A Gruta do Lou

Vencendo a tentação

Nos tempos de grande aperto, quando nos sentimos como se estivéssemos no deserto, vivenciamos de perto a verdadeira tentação. Citei algumas vezes o excelente livro do Philip Yancey: O Jesus que eu nunca conheci. Se o livro contivesse, apenas, o capítulo “A tentação: revelações no deserto”, já seria ótimo. Às tantas, o autor diz: “Não tenho paciência para permitir que Deus opere de maneira lenta, cavalheiresca.”

Não é só pressa em ser atendido. Há uma boa dose de necessidade de manter o controle, de manipular os outros para fazer o que eu quero, do jeito que eu quero.

Khalil, com sua espiritualidade terra – céu, conseguiu transpor a barreira do tempo e as outras limitações, colocando-se à beira do deserto enquanto o Mestre lá estava. A certa altura, pensou: melhor preparar algo para ele comer. Santa pretensão, pois logo ele presenciou os anjos servindo ao Senhor.

Em momentos de deserto, as tentações me assolam com força máxima. Creio não errar se afirmar que nunca consegui vencer a tentação. Fico no maior deserto, dias e dias na maior penúria. Peço a Deus por misericórdia, que o tempo seja encurtado, desejo a morte dos meus perseguidores e daqueles que me desprezam ou simplesmente lavam as mãos. Odeio, diante do magnânimo Criador, aos clientes insanos que não me contratam e tenho todo o tipo de atitude indecorosa, sempre mantendo a carinha de vítima.

Como não sou o Nazareno, o diabo de plantão (provavelmente algum ajudante de limpeza do inferno) nunca chegou a me tentar com alguma tentação do tipo transformar pedras em pão, saltar do alto das torres gêmeas de Sorocaba (não riam, elas existem e posso provar) ou da torre da Igreja Matriz (a foto está aí ao lado). Jamais recebi uma oferta como aquela de ter o mundo aos meus pés, em troca de uma simples adoradazinha ao tentador. Essa eu aceitaria, no ato. Não, ele sempre me convence a sair do sufoco com minhas próprias artimanhas.

Creio que o Filho do Carpinteiro intercede por mim nesses tempos de escassez, impedindo o chifrudo de me tentar com tentações mais aceitáveis e menos discretas. Entretanto, permite que eu seja tentado a continuar sendo eu mesmo. Então, saio do deserto, com a maior cara de pau e do mesmo jeito de sempre, me sentindo poderoso e, nessas horas, faço aquela cara de mistério e espiritualidade. O problema é continuar sempre na mesma. Jesus foi ao deserto uma única vez e resolveu a parada com o cara da roupa vermelha. Eu já fui um monte de vezes (estou de novo lá) e nada. Sempre saio perdendo.

Não quero pensar no que aconteceria se eu esperasse a providência divina. Sou meio assustado. Acho que se os anjos aparecessem para me servir, eu sairia correndo. Não, eu não chegaria nesse instante, jamais. Sou fraco demais (quem lê entenda, minha fraqueza se manifesta em orgulhos e prepotências disfarçados em humildade). Basta um pouco só de dureza para eu cair na tentação de resolver a parada por mim mesmo. Pior é que minhas soluções são tacanhas.

Minha oração agora é no sentido de Deus desenvolver em mim a confiança e a paciência necessária para atravessar meu deserto e não sucumbir à tentação de continuar sendo eu mesmo.

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6 thoughts on “Vencendo a tentação

  1. Lou,
    não há como escapar do deserto, mas realmente, precisamos atravessá-los sofrendo mudanças.
    pelo menos, creio assim.
    e é sempre doloroso.
    só depois de vê-lo à distância, respira-se normalmente e as coisas voltam a ter brilhos e tons.
    🙂
    beijos,
    alê

  2. Alguns se habituaram a falar sozinhos e a fazer o que tem de ser feito, ainda que sem saber por quê. Não é seu caso, claro, mas é bem o meu.

  3. Lou, ainda há muita poeira do deserto a ser engolida, ísso ai é só o comeco. E quem foi que te disse que saímos do deserto? Puro engano, estamos ainda a procura e a espera da terra prometida.

    Abracos

  4. Muito bem, o deserto espiritual é ainda mais causticante do que o físico/natural, e “ele” existe exatamente para sermos provados e tentados. É pra lá que Deus leva o homem para observá-lo e posteriormente presenteá-lo com a bênção. Abraão ao deixar sua parentela, foi pra lá, Agar, muitos outros e inclusive Jesus, ao sair das águas também foi pra la. Aprendi que deserto é ambiente pra crente, pois para sobreviver lá é preciso ter fé.
    Acredite, o deserto que você atravessa, milhões atravessam também, confira em 1º Pedro 5:10. Mas o Oásis é logo ali, tenha fé, pois de fé em fé, alcançaremos a vitória. De deserto em deserto, alcançaremos o verdadeiro oásis: JESUS.

    Putz! Mas a sensação, na maioria das vezes, é que estou só, muito só.

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