Amém.

Acho que nem o Brenan Manning ou a família Scolari seriam tão misericordiosos em perdoar o Deoclécio, pelo menos se ele sentisse o cheiro daquilo, garanto que não perdoaria. Abriria uma exceção na teologia dele: Deus perdoa e aceita todo mundo como está, exceto o infeliz do Deoclécio.

Capricornio PB

4 thoughts on “Venho como estou

  1. … eu sei bem o que é isso … passei por uma stuação assim em plena ministração de louvor… a catinga era tão forte que começei a tossir no meio da música…. detalhe: o catinguento era o pastor !!! ( mas parecia ter comido gambá)
    Bom dia pra vc

  2. Bete

    Sou campeão em deixar escapar oportunidades. Sabe aquele processo de auto-sabotagem? Mas pecados… não deixo escapar, nem que a vaca tussa. Pelo menos não em público. Reservo-os para os momentos de confessionário. 🙂

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